terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sempre, os livros


Tenho uma vida à volta dos livros e com livros à volta. Nasci e cresci em casas cheias deles, em férias familiares de Verão dormi por anos numa biblioteca. Contudo, li sempre muito menos do que aquilo que desejava porque faço parte de um género de leitor saltitante que, com facilidade, deixa a meio o que está a ler para passar, de seguida, a outro livro, ao qual vai acontecer provavelmente a mesma coisa. O facto de ler, preferencialmente, não-ficção ajuda a essa instabilidade e o não ter pretensões académicas auto-desculpabiliza-me. Tempos houve em que isso me angustiava, em que quase me envergonhava intimamente ao encontrar, pelas minhas estantes, alguns livros não apenas por ler mas igualmente por folhear. Coisas compradas sob um entusiasmo de momento, que "faziam falta", que alguém me dizia "imperdíveis" e que eu, descuidado, acabaria por perder. Hoje vivo lindamente com isso. Sou assim e não dou o menor passo para corrigir-me. E a prova provada de que fui inoculado com um eterno e viciante vírus dessa natureza é o facto de persistir pelo mesmo caminho, de continuar a seguir o velho lema de que só há uma coisa melhor do que ler um livro, que é comprá-lo!

Mas, há pouco, preocupei-me. Andando por ruelas de Campolide, depois de cumprimentar, numa esquina, o melhor estofador do mundo (não digo o nome, porque ele não precisa de clientela e eu preciso que ele acabe umas coisas que por lá tenho), entrei num alfarrabista que não conhecia (posso publicitar: "Ferreira & Manteigas"). Um imensidão de oferta. Há uns anos, teria saído ajoujado de coisas boas que por lá encontrei (será fácil, em Paris, comprar uma 1ª edição da "Anthologie de l'Humour Noire", de Breton?), com imensa poesia, muito apreciável na História e uma Ultramarina sem raridades mas com livros importantes. E não comprei nada! A começar por um busto da República que estava na montra e que, confesso!, funcionou como um jacobino "driver" (para utilizar um termo da "minha" indústria de retalho) para me atrair. Mas nem a nossa "Marianne" (recente demais para o meu gosto) me mobilizou! E só não saí da loja de mãos a abanar... porque levava uma pasta!

O Congresso começou?

Correu bem o Congresso dos Jornalistas? Dizem-me que por ali ficou dita muita verdade, misturada com a angústia que atravessa muita gente da profissão, sujeita a precariedade laboral e a pressões diversas, a menor das quais não será a do imediatismo das redes sociais, que, dia após dia, competem com a imprensa escrita, de uma forma para a qual esta ainda não encontrou um antídoto eficaz.

Por aquela sala terá passado, muitas vezes, uma preocupação que é central para o utente das notícias e que, por maioria de razão, o deverá ser para os jornalistas: a questão da credibilidade. A classe parece ter já consciência de que, nos dias de hoje, paira uma forte descredibilização sobre a palavra dos jornalistas, vistos, às vezes, como veículos de inverdades ou de verdades enviezadas pelos interesses, pelos preconceitos, pelos alinhamentos doutrinários ou mesmo partidários - da geringonça ou da direita. Há um pouco a sensação de que, entre truques e malabarismos, desde títulos enganosos a notícias subliminarmente cheias de opinião, estamos frequentemente a ser servidos de gato por lebre. E deve ser terrivelmente desestimulante, para os ótimos jornalistas que existem em todos os órgãos de comunicação social, terem de conviver silenciosamente com quem se comporta nos antípodas das regras que eles observam.

Sei que não deveria ser fácil ao Congresso ter outro resultado, porque foi buscada a unanimidade, mas há que admitir que, nas conclusões finais, em especial naquilo que elas calam, continua a haver muita complacência corporativa com a imprensa de faca-na-liga, para quem o crime compensa em tiragens, onde o contraditório não é observado e a absolvição reside na abertura das colunas a alguma opinião contrastante. E tenho pena, francamente, que o chamado "serviço público", pago por todos nós, queiramos ou não, não tenha sido "chamado à pedra", como devido - apenas para nos ser explicado por que razão, não devendo ser as audiências a sua determinante funcional, se comporta como os "concorrentes" e não revela muitas vezes equidade e equilíbrio.

Para além do bom caderno reivindicativo sobre as condições laborais, espero poder testar o que vai sobrar, em matéria de determinantes deontológicas, com efeito prático no dia-a-dia, do muito de bom que foi dito no Congresso. Como utente, e no que me toca, acordei ontem com alguns títulos bombásticos com escasso apoio nos factos, com as "Sónias Cristinas" nos diretos vazios e desnecessários com "corneto" na mão, com os opinadores "jornalistas", que nos não dão factos limpos mas apenas a sua dispensável opinião sobre eles (eu preciso é de factos para formar a minha opinião), com telejornais com uma duração de terceiro mundo. Acordei, aliás, com a surpresa de ver que o Congresso teve uma cobertura noticiosa nesses mesmos órgãos muito inferior à real importância do evento. Para mim - leitor, ouvinte, telespetador - o Congresso verdadeiramente ainda não começou.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Maria Cabral

Era uma morena sardenta, que um dia alguém trouxe para o cinema novo que, por cá e em boa hora, tinha sido aprendido na Cinemateca de Paris, olhando o neorealismo italiano e a "nouvelle vague" francesa, vendo os americanos que importava ver, lendo os Cahiers e discutindo no Vává. Tinha no olhar uma rebeldia melancólica, um "mal de vivre" que ia bem com uma geração em transição, do rock à guerra colonial, pides pelas esquinas, muitos copos e alguma esperança.

Maria Cabral morreu, dizem, com 75 anos. Em Paris, como se deve morrer. Para mim, desculpem lá, ela terá sempre aqueles 20 anos.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O oito e o oitenta


Portugal é um país do oito e do oitenta. Durante anos, por cá, atravessar uma passadeira de rua era uma aventura. Nos guias internacionais sobre Portugal, os turistas eram advertidos para os riscos em que incorriam, caso partissem inocentemente do princípio de que os automóveis parariam à sua passagem. Ainda me recordo da admiração com que, na minha juventude, se falava das "zebra crossing" das cidades britânicas, com o respeito pelos peões como marca civilizacional.

O nosso país mudou. Embora alguns energúmenos ao volante (mas também os ciclistas, que agora estão em odor urbano de santidade, que os autoriza a incomodar-nos sem consequências pelos passeios) continuem a não respeitar as passadeiras, parece cada vez mais interiorizado o salto de civilização que representa o respeito por quem atravessa, no devido lugar, as nossas ruas.

Mas, em Portugal, com facilidade se passa de um extremo ao outro. Na generalidade dos países desenvolvidos, quando um peão pretende atravessar uma passadeira, há um anúncio físico dessa pretensão, seja por um assomar cuidado à rua, seja mesmo por um sinal de mão. E há, em geral, alguma delicadeza perante o facto do automobilista ter de abrandar ou parar, sendo vulgar que a travessia pedonal se faça tendo em atenção o facto do movimento das viaturas ser mais difícil de suspender do que o estacar, por um ou dois segundos, por parte do peão.

Entre nós, não senhor! Qualquer pessoa acha que o simples assomar, em passo sereno, mesmo sem olhar para quem vem, deve obrigar ao estacar imediato dos automóveis. E vemos cidadãos em conversa ao telemóvel, descuidados, outros arrastando-se com visível pesporrência, olhando, sobranceiros, os automobilistas. Outros ainda, à conversa mole, às vezes parando a meio para sublinhar um argumento. E cada vez se veem mais jovens a proceder assim.

Volto ao que disse no início: entre nós é o oito ou o oitenta. Ou melhor, pouca gente compreende que há sempre deveres, pelo menos cívicos, a respeitar por parte daqueles que têm direitos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Os riscos e as incoerências


Até 2011, muito pouca gente em Portugal tinha ouvido falar da TSU e dos seus critérios. Foi nos debates televisivos Sócrates-Passos que o tema surgiu, ainda um tanto críptico, para os não iniciados. Só um ano e tal depois, quando as principais malfeitorias governativas deixaram de ter como (cómodo) alvo de estimação a Função Pública e ameaçaram os assalariados privados, o país se deu ao trabalho de vir para a rua protestar (e travar) um certo modelo de TSU, que os seus "criadores" confessaram mais tarde ter surgido numa converseta numa viagem Lisboa-Bruxelas - o que permite hoje avaliar o sentido de responsabilidade de quem andava então pelo Campo das Cebolas. Nem mesmo as entidades patronais se aventuraram a abençoar essa "trouvaille". A descida da TSU para o patronato, paga pelos assalariados, acabou por cair e isso foi também o princípio da queda de Vitor Gaspar.

A TSU volta agora à baila. O governo PS quis agora introduzir um alívio à carga patronal, como compensação da aceitação da subida do salário mínimo. No Rato, sabia-se de ginjeira que a doutrina anti-empresarial endémica do PC e do Bloco nunca permitiriam o seu apoio à primeira medida, empochada que ficava a segunda. Assim, só com o apoio da direita ela poderia passar. 

