segunda-feira, 29 de junho de 2009

Piolho

O "Piolho" fez 100 anos e, pelo que sei, está de boa saúde, com muita gente nova a animar-lhe a sala e a esplanada. O "Piolho", ou melhor, o "Café Âncora d'Ouro", é uma bela instituição do Porto, estrategicamente situada junto aos Leões, ali à beira dos Clérigos, de Carlos Alberto e do início de Cedofeita.

É um local de profundas tradições culturais e académicas, que muito frequentei na segunda metade dos anos 60, do século passado. Por ali aportava então muita gente de esquerda, os sócios da cooperativa livreira Unicepe, os pró-associativos (não tínhamos ainda direito a associação académica), os estudantes das Faculdades de Ciências e de Economia, logo em frente, bem como os de Letras e Medicina, um pouco abaixo. E todo o Teatro Universitário do Porto, por onde andei, bebia por ali o seu café de saco. É que o "Piolho", durante muito tempo, não teve "cimbalino" (essa portuense expressão para o "expresso", derivada das máquinas italianas "La Cimbali", que já equipavam a modernidade dos cafés da cidade, a começar pelo "Montarroio" e a acabar na "Brasileira").

Para muitas gerações desaguadas da província para estudar no Porto, os cafés representavam um espaço de acolhimento, socialização e convívio. O "Piolho" era um expoente desse universo, que também tinha o "Aviz" (algo intelectual) e o "Ceuta" (em frente ao Rádio Clube Português, onde eu também "actuei"), como fóruns clássicos de conversa, o "Progresso" com o melhor café de saco do mundo (dizia-se que punham bacalhau salgado) mas com professores a mais, o "Estrela" com os seus belos bilhares no 1.º andar e o "Bissau" de Cedofeita, um oásis de serenidade onde se concentrava a gente de Engenharia e dos lares da Torrinha e Rosário. Para estudo, tínhamos o "Saban" e o "Diu" (sempre cheio de "pequenas" de Farmácia). Mais para namoro, havia o "Guarany" ao fim da tarde, o "Orfeu" na Rotunda, o "Pereira" no Marquês, ou os recatados e distantes "Bela Cruz" do Castelo do Queijo e o "Chalet" do Passeio Alegre. Na baixa, onde se parava em outras diferentes ocasiões (ao domingos, ao final da tarde, à espera do "Norte Desportivo"), ficavam os institucionais "Rialto", "Embaixador" ou "Imperial", com a estudantada menos presente. E também o "Astória", ali no passeio das Cardosas, que abria às 6 da manhã, meia hora depois de fechar a "Stadium". Curiosamente, o "Majestic" não tinha então o "glamour" turístico de hoje e, bem perto, na Batalha, já preponderava o "Chave d'Ouro", onde a gente nova não ia muito.

Grande Porto!

4 comentários:

Teo Dias disse...

Sr. Embaixador,

Bela descrição dos cafés da "Invicta" e da zona das faculdades, dos fins dos anos sessenta. É raro encontrar um retrato tão simples e tão verdadeiro - sem floreados sentimentalistas ou sem a apologia das tertúlias (que não existiam). Talvez a distância no espaço tenha contribuído para isso.
Infelizmente, o quarteirão está muito diferente, os cafés e os estudantes também.
Se eu retomar "as ruas da minha terra" talvez lhe peça autorização para publicar este texto.

Francisco Seixas da Costa disse...

À vontade, Teo Dias. Com o maior prazer!

Helena Sacadura Cabral disse...

Mais uma vez, não se descreveria melhor uma época que, felizmente, por acasos da vida, tive o ensejo de conhecer. Bem haja!

Francisco disse...

Belo retrato de locais que conheci bem. Só falta acrescentar o Café Peninsular, na Rotunda da Boavista, frequentado por estudantes que vinham do então chamado "ultramar".