sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O Procurador

Contrariamente ao que alguns estarão já a pensar, apenas vou falar de uma das mais antigas instituições do Ministério dos Negócios Estrangeiros - o "procurador".

Confrontei-me com ela nos corredores do palácio das Necessidades, durante o período em que fazia as provas para a entrada na carreira diplomática. Um dia, fui aproximado por um contínuo que me perguntou: "O senhor doutor já tem procurador?". Devo ter olhado para ele com cara espantada: "Procurador?! Para quê?". O homem explicou, em breves palavras, que todos os diplomatas, sem excepção, tinham "o seu procurador", alguém que lhes tratava de receber o vencimento (!?) e que era muito útil para várias coisas, em especial quando no estrangeiro. E propunha-se para ser meu procurador, claro.

Ora eu ainda não tinha sequer passado as provas orais, estava a anos de partir para o estrangeiro, porque raio precisava de um procurador? Mas lá fiquei com o cartão do homem. À medida que os exames iam decorrendo, pelas esquinas dos claustros, foram aparecendo outros contínuos ou motoristas a deixarem-me cartões. E eu ia-os guardando, mais por curiosidade do que por convicção.

Entrado no Ministério, colegas mais velhos perguntavam-me: "Já escolheste procurador?". Eu dizia que não, eles estranhavam e, por regra, gabavam logo as vantagens que haveria em escolher o seu. Mas eu continuava relutante e não contratava ninguém. Fazia até uma certa gala nessa atitude singular.

Até que chegou o primeiro fim-do-mês. Perguntei a alguém onde se recebia o vencimento. Nesse tempo não havia ainda o crédito em conta bancária. O salário mensal vinha em envelopes, com as notas e as moedas dentro. "O teu procurador é que trata disso" - foi a resposta. Sim, mas eu, que não tinha procurador, como é que fazia?: "Não tens procurador? Isso é muito complicado, sem procurador não é possível receber o salário. Ele é que leva 'as folhas' ao banco". Sabia lá eu o que eram "as folhas"! Entrei em fúria. Já tinha sido funcionário público noutro departamento do Estado e nunca tinha tido dificuldade em receber o salário. Era agora, no MNE, que isso ia ser impossível? "Vai ao 4º andar, pode ser que te informem de outra maneira de receberes o dinheiro, mas, desde já te digo, não vai ser nada fácil" - disse-me uma voz amiga, embora muito céptica.

Faço aqui um parêntesis para explicar que o "4º andar" é o andar do poder administrativo do MNE, da mesma maneira que o "3º andar" é o andar do poder político, onde está o gabinete do Ministro e, antes, também estava o do Secretário-Geral, até que um "golpe de mão" do ministro Deus Pinheiro praticamente "correu" com o chefe da carreira do gabinete que ocupava há décadas. Mas, na realidade, se se entrar no MNE pelo Largo do Rilvas, o 4º andar é, verdadeiramente ... o 2º andar! Na "casa", as contas fazem-se desde "lá de baixo", de outros andares que só se vêem da Tapada das Necessidades. E estas coisas, no MNE, já não se discutem. Aliás, na conversa normal da carreira, é vulgar ouvir-se: "Falei hoje com o 4º andar sobre as promoções, mas disseram-me que o assunto ainda não tinha saído do 3º andar". Frase que, às vezes, é complementada por outra ainda mais críptica: "Dizem que é a 7ª que está a criar dificuldades". A "7ª" significa a 7ª repartição da Contabilidade Pública, braço armado do Ministério das Finanças dentro do MNE.

E lá fui eu ao 4º andar. Eram dois corredores em cruz ("et pour cause"...), sem nada que identificasse o que fazia quem estava por detrás daquela imensidão de portas fechadas. Andei de seca para meca, a entrar e a sair de salas atulhadas de senhoras, algumas que vim a saber historicamente poderosas, que olhavam com superioridade o jovem "adido de Embaixada" que eu era, particularmente o teimoso que não queria ter procurador. "Ó dona Maria Garcia, está aqui um doutor que quer receber o ordenado sem ter procurador!" - dizia uma delas, como se acabasse de avistar um extra-terrestre, provocando a concentração em mim de dezenas de olhos incrédulos, acompanhados por alguns sorrisos de benévola piedade. "Isso só vendo amanhã, passe então por cá da parte da tarde, pode ser que estejam por aí as 'folhas', mas olhe que vai ter muito trabalho, ó doutor!", advertiu-me logo alguém. No dia seguinte, afinal, também não foi possível. E, no outro, as 'folhas' ainda não apareciam... "To make a long story short", cedi e lá acabei por arranjar um procurador...

Verdade seja que, se o procurador era quase inútil em Lisboa, ele era, num tempo sem internet e com dificuldades de comunicação, precioso durante as nossas longas estadas no estrangeiro: ia aos bancos, pagava contas, mandava e expedia correspondência, fazia diligências de todo o tipo (alfaiates e costureiras incluídos). Contudo, para mim, a sua função mais apreciada era e continua a ser mandar-me livros e jornais pela mala diplomática.

Entre os procuradores, houve sempre "classes" e até gratificações diferentes: os procuradores mais "finos" só tratavam de prestigiados embaixadores e já não aceitavam "mais gente". Outros, eles próprios mais velhos, dedicavam-se preferencialmente a diplomatas antigos. Finalmente, os mais novos procuravam singrar na vida através de clientela das gerações recentes. Os mais afortunados ou poderosos tinham (têm?) mesmo cubículos ou vãos de escada, com chave própria, onde guardavam embrulhos e envelopes. E, se bem me lembro, alguns havia que já subcontratavam mais novos, para tarefas ou deslocações mais pesadas.