Perante o acordo obtido em concertação social, o PSD esteve inicialmente silencioso, tendo mesmo mandado uma figura de segunda linha dizer, publicamente, que concordava com este alívio ao patronato, onde reside o seu "fond de commerce" histórico. Mas, depois, não resistiu e mudou de ideias. Entre a lógica de um partido com sentido de Estado - apoiar aquilo com que está programaticamente de acordo e rejeitar aquilo que contraria os seus princípios - há (neste) PSD uma terceira via, que é fazer tudo quanto possa prejudicar o governo, seja essa atitude coerente ou não com aquilo que sempre pensou e disse. Mesmo que isso aliene quem tradicionalmente o apoia.  

Ao PS, nesta corda-bamba em que anda, era tempo de fazer um gesto positivo para o setor empresarial, Ou conhecia mal (este) PSD ou resolveu correr o risco de confrontar politicamente a oposição com a respetiva incoerência. Convenhamos que foi uma tentativa um tanto "ligeira", numa questão desta importância. Passos Coelho sai pessimamente disto, mas António Costa também vai pagar um preço.

Resta Marcelo Rebelo de Sousa, que revelou o seu contentamento com o anterior acordo e a quem, ao que se sabe, Passos Coelho não alertou desta sua atitude obstrucionista no almoço da passada semana em Belém. Fica provado que, às vezes, "não há almoços grátis" para quem os oferece.  

Armstrong-Jones e Margarida


Leio agora que morreu Anthony Armstrong-Jones. Muitos não saberão quem é, pelo que talvez valha a pena começar por dizer que foi um excelente fotógrafo, em especial como retratista. Por quase duas décadas, período em que se tornaria mais conhecido, foi casado com a princesa Margarida, irmã da raínha Isabel II.

Lembro-me bem do tempo em que os amores da princesa Margarida eram, entre nós e não só, objeto de elevado interesse mediático e social. Nos anos 50, o mundo emocionou-se com o facto de ter sido recusada, pelo governo e pela igreja anglicana, autorização para o seu casamento com um oficial da Royal Air Force, o major Peter Townsend, por este ser divorciado. Recordo conversas ouvidas na infância, em que as pessoas se dividiam muito sobre o assunto.

Armstrong-Jones terá sido, assim, para a princesa, um "second best". O casamento durou 18 anos e Margarida, ainda durante e depois disso, viria a ter uma vida sentimental bem agitada, "to say the least".

Só a vi ao vivo uma vez, menos de uma década antes da sua morte. Foi num jantar, na embaixada de Portugal em Londres, em 1993, durante a visita de Estado de Mário Soares ao Reino Unido, onde esteve presente com a rainha. Não lhe dei muita atenção, a qual, posso confessar agora, estava concentrada em Diana...

Mas lembro-me bem de um episódio, semanas antes, quando escolhíamos, com o "caterer", as bebidas a oferecer a anteceder a refeição (durante e após esta, as bebidas foram portuguesas). Ele sugeriu champanhe, bebida preferida de Isabel II. Aceitámos a sugestão e ouvimo-lo então repetir, em voz alta, enquanto tomava nota: "So it will be champagne... and "Famous Grouse" for princess Margareth". Estive quase tentado em pedir um para mim!

Comecei a escrever sobre Armstrong-Jones - ou Tony como lhe chamava a "popular press" ou Lord Snowdon (depois de "feito" assim pela raínha) como era referido pelos "quality papers" - e acabei a falar nos conhecidos pecadilhos etílicos da princesa.

É assim de justiça, para equilibrar a atenção, publicar uma excelente fotografia de Margarida tirada pelo seu marido.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O trigo e o resto


Os jornalistas portugueses estão reunidos em congresso. A profissão atravessa momentos difíceis, com redações depauperadas, muita gente com vínculo precário, salários em geral baixos, com o futuro de muitos órgãos de informação em grave risco. 

Quero crer que este encontro, em que vejo envolvidos grandes profissionais do setor, é um importante momento de reflexão prospetiva sobre o que poderá vir a ser a comunicação social portuguesa nos próximos anos. Desejo, como utente, que possam chegar a boas conclusões, que as possam tornar operativas, com consequências concretas na melhoria das suas condições de trabalho, mas também com efeitos na qualidade do produto de que diariamente são obreiros. Porém, e sem querer ser pessimista, pergunto-me se ainda irão a tempo.

O jornalismo passou, nos últimos quinze anos, por um desafio a que claramente não soube dar adequada resposta: as redes sociais. Qualquer bicho careta, com um blogue, uma página de facebook ou uma conta de twitter, lança para o ar “notícias”, sem um mínimo controlo de veracidade dos factos, com estes quase sempre embrulhados em opiniões de qualidade duvidosa. A comunicação social, em lugar de se distanciar, de reforçar o seu papel de referente da verdade, da precisão e do rigor, deixou-se embalar por essa moda. E a que é que assistimos ? Vimos e vemo-la a citar preguiçosamente a blogosfera e as graçolas do twitter, a deixar-se guiar pelas pistas lançadas na internet. 

Espantamo-nos também ao observar jornalistas a quererem ser vistos como isentos e neutrais nos textos elaborados na sua profissão e, ao lado, a subscreverem opinião enviezada nas redes sociais, num triste modelo de “Dr. Jeckill and Mr. Hyde”. A primeira vitória de um jornalismo que se pretenda de qualidade passa pela total autonomização face às redes sociais, resistindo ao imediatismo destas, praticando por sistema o “fact-checking”, confrontando fontes e ouvindo partes. O utente da comunicação social, se esta quer ter um futuro, tem de reganhar o velho estatuto do “é verdade, porque vem no jornal”. É também necessário criar, com urgência, um visível “firewall” entre o que são os factos, reportados numa notícia, com as várias posições descritas de forma neutral, e o que é a opinião.

Nos últimos anos, assistimos a uma saudável quebra do monolitismo corporativo que parecia federar a classe jornalística. Vemos hoje profissionais respeitados dar mostras de incómodo perante práticas de colegas, em televisões ou em jornais. Este é o caminho, separar o trigo do resto e denunciar, em alta voz, quem está a prejudicar a imagem da profissão. Espero, sinceramente, que ainda possam ir a tempo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Diplomacia


Agora que Mário Soares partiu, gostava de deixar dois sublinhados e uma nota, no tocante à diplomacia portuguesa.

O primeiro para sublinhar que o Ministério dos Negócios Estrangeiros lhe ficou a dever uma atitude de grande sentido de Estado, quando, em 1974, assumiu a pasta de ministro dos Negócios Estrangeiros. Perante algumas vozes que, à época, defendiam o saneamento de grande parte dos quadros diplomáticos, que disciplinadamente tinham servido a política do governo precedente, Soares teve o bom senso e a prudência de tratar esse assunto com elevado sentido de medida e de justiça. A "carreira" retribuiu-lhe e provou, no novo Portugal democrático, que tinha um sentido profissional muito elevado.

O segundo sublinhado é para destacar algo que raramente é mencionado. Foi Mário Soares quem, durante o seu tempo como ministro dos Negócios Estrangeiros, abriu a carreira diplomática às mulheres, que até aí estavam anacronicamente impedidas de exercer tais funções. O primeiro concurso em que entraram mulheres (o mesmo em que eu também acedi ao MNE) teve lugar em 1975.

A nota tem a ver com a despedida de Mário Soares. Foi o Protocolo de Estado, sedeado no ministério dos Negócios Estrangeiros, quem teve a responsabilidade essencial na organização dos funerais de Estado do antigo presidente. Para quem esteve atento, tratou-se de um trabalho impecável, rigoroso, feito com grande eficácia, onde a necessária solenidade nem por um momento foi tocada por qualquer gongorismo formal excessivo. Quase quatro décadas da "casa" ensinaram-me bem o que são as dificuldades de uma tarefa desta dimensão, em que nenhuma falha seria perdoada e teria uma visibilidade ímpar. Por isso, como diplomata, senti-me orgulhoso pelo trabalho levado a cabo pelos meus colegas, naturalmente associados a outros atores oficiais e privados imprescindíveis. Uma especial palavra é assim devida ao embaixador António Almeida Lima, chefe daquela excelente "orquestra".

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O desastre

Ontem, alguém me dizia que olhamos para Donald Trump e para a América que com ele aí virá com a curiosidade quase mórbida de quem olha para a cena de um desastre. O somatório de sinais negativos é tão forte, a aproximação da figura à sua caricatura mais primária começa a ser tão evidente que a hipótese do pior se torna plausível. Por muita simpatia que possamos ter pela América - e eu tenho muita -, preocupa-me, essencialmente, o efeito disruptor que as ações da futura presidência Trump possam vir a ter pelo mundo, em especialmente por aquele cujo futuro imediato diretamente me respeita. Se acaso a Europa fosse outra, se ela estivesse noutro estado de afirmação e de capacidade coletiva de decisão, enquanto poder com peso à escala global, eu estaria menos preocupado. Assim, estou muito. E, como nos desastres, só me resta olhar. Quase apetece crismar Trump com o nome de um clássico restaurante lisboeta: "The great American disaster"...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Cemitério dos Prazeres


O cemitério chama-se "dos Prazeres" e tem esse bizarro nome, para um lugar de convocação da tristeza, porque aí havia uma quinta no meio da qual se erguia uma ermida a Nossa Senhora dos Prazeres. 

O cemitério dos Prazeres está ligado à minha memória de infância. Na minha família lisboeta, após a morte de um primo muito jovem, os pais, que lhe haviam erguido um jazigo nos Prazeres, tinham-se mudado propositadamente para uma casa quase em frente ao cemitério, de onde diariamente - e não estou a exagerar - iam visitar o lugar onde estava o depositado o filho. Estão hoje por lá todos, incluindo, desde há pouco mais de uma semana, um outro irmão.

Poucos meses depois de ter vindo viver para Lisboa, em 1968, voltei ao Prazeres. Era uma romagem por ocasião do funeral de António Sérgio. Estavamos os início de 1969, um ano que ia ser muito importante na vida política em Portugal, em que a "abertura" que a chegada ao poder de Marcelo Caetano tinha prenunciado revelaria toda a sua falsidade. Era o funeral de António Sérgio, um intelectual e pedagogo humanista, cuja presença no eixo da oposição não comunista fora marcante por muitas décadas. O ato redundou num momento público de expressão política democrática, com repressão policial associada. Para mim, seria uma espécie de "batismo de fogo" na agitação política lisboeta. 

Nesse dia 25 de janeiro de 1969, notava-se que no centro da manifestação - que, de momentos de silêncio tenso, passou subitamente a palavras de ordem anti-regime, com o hino nacional à mistura, a anteceder o brutal ataque da polícia - havia um núcleo de pessoas que me parecia dominar a cena. Os amigos que comigo iam ajudaram-me a nele identificar algumas figuras. Ali estava Mário Soares, regressado escassos meses antes da sua deportação em S. Tomé. Ao seu lado, ficou-me a imagem de uma mulher ainda jovem, de cabeça bem erguida, com ar determinado, num corpo pequeno: era Maria Barroso. 

Há menos de dois anos, fomos acompanhar Maria Barroso aos Prazeres. Hoje será a vez de Mário Soares. Agora, graças também a eles, já não haverá por lá polícia que nos impeça de saudar a memória dos mortos que queremos honrar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Nós e a Índia

A circunstância, naturalmente infeliz, da morte de Mário Soares coincidir com a viagem oficial do primeiro-ministro português à Índia não tem permitido destacar a importância objetiva desta última.

A Índia é a maior democracia do mundo. Um em cada quatro votos em eleições livres à escala global é expresso por um eleitor indiano. O seu setor económico privado é de uma grande pujança e a Índia, entre as chamadas grandes economias emergentes, é a que mostra hoje maior vitalidade. As tensões políticas que, por vezes, abalam setores da sociedade indiana não nos devem fazer esquecer que ocorrem sempre no seio de instituições de grande solidez, marcadas por um forte sentido estratégico nacional.

Apesar de todos os esforços feitos no passado, nunca foi possível garantir uma relação económica profunda entre Portugal e a Índia. Passado o trauma da "perda" do Estado da Índia (a segunda peça do império colonial a cair, depois do Brasil), Mário Soares promoveu o estabelecimento de relações diplomáticas com Nova Delhi. Não obstante os esforços que têm sido feitos ao longo destas décadas - e António Costa viaja acompanhado pelo seu ministro da Cultura, Luis Castro Mendes, que foi um excelente embaixador na Índia - os resultados até agora obtidos ficam aquém do esperado. 

António Costa é um cidadão português que assume com orgulho a sua origem indiana. A presença do PM português no congresso da diáspora indiana foi um gesto de inteligência política, num momento em que Nova Delhi começa a ponderar as consequências que o Brexit acarretará para um imenso país que tem uma inserção europeia que se faz muito através do Reino Unido, com que comunga a Commonwealth. E a Índia nunca esquece que foi Portugal, durante a sua presidência europeia em 2000, que promoveu o seu estatuto de "parceiro estratégico" com as instituições europeias - como me referiu, com ênfase, há semanas, a nova e dinâmica embaixadora que aquele país destinou para Portugal.

Por todas as razões, este é, politicamente, o momento certo para Portugal fazer este novo "forcing" com a Índia e, volto a dizê-lo, a origem indiana de António Costa pode não ser aqui um fator despiciendo, se bem se atentar na importância que as autoridades indianas têm vindo a dar a esse facto. 

Por isso, neste preciso tempo, creio ser ocasião de evocar a grande figura da cultura que se chamou Orlando da Costa, pai do atual primeiro ministro e do jornalista Ricardo Costa, um português de origem indiana que é um magnífico exemplo da nossa diversidade.

Conheci Orlando da Costa no final dos anos 60 e inícios de 70. Cruzámo-nos por diversas vezes em casa de Carlos Eurico da Costa e de Maria Lúcia Lepecki, em grupos onde estavam José Cardoso Pires, Maria Velho da Costa, Jacinto Batista, Alberto Ferreira, entre muitos outros. Tenho dele a imagem de uma figura interessantíssima, de um homem suave, sorridente, com imenso humor, de uma cultura transbordante.

Acho que António Costa se deve ter lembrado muito do seu pai nestes seus dias da Índia. E ele merece isso.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Daniel Serrão

Os mortos não são como os comboios nas passagens de nível: um não esconde o outro.

Imagino que o professor Daniel Serrão, que hoje desapareceu, nunca tivesse votado em Mário Soares. No entanto, embora oriundo de uma área muito diferente de pensamento filosófico e político, não deixava de representar um relevante setor nacional, integrante do nosso património intelectual como país.

Daniel Serrão, nascido em Vila Real, era presidente do Conselho Superior da AGAVI, uma associação sem finalidades lucrativas criada no Porto para a defesa dos produtos regionais, que também faço parte desde 2012. (Na imagem, Daniel Serrão utiliza a gravata da Confraria do Vinho do Porto, onde também éramos confrades).

No dia em que ambos tomámos posse na AGAVI, na Alfândega do Porto, recordei-lhe um episódio passado no Lar Universitário Gomes Teixeira, na rua da Torrinha, em 1966. Queixas por atos de indisciplina tinham obrigado a Reitoria a uma intervenção de emergência. Daniel Serrão reuniu então com os utentes do lar, para tentar alguma impor alguma acalmia. "Não me diga que o meu amigo era um deles?! Nunca, na história da universidade do Porto, se viu tanta anarquia num lar!", disse-me.

Entre gargalhadas, revelei-lhe que, nesse ano, fiz uma única cadeira do meu curso de Engenharia Eletrotécnica. Àquele ritmo, aliás, estaria a acabá-lo mais ou menos agora, se entretanto não tivesse mudado de agulha...

Deixo o meu pesar pela morte do professor Daniel Serrão.

Viver com a diferença

Uma "amiga" no Facebook deu hoje conta do seu desagrado, no aeroporto de Marselha, por se ver rodeada de "magrebinos".

Reconheço o direito à estranheza: eu próprio, aqui há alguns anos, tive a mesma sensação, numa praça de Marselha. Reconheço mesmo o direito ao desconforto, porque nem todos estamos preparados para viver com a diferença. Não reconheço o direito ao desagrado, e deixei-lhe este comentário:

"Se tivesse chegado à Gare d'Austerlitz nos anos 70 sentir-se-ia  rodeada dos "magrebinos" de então, idos do Minho e de Trás-os-Montes. Com a diferença de que muitos destes, com ar de magrebinos, nasceram já em França, são tão franceses como a "madames" loiras do XVIème. Quem teve impérios e não quer ir para o "bâtiment" ou para o "ménage" paga o preço. "Salamun alaikum!"

sábado, 7 de janeiro de 2017

Despedida de Mário Soares


O corpo pesado estende-se pela cadeira, por detrás da secretária. A custo, insiste em levantar-se. Para me abraçar, para agradecer a visita. O seu olhar perde-se naquela sala tão cheia de recordações, de histórias, de História. As palavras saem-lhe com alguma dificuldade, quase automáticas, sempre amáveis. Suscita os temas que o mobilizam, as emoções e as certezas últimas que lhe dão alento à vida, mas também as tristezas que o abatem. Escolho bem as minhas palavras, mas não sei se são as certas. Relembro tempos comuns, mas não tenho a certeza de me estar sempre a seguir. Procuro assuntos que o façam reagir, agarra alguns, deixa passar outros em silêncio. Os nomes fogem-lhe, vive já com essa realidade, organiza o discurso em torno desses espaços vazios. Pergunta-me pela vida, mais para se orientar do que por real interesse. Dou-lhe novidades que, há pouco tempo, seriam para ele banalidades. Instalam-se entre nós as pausas, cada vez mais longas. Fico muito triste, sem saber o que dizer. Despeço-me com a quase certeza de ser aquele o nosso adeus.