Na minha memória de algumas décadas, o grande procurador do MNE foi o Sr. Matos, homem da portaria, figura de grande educação e óptimo trato, sempre delicado, mesmo para os mais novos. Nunca foi meu procurador, mas eram famosas as cartas com que fazia acompanhar as contas mensais, nas quais pré-anunciava os "movimentos diplomáticos": "Saiba Vossa Excelência que consta pelos corredores que o Senhor Embaixador X poderá vir a ser substituído em breve pelo Senhor Ministro Plenipotenciário Y, que corre que será promovido. Quem não estará contente, ao que se diz, é o Senhor Embaixador Z, que agora poderá que ter de aceitar "tal posto"...". E depois, modestamente, terminava: "Mas Vossa Excelência sabe, bem melhor do que eu, que isto podem ser só boatos...". Qual quê! O Matos acertava sempre, pelo cruzamento de ouvidos vários, que faziam da portaria do Ministério um lugar privilegiado de informação.

Confesso que não sei se, nos dias de hoje, os meus colegas mais jovens ainda têm o seu procurador. Eu tenho, é de uma eficácia imbatível e, além do mais, no que me toca, transformou-se já num velho amigo. Como não lê blogues, nem sabe que falo aqui dele...

7 comentários:

Anónimo disse...

Que figuras, essas, a dos “Procuradores”! Diligentes e bons rapazes, reconheça-se. Recordo-me muito bem do “Matos”. O Senhor Matos tinha uma frase, emblemática, com que terminava as curtas conversas que mantinha connosco, que já não recordo bem, mas era igual para todos, fossem Embaixadores, ou Secretários de Embaixada. Sempre muito educado e vivo que nem um alho. E topava tudo o que por ali se passava. O meu “Procurador” ás vezes dizia-me, quando me enviava as coisas por mala, para o Posto, “segundo o Sr. Matos, consta isto e aquilo, Dr.”. E eu registava meticulosamente. Houve mesmo quem definisse o Ministério em dois períodos: Antes e Depois do Matos (AM e DM). Um pormenor importante, a partir do momento em que os vencimentos ficaram mais facilitados, depositados nas nossas contas na dependencia da CGD, na Prior do Crato: a sua utilidade passou, em larga medida, a ser remetida apenas para quando se estava em Posto, para envio de coisas, revistas, jornais, livros, por mala diplomática. E outras tarefas privadas que lhes encomendavamos quando em Posto. Uma vez de regresso a Lisboa (ou como se diz na gíria das Necessidades, “à Secretaria de Estado”), eram dispensados, chamando nós essas responsabilidades. Retoma-se o recurso ao dito “Procurador”, quando se volta para novo Posto. E há contínuos, “Procuradores”, que mesmo reformados, ainda estão em acção, ao nosso dispôr. Recordo-me ainda de um caso em que o Procurador era senhorio do Adido acabado de entrar na carreira, hoje Embaixador, pois alugou-lhe um apartamento, visto o jovem diplomata ter vindo do Norte e não ter casa em Lisboa. E descontava-lhe logo a renda, quando lhe entregava o vencimento. Não fosse “o Diabo tece-las...”
“Adido de Embaixada”

expressodalinha disse...

Excelente história.

Anónimo disse...

QUE SAUDADES.VENHO AQUI PELA PRIMEIRA VEZ E SE CALHAR FICO CLIENTE. Ó SEIXAS, QUE BEM QUE FAZES À MEMORIA DA CARREIRA.

UM COLEGA

Gil disse...

O meu procurador era o sr. Matos. Uma vez que fui procurar o meu procurador, já não sei com que fim, assisti a uma "nega" a um colega mais novo que tentava garantir os seus serviços: "Saiba V.Exº. que não é possível, já não chego para as encomendas. Mas há aí o ( e seguia o nome de um contínuo mais jovem) que é bom rapaz, está a começar e precisa que o ajudem".
Aquele dobrar de espinha entre o servil e o irónico com que saudava os diplomatas, as corridinhas a abrir a porta se se aproximava um sénior qualquer, eram a sua marca d'água.
Correu, depois de 74, que teria prestado alguns "menus services" à PIDE.
Não me admiraria, teria bastado que um "colega" Embaixador o tivesse sugerido.

"LACLOS" disse...

Era ( é ? ) exactamente assim...uma instituição típica do antes, paliativo para os salários de miséria do chamado pessoal menor, que passa para o depois e que acaba por definhar com a chegada das novas tecnologias, embora, aqui que ninguém nos ouve ( lê ), há por aí mto menino nosso colega que tem uma aversão atávica a todo o tipo de revoluções, mesmo tecnológicas, e que nem mandar um e-mail sabe.

For the record, o Matos, "um vosso criado para o servir" (vénia), era o meu procurador e, quando enviuvou, fez uma aproximação a uma empregada solteira que eu tinha, excelente cozinheira. Acontece que era tb ultra púdica e virgem. Ainda foi a casa dele, que era nas instalações do MNE, preparar uma refeição para os pais dele e tudo ficou por aí.
Se nos lembrarmos do Matos no final dos anos 80, pode imaginar-se a idade dos pais...

Helena Sacadura Cabral disse...

No Banco de Portugal a "coisa" fiava mais fino. O dinheiro vinha dentro de um envelope com o nosso nome e só lhe pegávamos depois de assinar uma papeleta.
O curioso é que quando se passou para a transferência bancária, houve imensa relutância de alguns que tiveram de abrir a sua primeira conta...

José Martins disse...

Bem e porque lidei com os procuradores(virtualmente) copiei a peça (oportuna) e inseri num dos meus blogues.
Gosto de vir aqui (como manga de alpaca reformado) de quando em quando.
José Martins