(Escrevi este post em 4 de agosto de 2015. O amigo, que então não nomeei, era Mário Soares. Morreu há pouco. O encontro que relatei foi a nossa despedida)

Mascarenhas Barreto (1923-2017)


Li hoje duas notas necrológicas, dando conta da morte de Augusto Mascarenhas Barreto. Tinha 94 anos e várias vezes me tinha interrogado se ainda era vivo. Ficou conhecido pela opinião pública pelo livro em que defendeu a tese de que Cristóvão Colombo era português, nascido na alentejana povoação de Cuba. 

Conheci-o em 1968, quando decidiu fazer uma licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina, no ISCSPU. Usava então um chapéu de abas muito largas, que dava à sua figura de elevada estatura um porte curioso, complementado pelo inevitável cachimbo. Naquela casa da Junqueira, onde ainda preponderava Adriano Moreira (Marcelo Caetano afastá-lo-ia no ano seguinte), o ambiente político, embora a certa altura muito tenso, era curiosamente bastante dialogante. 

Mascarenhas Barreto era um conservador e, como tal, fazia parte de um setor com que eu não me identificava. Mas era, sem a menor dúvida, uma personalidade muito interessante para se falar, pelo que me recordo de grandes charlas na "sala verde", onde procurávamos motivos de conversa que passassem para além dessas tensões políticas. Também os 25 anos de diferença que nos separavam não tinham criado nenhuma distância insuperável entre nós. 

Perdi-o de vista e só em 1974 voltei a encontrá-lo. Na manhã de 26 de abril, na RTP. Eu desconhecia que Mascarenhas Barreto trabalhava por lá (nenhuma das notas biográficas que li menciona esse facto) e foi com espanto que deparei com ele, nesse momento muito tenso em que era feita uma primeira triagem de "quem entra e quem não entra" na televisão que tinha sido o aparelho de imagem da ditadura. Demos um abraço. "Ó colega, não esperava vê-lo por aqui!", disse-me ele, olhando a minha farda militar. Já não sei o que respondi mas lembro-me de que o Mascarenhas Barreto, nesse dia, teve acesso à RTP. Depois, nunca mais o vi.

Mário Castrim


Há pouco, numa troca de mensagens, lembrei-me de Mário Castrim. Castrim foi casado com a escritora Alice Vieira e morreu há 14 anos. Foi ele próprio escritor e jornalista. Autor de excelentes obras para crianças, escreveu teatro e editou livros de ensaios. É um nome que, nos dias de hoje, merecia ser mais conhecido do que é. E é pena, porque o país da Cultura deve bastante a Mário Castrim, pessoa com quem nunca me cruzei mas que sempre admirei.

Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, ficou talvez mais conhecido por fazer crítica de televisão, em especial no "Diário de Lisboa". Nos dias de hoje, com montanhas de canais acessíveis, os mais novos espantar-se-ão talvez que essa função tivesse alguma relevância entre nós. Mas tinha, e muita, nos tempos em que havia um único canal, a oficial e oficiosa RTP, fautora da imagem que o regime queria dar de si mesmo, que cuidava dela com um desvelo proporcional ao jeito que lhe dava como fator condicionante da opinião pública. 

Todos os dias, o DL trazia-nos o "Canal da Crítica", onde Castrim, num português de lei, nos deliciava com "innuendos" e artimanhas estilísticas, com vista a dar a volta à censura, comentando programas, apreciando conteúdos, às vezes com notas bem à margem daquilo que comentava. Era um regalo conseguir ler por entre as linhas de Mário Castrim, mesmo que soubéssemos que, aqui ou ali, o "lápis azul" dos coronéis da rua da Misericórdia tinha feito os seus estragos. Mas até algumas ausências pressentidas de texto chegavam a ter significado.

(Esses eram "bons tempos"? Uma ova! Eram tempos sinistros e o facto de, por vezes, os referirmos com leveza e ironia deve ser apenas visto como uma forma de exorcismo. Que isto fique muito claro!).

Mas Castrim era muito mais do que um mero crítico de televisão, sendo esse embora um terreno em que nunca teve um émulo à sua altura. Era um intelectual e um homem das letras, que orientou o magnífico DL Juvenil, um espaço do "Diário de Lisboa" que, num tempo em que não havia blogues nem facebook, permitia a publicação de textos de conteúdo literário a muitos jovens - alguns que foram e são hoje figuras consagradas da nossa Cultura.

Politicamente, Mário Castrim era, creio, militante comunista e, com a Revolução, o seu radicalismo, algo extremado, veio ao de cima. Alguma da unanimidade de que até então usufruía nos meios oposicionistas veio a reduzir-se nesses anos "da brasa", como aliás aconteceu com muito boa gente. A certo ponto, alguém, com graça, apodou-o mesmo de "sectário-geral"... 

Castrim era magnífico na polémica, mesmo antes do 25 de abril. Recordo-me bem de duas confrontações que teve. Uma com Artur Portela Filho, com uma das peças a ter o título genial de "Ó Artur! Ó Portela! Ó Filho!". Outra, bem pesada, com Luiz Francisco Rebello, que creio chegou a meter ameaça de bengalada. E Castrim usava uma!

Regresso ao ponto em que comecei. Provavelmente, muito poucos, nos dias de hoje, se recordarão já de Mário Castrim. Entre os outros, os mais antigos, alguns lembrá-lo-ão sob um olhar bem diferente do meu, quiçá mesmo oposto. Mas esta é a "graça" da democracia da opinião, que Castrim, com a sua pena acerada na pele tosca da ditadura, também nos ajudou a construir.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Dia de Reis

Os amigos monárquicos que hoje felicitei, pela passagem do dia de Reis, não se mostraram muito efusivos.

Samodães

Este bilhar é em Samodães
Ao olhá-lo, na noite de ontem, lembrei-me do Olívio e do Chico Menezes, desaparecidos príncipes do taco. Mas o bilhar deles era "livre". E o pano era verde. E era no Excelsior. E não eram permitidas "massés". E cada rasgão do pano custava 50 escudos (estava afixado na parede). E o Manuel Rato servia às mesas café de Timor. E, em Samodães, nesse tempo, ninguém jogava bilhar. Se calhar, nem matraquilhos.
Verdade seja que, também a mim, por essa época, me não passava pela cabeça vir alguma vez dormir a Samodães. Onde?

Lições aprendidas


Há anos, mantive longas horas de conversa com um diplomata espanhol, sobre as relações entre os dois países. Confrontámos visões e, como seria expectável, detetámos imensas diferenças.

Ele revelou-me que o nosso país, por muito tempo, após a estabilização do franquismo, era quase um “não assunto” para a Espanha contemporânea. Portugal estava ali, ao lado, mas a sua relevância era muito limitada para um país que lançava a sua mirada externa essencial por cima dos Pirinéus.

Essa conversa teve lugar ainda antes da entrada dos dois Estados nas instituições europeias, mas já depois da democracia estar instalada na península. Esse era um período em que, no nosso lado, se tinha assistido à atenuação de muitas das clássicas desconfianças históricas face à natureza do poder em Madrid. Mas não escondi a esse amigo que, não obstante essa crescente leitura benévola, se mantinha, em setores portugueses – politicos, diplomáticos e económicos - alguma reserva sobre a íntima atitude da Espanha face a Portugal.

Com a passagem dos anos, tive o ensejo de trabalhar mais de perto alguns dos terrenos residuais da nossa tensão bilateral: os comandos militares da NATO, a regulação dos rios comuns, os conflitos da pesca nos limites fronteiriços, o tratamento administrativo dado às empresas portuguesas, as divergências sobre as acessibilidades rodoviárias e ferroviárias, as diferentes posições nas questões institucionais e de gestão de poder dentro da União Europeia, etc.

Das “lições aprendidas”, expressão utilizada em certos meios a propósito do conhecimento que se retira da experiência acumulada, e em jeito de caricatura, eu diria que a Espanha está ao lado de Portugal, nomeadamente no quadro europeu, quando os nossos interesses nacionais lhe são indiferentes ou se somam aos seus, ou quando o eventual reforço da posição portuguesa pode servir a sua leitura “ibérica” de poder.

Mas Madrid assume, com frequente e infeliz facilidade, em ciclos politicos contrastantes, alguma arrogância face ao vizinho peninsular, implicitamente explorando a sua fraqueza relativa, quando interesses seus despontam como minimamente evidentes. Só com muita dificuldade se vê, nesses casos, a Espanha fazer um mínimo esforço de acomodação.

Há uma coisa que me parece óbvia: com este seu regular comportamento, a Espanha revela alguma imaturidade para afirmar um estatuto de país “grande”, por raramente conseguir assumir uma flexibilidade estratégica em face de dossiês bilaterais complexos. E não só com Portugal.

Um dia, escrevi no “El País” um artigo sobre as relações peninsulares, que intitulei “Uma cultura de vizinhança”, que então parecia estarmos em vias de criar, assente na progressiva geração de uma confiança mútua. Sinto que essa confiança continua a existir, mas, tal como nas relações entre as pessoas, é algo que, quando se erode custa bastante a recuperar. Estou a falar de Almaraz? Estou.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Brexit news

Ao longo de quase quatro décadas como diplomata, tendo passado alguns anos em Londres e alguns mais a discutir à mesa negocial com os britânicos, ganhei um profundo respeito técnico pela capacidade diplomática do Reino Unido. Por muito indefensável que as suas posições fossem, por muito embaraçados que os funcionários britânicos parecessem ao assumi-las, a verdade é que a máquina do "Foreign and Commonweath Office" (as mais das vezes, dizemos simplesmente "Foreign Office" e o nome completo do MNE britânico tem algo de politicamente relevante) me deu sempre a ideia de interiorizar uma linha de orientação clara, transmitida e cumprida de alto-a-baixo de toda a sua estrutura de funcionários.

Quem passou por Bruxelas recorda-se de discussões intermináveis, com os britânicos frequentemente isolados, mas a serem teimosos até ao fim, às vezes por uma vantagem negocial residual, na maioria dos casos explorando a regra da unanimidade para baterem o pé - podendo fazê-lo graças ao peso político que o seu país tinha no contexto comunitário. Mas, sempre, com excelente conhecimento dos dossiês, em "trade-off" permanente entre vários assuntos, roçando às vezes um insuportável cinismo. A minha admiração profissional pela diplomacia londrina não se estende, necessariamente, a uma automática leitura positiva sobre a legitimidade daquilo que defendem como seus interesses. Nem sequer à lisura de meios utilizada para os defender.

Vem isto a propósito da demissão do embaixador britânico junto da União Europeia, ocorrida há dois dias. Talvez mais importante do que o facto em si é a circunstância de ter ficado claro que o gesto se deve ao reconhecimento de que um excessivo voluntarismo político, que não tem em devida conta a realidade no terreno negocial, pode estar a conduzir o Reino Unido a um sério impasse no futuro do seu processo de abandono das instituições de Bruxelas. Dir-se-á que isso é um problema deles e que nós, do lado de cá da Mancha, até nos devemos congratular com estes dissídios intrabritânicos.

Não estou nada de acordo. Se a futura separação do Reino Unido com a Europa vier a tornar-se litigiosa, a probabilidade da questão vir a correr mal para os dois lados é imensa. Em termos negociais, a experiência mostrou-me que ter um dos lados fragilizado internamente está longe de ser uma vantagem, cumula em geral radicalismos e reduz fortemente a capacidade de compromissos e recuos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Digo eu, não sei..."


A convite do seu diretor, José Carlos de Vasconcelos, ocupo hoje a última página do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias" com um diário a que dei o título de "Digo eu, não sei..."

Os leitores deste blogue e da minha página de Facebook não devem estranhar se por lá encontrarem, eventualmente noutras formas, retalhos de coisas já lidas. Cada suporte tem leitores diferentes e a imaginação tem limites.

De toda a forma, quem tiver curiosidade, pode ler o texto aqui.

"Olhar o Mundo" ou não?

Desde há vários anos que a RTP mantém no ar o programa "Olhar o Mundo", um espaço semanal de informação dedicado a temas internacionais, sobre cuja qualidade não tenho - e julgo que também ninguém tem - a menor das dúvidas. Cada programa tem um convidado, que dialoga durante cerca de 45 minutos com o apresentador, que nos últimos anos é o jornalista António Mateus. Há convidados esporádicos e um grupo de "residentes", de que tenho vindo a fazer parte. Em todos os casos, trata-se de pessoas ligadas às relações internacionais, por via profissional ou académica.

O programa aborda, semanalmente, dois ou três grandes temas da atualidade internacional, fazendo uma retrospetiva sobre os principais acontecimentos ocorridos semana anterior e tentando olhar, em prospetiva, o futuro imediato, nas várias geografias. Nenhum dos convidados recebe - nem nunca pediu - a menor retribuição financeira por aquela tarefa, a qual, obviamente, ocupa algumas horas de trabalho, a montante da gravação do programa, que também obriga a uma deslocação aos estúdios da RTP, que faz perder tempo e envolve custos pessoais. 

O prazer de poder contribuir para uma divulgação das temáticas internacionais em Portugal é, contudo, a retribuição desejada. Falo por mim. Duvido, aliás, que em qualquer outra parte do mundo seja possível fazer um programa "pro bono" desta natureza. E aposto em como quem trata dos mesmos temas noutros canais portugueses é pago por isso. No fundo, trata-se de uma espécie de serviço público prestado a uma televisão que se afirma pública. Pelo tipo de "peças" utilizadas no "Olhar o Mundo" sou também levado à conclusão - mas nunca perguntei - de que este deve ser um dos mais baratos programas produzidos pela RTP. 

Serve este intróito para sublinhar a minha estranheza pelo facto do "Olhar o Mundo" andar sempre "em bolandas" pela programação da RTP, exibido pelas madrugadas, sem ser objeto de uma promoção conveniente, sem projeção no site da estação, sem uma indicação das horas de exibição, substituído sem aviso por um qualquer jogo de uma qualquer ignota modalidade desportiva, onde alguém tenha vislumbrado uma réstea de duvidoso "serviço público". Agora, ao que me chega, o "Olhar o Mundo" até da RTP2 vai sair.

Uma nota curiosa: um elevado responsável pela RTP dizia-me, há escassos dias, que a estação necessitava de tratar melhor a informação internacional...

O "Olhar o Mundo" é, manifestamente, um programa mal-amado no seio da RTP. Esta é a minha opinião pessoal, não tendo perguntado aos meus colegas ou ao António Mateus qual é a deles. Será mesmo assim? No fundo, o objetivo derradeiro é vir a acabar com o programa? Se assim é, é melhor assumi-lo, com frontalidade, em lugar de brincarem com o trabalho das pessoas.

Os protestantes


Na tarde de ontem, passei por um templo (por que não é igreja?) protestante, ao lado da (essa sim, conhecida como tal) igreja da Misericórdia, em Vila Real. E recordei-me do tempo em que, numa rua da cidade onde vivi nos anos 50 e 60 (do século passado, como agora se diz), foi criado um espaço (repito, não sei se se chama igreja) "dos protestantes". Creio que o primeiro na cidade.

A minha família era católica, mas imagino que o facto de eu ser, ao que creio, o único (repito, o único) miúdo da minha geração vila-realense que não fez primeira comunhão deva indiciar que a pressão para a prática religiosa no seu seio não deva ter sido muito forte. Corria uma tese familiar segundo a qual terei ficado doente no ano em que todos os meus colegas de escola primária passaram por essa fase; outra, menos verosímil, apregoava que eu tinha sido expulso da "doutrina" da Maria Vilar, por ter levantado a saia ou puxado um banco, fazendo-a cair, a uma menina. Seja como for, assim se formou um bom ateu. Ateu mesmo, nada agnóstico ou minimamente dubidativo sobre existências celestiais e questões correlativas.

Vem isto a propósito desses protestantes na minha rua. Lembro-me de, à época, ter suscitado perguntas na família sobre quem era "aquela gente" que, ao princípio da noite, com um ar que me parecia algo comprometido, se reunia num baixo alugado na casa do Rodriguinho Araújo, para fazer não sabia eu bem o quê. E tenho ideia do meu pai me ter explicado, no seu eterno respeito agnóstico pelas coisas religiosas (o meu pai usava chapéu e sempre o tirava quando passava frente a uma igreja ou cemitério), que "aquela gente" eram pessoas que seguiam ensinamentos religiosos um pouco diferentes daqueles que eram cultivados nas igrejas onde as pessoas da nossa família iam. Não me recordo de ouvir o menor juízo valorativo sobre qualquer dos credos.

Tenho bem presente que então criei um respeito muito grande por essas pessoas e, nesse tempo de quase unanimidade católica, via com alguma admiração quantos se arriscavam ao olhar desdenhoso (porque era isso mesmo que eu detetava) dos vizinhos e à quase clandestinidade do exercício a que se dedicavam, que rapidamente me apercebi ser fortemente combatido pela igreja católica. Com os anos, a própria designação de "protestantes " - os que protestavam, atitude que identificava a coragem - foi-me seduzindo, talvez por ligá-la a uma contestação do "statu quo". Verdade seja, só anos depois cheguei a Martinho Lutero.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O prélio

Hoje, ao final da tarde, apetecia-me estar em Moreira de Cónegos. O Porto disputa por lá, com o Moreirense, uma taça qualquer. Gostava de lá estar, perto do campo, bem sentado e cómodo, com uma bebida na mão, a regalar-me, ao final do dia. E, claro, a deliciar-me com a prestação da equipa do Pedro, para mim uma das melhores do país, a qual, ao longo dos anos, me tem oferecido jornadas de grandes alegrias. Trata-se de um conjunto muito articulado, com opções diversas, belas entradas rápidas, uma elevada capacidade de concretização ao longo de todo o tempo, que desarma muito bem pela sua criatividade e pela constância na "performance". Hoje, apetecia-me ir jantar ao restaurante São Gião, do Pedro Nunes, em Moreira de Cónegos, ao lado do estádio do Moreirense. Mas não dá!

(e não é que o Moreirense ganhou ao Porto?)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sonhar é fácil


A tradição manda que invistamos esperança no ano que agora se inicia. Mas há que convir que será necessária uma boa dose de otimismo para que possamos, com um mínimo de realismo, colocar todas as fichas de confiança no número 2017. Tentar, porém, não custa.

Vamos imaginar que a presidência de Donald Trump traz um surto de estímulo à economia americana sem, em paralelo, provocar uma guerra comercial internacional, com recuos protecionistas e a indução de sérias tensões políticas com a China. 

Nesse cenário, seria simpático poder vir a concluir que Israel não se sentirá com as “costas quentes” para aventuras regionais estimuladas pelos EUA e que, afinal, são destituídas de fundamento as preocupações quanto a uma eventual regressão no laborioso entendimento obtido entre os países ocidentais e o Irão, no tocante à questão nuclear. 

Imaginemos também que, entre Moscovo e Washington, se estabelece um “gentlemen’s agreement” que coloque um ponto final às ameaças, reais ou potenciais, à soberania dos Estados membros da NATO sitiados mais a Leste, talvez ligado a um acordo operacional, ou um simples “modus vivendi”, que permita uma qualquer estabilização na situação síria, capaz de neutralizar o Estado Islâmico e as suas decorrências em termos de refugiados e disseminação das metástases terroristas. E que a Turquia se retrai de ser um “troublemaker” mais na região, num acordo tático com a Rússia.

Confiemos ainda em que as bravatas de Trump sobre o reforço da capacidade nuclear americana e as ameaças à estabilidade do Tratado de Não-Proliferação não passaram disso mesmo. E, de igual modo, firmemos esperanças em que as proclamações contra o Acordo do Clima acabarão por se atenuar e que os EUA assumem uma atitude responsável em matéria de política energética.

Na Europa, talvez os efeitos da política anti-deflacionista do BCE possam, finalmente, ultrapassar os resultados meramente estabilizadores que têm obtido, apontando para efeitos concretos no crescimento e na criação de postos de trabalho, atenuando assim as tensões sociais e diminuindo a propensão para a exploração populista do mal-estar que atravessa certos setores. 

Quem sabe se, nas eleições presidenciais francesas, a surpresa não será um resultado menos espetacular do que o previsto para Marine Le Pen, com a eleição de um presidente moderado. E que interessante seria se, na Alemanha, o resultado das eleições legislativas apontasse para uma rejeição das linhas radicais, arrastadas por um paralelo insucesso na Holanda e pela reversão, nas eleições italianas, da tendência para que o recente referendo apontava. 

A isso se somaria, nesse cenário ideal, um recuo sensível no tropismo autoritário que ameaça a Hungria e a Polónia. Como cereja em cima deste bolo de harmonia tendencial, as negociações do Brexit apontariam, afinal, para inesperados pontos de compromisso com as instituições de Bruxelas, com efeitos sensíveis numa sustentada acalmia dos mercados. 

E Portugal, neste cenário positivo? António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa continuariam a representar um “duo dinâmico”, com o presidente e o primeiro-ministro a conseguirem desenhar, sem tensões, um equilíbrio inter-institucional sereno e sem surpresas. Marcelo, forte da sua popularidade, talvez venha a conseguir estimular uma propensão para acordos de regime em matéria de Justiça e de estabilidade fiscal, aproveitando uma eventual  fragilidade dos parceiros da ala mais à esquerda da “geringonça”, forçadamente serenos pelo temor da possibilidade dos socialistas poderem obter, por si sós, uma maioria absoluta, em caso de eleições – a acreditar nas sondagens que já apontam nesse sentido. A direita, para quem as autárquicas podem não correr tão bem como tinham previsto, não estaria assim livre de entrar no questionamento de liderança do seu principal partido. E Costa, cuja habilidade é um dom inestimável, poderia resistir aos cantos de sereia de quantos, ao seu lado, anseiam por um teste eleitoral legitimador.

Uma estabilidade induzida por um surto de nova confiança americana, com impactos de acalmia no processo institucional europeu, desaparecidas as núvens francesas, alemãs e italianas, com o referidos estímulos do BCE a funcionarem, criaria um ambiente propício ao prolongamento do processo de “desdramatização” da situação financeira portuguesa, se bem que o peso insuportável da dívida não desapareça por milagre. 

Muitos lerão o que escrevi como um retrato de uma espécie de “terra do nunca”. Talvez tenham razão. Vou mais longe: o mais provável é que venham a ter razão, que nada venha a passar-se como acima referi. Mas sonhar é fácil, não é? 

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Negócios")

domingo, 1 de janeiro de 2017

A minha ONU



Responder ao desafio que me foi lançado pelo “Diário de Notícias”E para falar da “minha ONU” obriga-me a contextualizar Portugal na organização, porquanto a minha relação com as Nações Unidas deriva, essencialmente, dessa leitura política.

Por razões ligadas aos equilíbrios políticos da Guerra Fria, Portugal apenas em 1955 foi admitido nas Nações Unidas, isto é, cerca de dez anos após a criação da organização. Aquilo que essa admissão possa ter tido de sucesso diplomático rapidamente se transformou num pesadelo para o governo de Lisboa, com a ONU a converter-se num palco privilegiado para os ataques à política colonial portuguesa. O nosso país entrou numa crescente confrontação com diversas instâncias da organização, que levaria mesmo, mais tarde, à sua marginalização em algumas das suas agências especializadas.

A ditadura portuguesa conviveu sempre mal com o mundo multilateral, tido como pouco conforme com os jogos de sombras do bilateralismo com que o rendilhado da diplomacia salazarista tinha conseguido passar por entre as pingasna 2ª guerra mundial, e que, aliás, viria a ser a chave para a sua sobrevivência no final desta. O facto da ONU ter passado a incorporar uma imensidão de novos Estados, saídos das descolonizações, e naturalmente solidários com os territórios que ainda lutavam pela sua autodeterminação, só agravava a desconfiança que esse areópago provocava em S. Bento.

Na minha juventude, as Nações Unidas eram apresentadas como um "inimigo", uma instância em que Portugal era sistematicamente atacado. Com uma comunicação social censurada, com o questionamento da guerra colonial visto como traição, a imagem da ONU que a ditadura expunha tinha um tom sempre negativo, marcado pela ação no seu seio dos países do "Terceiro Mundo”, que apoiavam os "terroristas" que atacavam as nossas "possessões", a ser diariamente diabolizada. O facto de frequentemente muitos países ocidentais se “aliarem” na ONU ao mundo comunista no apoio os movimentos independentistas era vendido como um contrasenso: só Portugal defendia o Ocidente, mesmo contra a vontade deste...

O 25 de abril mudou fortemente a perceção de Portugal no plano externo, mas a imagem das Nações Unidas, das suas virtualidades, do fantástico trabalho dos seus diferentes órgãos e agências, ficou ainda longe de ser reconhecido entre nós. Em inícios de 1978, fiz parte de um grupo que criou em Lisboa uma estrutura tendente à promoção da ONU em Portugal. Entre os fundadores da Associação para a Cooperação com as Nações Unidas em Portugal (ACNUP) contavam-se então nomes como D. José Policarpo, Rui Machete, António Costa Lobo, Carlos Eurico da Costa e João Palmeiro.

Quando, muitos anos mais tarde, representei Portugal nas Nações Unidas, o panorama era já bem diferente. Em Genebra e em Nova Iorque, a nossa diplomacia firmara o nome do nosso país no quadro da organização, com duas bem sucedidas presenças no Conselho de Segurança, qualificados quadros nacionais a serem reconhecidos no seu âmbito e, no geral, uma postura coerente e assente num corpus ético, que o caso de Timor-Leste ajudara a consagrar.

Portugal é, nos dias de hoje, visto na ONU como um honest broker”, um país que cumpre o que promete - e a confiança e a previsibilidade são os valores mais importantes na vida internacional. Se pensarmos que muitas dezenas de Estados têm as Nações Unidas como o centro fulcral da sua atividade diplomática, talvez percebamos melhor a relativa “facilidade” com que o nosso país consegue, regularmente, alguns importantes sucessos diplomáticos à escala global.

(Artigo escrito para o número especial do "Noticias Magazine", hoje distribuído com o "Diário de Notícias", a propósito da entrada em funções de António Guterres como secretário-geral da ONU)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Passagem de ano


Perdi-o de vista há mais de 40 anos. Era meu colega na Caixa Geral de Depósitos, no Calhariz, em Lisboa, quando para ali fui trabalhar em 1971. Embora mais velho, mais "graduado" na profissão, tornámo-nos próximos, desde muito cedo.

Era um homem um tanto abrutalhado, tinha sido condutor da Carris e, da natureza da profissão, ficara-lhe uma atitude política que rimava com a minha. Almoçávamos muitas vezes em grupo no antigo 1° de maio, na Casa da Índia ou, mais frequentemente, no Martins, uma tasca a caminho de Santa Catarina. Tinha o discurso um pouco "ajavardado", contava anedotas "pesadas", saiam-lhe graçolas fortes, com efeito amplificado pela sua voz bem sonora. Mas, no fundo, era um tipo excelente.

No dia 31 de dezembro desse mesmo ano de 1971 (45 anos hoje, caramba!), à hora do almoço na tasca do Martins, num grupo de pessoal "dos Títulos", veio à conversa a passagem de ano dessa mesma noite. O Murta, um outro magnífico colega algarvio, senhor de um humor fino e sentido de oportunidade, virou-se para mim e disse: "Você sabe como é que aqui este nosso colega, desde há muito, faz as passagens de ano?" Eu estava ali há pouco tempo, não fazia a mais leve ideia, mas a gargalhada coletiva do grupo fez-me perceber que estava a perder alguma coisa. E o Murta prosseguiu: "Este homem não gasta champanhe no réveillon!" Eu estava cada vez mais baralhado. O tal colega sorria, deliciado com a minha crescente curiosidade. "Ó homem, conte aqui ao Seixas como é que você passa os fins de ano!", rematou o Murta.

E ele contou. Não vou repetir aqui as palavras utilizadas pelo colega, porque o blogue não tem uma bola vermelha para alertar os mais sensíveis. Só revelo que o hábito desse meu amigo era ir para a cama um quarto de hora antes da passagem de ano. E nunca ia sozinho...

Cada um passa o "reveillon" como mais gosta, não é?

Outro Portugal


Estive ontem numa casa de aldeia, propriedade de uns amigos, perto de Vila Real. Enquanto bebia um excelente vinho do Porto com muita idade, fui passeando os olhos pelas estantes. Naquela casa viveu uma figura local já há muito desaparecida, que eu conhecia apenas de vista, das ruas e dos cafés, nas suas visitas à cidade. Nunca falei com essa pessoa, nem nunca me passou pela cabeça saber dos interesses desse homem. Ontem, em breves minutos, finalmente, "conheci-o".

Olhar uma biblioteca "lida" qualifica bem o seu possuidor. (As bibliotecas "a metro" também "qualificam", valha a verdade). Estava por ali quase todo o Eça, algum Camilo essencial, coisas dispersas de Torga. Mas também Manuel Mendes, um Redol pouco comum e certos dicionários que a mim me "faltam". Havia coisas muito interessantes sobre a República, uma bela edição do Dom Quixote (tenho uma idêntica, mas em estado físico deplorável), enciclopédias básicas e outras sofisticadas, bem como certa ficção estrangeira que era muito popular dos anos 50 a 70. Eram largas centenas de livros, repito, lidos, escolhidos por alguém que tinha evidente critério e saber.

O que aprendi naqueles minutos é que tinha vivido, naquela aldeia e naquela casa, um homem bastante culto, atento ao mundo, que seguramente aproveitava as suas saídas para adquirir o que ia considerando essencial para se alimentar intelectualmente. Imagino mesmo que possa ter sido bem feliz assim.

Julgo conhecer algum desse Portugal, sei de gente parecida, normalmente pessoas com algumas posses e não menos interesses culturais, que compensavam o isolamento desses seus locais de vida, por que haviam optado por alguma herança ou nostalgia telúrica, com a manutenção de uma janela de abertura ao mundo por via dos livros. Viviam em aldeias ou vilórias ou cidades pequenas de província, tinham com certeza tertúlias de café ou amigos com quem "batiam a bola", muitas vezes sobre política, outras sobre as coisas do mundo. Às vezes, até escrevinhavam pelos jornais da província, alguns arriscavam mesmo a sua literatura, alguma versalhada.

As coisas mudaram muito, entretanto. A internet e a televisão empreguiçaram o olhar de muitos, a quem o uso dos livros (e até da imprensa escrita) já diz hoje muito pouco. Não sacralizo o papel, embora eu não o dispense, mas percebo que hoje se pode ter acesso a muito boa (e má) informação praticamente sem recurso a ele. O mundo cultural é incomparavelmente melhor nos dias que correm, as nossas fontes de conhecimento são agora imensas, podemos usufruir de um mar de novidades, a que a facilidade de uso de línguas estrangeiras ajuda a aceder instantaneamente. No passado é que era bom? Nem pensar! Só os néscios melancólicos e sem imaginação podem ver as coisas assim.

Porém, para mim, é sempre muito agradável poder revisitar esse mundo e esse tempo que já lá vai, um Portugal de samarra e botas pesadas, de leituras e conversas à lareira, à volta de um livro ou de um jornal, com um copo e um salpicão caseiro a ajudar a dar felicidade aos dias e às noites em família. Outro Portugal, mas igualmente excelente. Que sorte que eu tive de poder viver ambos! 

Bom Ano Novo!


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Continuação!


Pensando bem, só há quatro tipos de portugueses, quando se trata de analisar o comportamento deste presidente da República.

O primeiro adora o modo como Marcelo exerce a sua função, acha que a sua quase ubiquidade é uma benesse para o país, tem uma leitura extremamente positiva sobre a sua compulsão para o comentário público, do Orçamento à morte de George Michael. É o mesmo português que, depois de uma década de cera, sente que tem, finalmente, um presidente que está próximo de si, com quem provavelmente já tirou uma “marselfie”, e que, em meia dúzia de meses, ajudou a descrispar o país e deu ao governo todo o espaço para executar a sua política, sem que Costa tenha o menor motivo de queixa, antes pelo contrário.

Há, contudo, outro português que, pelas esquinas, vai encontrando cada vez mais gente que pensa como ele. É o que, fazendo também uma avaliação favorável do mandato presidencial, acha que o presidente pode estar a ir longe demais na banalização da sua figura, que a vulgarização da sua presença e palavra o pode fazer perder espaço para uma intervenção que, um dia, requeira uma maior distância de tudo e de todos, a começar do próprio governo. Para este cidadão, alguma “gravitas” mais seria recomendável, num país como Portugal, onde o saber medir as distâncias é uma qualidade longe de generalizada.

O terceiro português é o “geringonço” militante, a quem Marcelo tem “dado muito jeito”, mas que começa a sentir alguma urticária ao ver o presidente envolver-se em terrenos que ele entende serem do domínio exclusivo do governo. O “geringonço” ficou algo incomodado com a cena da Cornucópia e interpreta a hiperatividade do presidente como um voluntarismo excessivo, um indisfarçável tropismo presidencialista, que pode vir a colocar em causa os equilíbrios de poder com o governo.

E existe, finalmente, o “viúvo”, o que “já perdeu a paciência para o Marcelo”. Detesta a subliminar postura anti-Cavaco do novo presidente e recorda-se bem do dia em que viu Marcelo entrar de rompante num congresso do PSD e "roubar o show" a Passos Coelho. O “viúvo” (coitado!) não teve outra solução senão votar Marcelo, mas cedo acordou do sonho frustrado de o ver puxar o tapete à “geringonça”. Agora acha que começa a chegar o tempo de denunciar o que lhes parece ser um evidente "fazer da cama" a Passos Coelho, a partir de Belém, com ou sem o almocito de ontem. Depois da consoada, vendo-se sem nenhuma prenda política no par de botas em que se meteu, já se deu conta que este ano não vai ter Boas Festas e de que está muito longe de poder vir a ter um Feliz Ano Novo. A este português, ao “viúvo”, apetece-me dizer o que, lá por Vila Real, lançamos àqueles com quem nos cruzamos na rua, entre a missa do galo e os Reis: "Continuação"…

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Carneiros


Acho muito estranho que nesta polémica sobre a "feira de gado" ninguém tenha estranhado que alguns "profissionais" de imprensa convidados por um partido para um cocktail de Natal se tenham permitido gravar à sucapa comentários informais feito entre os políticos presentes. Já vale tudo? Temos a certeza (comuns mortais ou ministros) de que todos os nossos ditos ou graças proferidos em privado são passíveis de serem reproduzidos, sem escândalo, em público? Ou a privacidade é coisa que já não existe para os "media"? E também é legítimo ouvir chamadas telefónicas ou conversas de alcova? O "voyeurisme" suplanta toda a ética profissional? Ou é o alibi medíocre e cobarde de "interesse público"?

Guantanamo


Obama aparece hoje como santificado, ao lado daquilo que Trump representa. De facto, não há como compará-los.

Obama foi eleito há quase uma década com a promessa de encerrar Guantanamo, uma prisão na ilha de Cuba (e que não é só mais uma) onde já então jaziam - e ali ficaram também por toda essa quase década de Obama, não o esqueçamos - centenas de detidos (hoje ainda são cerca de 80), acorrentados, em condições de humilhação infra-humana, sem nunca terem sido objeto de qualquer condenação, sem possibilidade de acesso aos mais elementares direitos da Justiça, num limbo judicial vergonhoso, desrespeitador de todas as regras dos Direitos Humanos e do Estado de direito.

Obama vai deixar em Guantanamo muitos prisioneiros que os EUA, por falta de provas, não conseguiram nunca condenar, mas que por ali continuarão sob o peso das suspeitas insubstantivadas, que já foram sujeitos a desumanas torturas, que Obama suspendeu mas que Trump já disse que tinha intenção de reintroduzir. 

Que acontecerá aos prisioneiros de Guantanamo, agora com Trump a chegar à Casa Branca? Ninguém fala disto? Não é popular, por serem muçulmanos? E Obama, dormirá bem?

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O Tião


Naquelas revisões de fotografias antigas que os encontros de família estimulam, no dia de Natal deste ano dei com uma imagem de mim a falar, em frente à Gomes, com um antigo colega de escola primária, o Tião.

O Tião, Sebastião de seu nome, um pouco mais velho do que eu. Foi jogador do Sport Clube de Vila Real, atuando na ala esquerda. Um dia, o Sporting veio jogar à cidade, não sei se no quadro do negócio da ida do Amaral para Alvalade, numa tarde em que me recordo que o campo do Calvário rebentava pelas costuras. O Tião fez um jogo fantástico, deixando de rastos o Pedro Gomes, lateral-direito leonino. Várias vezes falei com ele sobre essa prestação, que era uma marca de merecida glória pessoal.

Nesse tempo em que o futebol, na província, não dava para viver sem outro emprego, o Tião era funcionário dos Serviços Municipalizados - um pouso profissional muito comum para os jogadores do Sport Clube, uma ajuda indireta da Câmara Municipal ao clube. O Tião já morreu, como constatei, há dois ou três anos, ao abrir a secção de necrologia de "A Voz de Trás-os-Montes", que semanalmente me reporta a cidade de Vila Real que vou perdendo.

Pouco tempo decorrido depois de ter lido a notícia da morte do Tião, na Feira do Livro de Lisboa, numa barraca para editores independentes, vi Pedro Gomes a assinar a sua biografia. Ao seu lado, de pé, um fulano explicava os méritos desportivos do antigo jogador. Fingia que falava para outro amigo que estava perto, mas, na realidade, expressava-se em voz excessivamente alta para ser ouvido pela plateia. E, a certo passo, saiu-lhe: "Nunca vi um extremo esquerdo ultrapassar o Pedro Gomes, que desarmava sempre quem lhe aparecesse pela frente". Não era verdade, claro, e pareceu-me que o próprio Pedro Gomes estava algo constrangido com o exagero gongórico do espontâneo.

Tive então uma tentação não concretizada, que era lançar-lhe à cara: "Ai não?! E o Tião, lá em Vila Real?" Mas pensei: o homem não deve saber nada de futebol, às tantas nem sequer ouviu falar do Tião...

A aletria da consoada


O menu da consoada deste Natal não foi muito diferente do que costuma ser. O bacalhau, talvez por virtude de um truque aprendido quase no próprio dia, estava excelente, lascoso e não afarinhado, como às vezes sucede. Como é de regra, o polvo estava melhor no dia seguinte, na "roupa velha". Era tenro e deu origem às graças de que "o polvo é quem mais ordena" ou, a recordar Pinheiro de Azevedo, de que "o polvo é sereno". A reserva da Quinta do Castro estava no ponto, embora o ano nem sequer fosse o ideal. Ah! E o perú do dia de Natal estava saboroso, com pele crestada, se bem que, para o ano, e para o meu gosto, umas batatas alouradas devam fazer parte do acompanhamento, como mandam as NEP.

Mas isto foi um mero intróito para poder falar dos doces. (Uma nota, em parêntesis, para o bolo-rei da Gomes, plenamente à altura da sua história). Os sonhos marcharam sem grande entusiasmo, porque, de há muito, são os mal-amados da casa e só se apresentam por rotina. Já as rabanadas, o "pain perdu" lusitano, tiveram larga procura, com um molho a preceito. Não me refiz ainda da falta da sopa dourada, que a minha mãe fazia como ninguém. E como, desde há uns anos, deixou de estar na mesa, por razões que não são para aqui chamadas, um doce de chila com ovos que me alimentou a glicose sazonal por décadas, fiz questão de não levar a sério um substituto de chocolate que por lá se apresentou. Para compensar, uma mousse de chocolate sem ovos foi uma excelente surpresa, no dia de Natal.

Mas do que eu quero verdadeiramente falar-lhes é da aletria. Sou um fã dessa delícia amarela, quadriculada a canela, mas as minhas desilusões nessa matéria excedem, em muito, os grandes momentos. Houve um ano em que desconfiei mesmo que a travessa de aletria era patrocinada pela Cimpor, tal a textura que o suposto doce apresentava. Outros houve em que a massa estava deslavada, permeada de um líquido que lhe dava uma consistência esquisita, menos agradável. Até este ano! O ano da aletria 20 valores! A tecitura era a ideal, o açúcar estava na medida certa, o sabor era "aquele" que devia ser. Nada a mais, nada a menos. A aletria 2016 foi um "vintage", uma colheita ímpar. Só por aquela (digo "aquela" porque, infelizmente, já lá vai) aletria valeu a pena este Natal. Mas já vou passar um ano angustiado: como será a aletria de 2017, com o "benchmark" de 2016 tão elevado?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Silva Marques


Uma tarde de 1972, na universidade de Vincennes, em Paris, fui ouvir uma aula de Nicos Poulantzas. O seu "Fascismo e ditadura" era então uma "bíblia" laica, muito em voga entre nós. A certa altura, vejo-o interpelado por uma figura de bigode farfalhudo, que lembrava o "pai dos povos": "Cher Nicos, je suis tout à fait en désaccord avec toi...". O Zé Carlos Serras Gago, ao meu lado, esclareceu: o interpelante era português e chamava-se Silva Marques. 

Não o conhecia, mas logo me recordei da famosa "carta aberta" que, anos antes, Silva Marques enviara aos militantes do PCP, demitindo-se, com fragor ideológico, do lugar de principal responsável do partido na margem sul. Nessa mesma tarde de Vincennes, depois da aula, fui-lhe apresentado. Na conversa, perguntei a quem estava presente no grupo por um amigo, que presumia comum e que sabia estar por Paris. Grave, Silva Marques retorquiu-me: "Você é da PIDE?". Fiquei indignado. E disse-lho, logo apoiado por quem mo apresentara. Silva Marques, didático, recuou e explicou: "Só os provocadores é que costumam perguntar assim por alguém que está na clandestinidade". Fiquei a saber. Mas imaginava lá eu que o meu amigo andava clandestino...

De Silva Marques li, mais tarde, o interessante "Relatos da Clandestinidade", um livro de 1976 onde conta a sua odisseia no PCP e as andanças pelo exílio, ele que chegou a ser um quadro bastante importante do partido. Iria reencontrá-lo em 1995, ao tempo em que ele era deputado do PSD, onde chegara a líder parlamentar, depois de ter sido presidente da Câmara de Porto de Mós e Governador Civil de Leiria. Era um homem bem disposto, inteligente e perspicaz, com quem troquei divertidas "farpas" na comissão parlamentar de Assuntos europeus. Morreu ontem, segundo acabo de ler.

domingo, 25 de dezembro de 2016

George Michael


Em julho de 1990, assumi funções na embaixada em Londres. Fui sem família, por dois meses. Tinha um Mini e deu-me para passear imenso, nos fins de semana. Ouvia então muita música. Dei-me conta de que estava bastante desatualizado e comprei algumas coisas que estavam então em moda. Uma delas era um disco de George Michael. Não gostei excessivamente, mas também não desgostei. Era uma música "levezinha", sem grande criatividade, que se ouvia bem, mas não deslumbrava. A voz, contudo, era manifestamente boa. Ao fim de algum tempo, deixei de ouvir o disco mas mantive-o no carro. Um dia, dei boleia a um colega - era o Duarte Ramalho Ortigão, cônsul-geral em Londres (não sei se ele ainda se lembra da cena). Quando olhou os meus discos, saiu-lhe: "O George Michael?! Que possidónio? Nem a minha filha gosta!" Fiquei sem saber o que dizer. Eu estava ainda dividido quanto à qualidade daquela música, mas não me apetecia deixar-me "conduzir" por aquela avaliação tão radical e definitiva. (Já me tem sucedido o mesmo face a um vinho, um livro ou um filme). Decidi ouvir o disco todo outra vez. E comprei mesmo outro disco do cantor. Fiquei absolutamente na mesma, sem uma opinião firme. Desde então, quando ouço George Michael, coloco-me na mesma posição "impressionista". E, invariavelmente, "saio" de forma idêntica: nem entusiasmado nem numa atitude mínima de rejeição. A única coisa que julgo ter percebido é a razão do sucesso do cantor, da construção do seu sucesso, o que não é a mesma coisa que partilhar essas razões. 

Lembrei-me disto há pouco, ao ouvir que George Michael morreu. Vou escutá-lo outra vez.