segunda-feira, 5 de outubro de 2009

De gravata

A cena passou-se nos últimos meses de 1968.

Toda a direcção associativa universitária, de que eu fazia parte, eleita pelos estudantes com uma expressiva maioria de votos, fora recusada pelo Ministério da Educação - a eleição fora "não homologada", como então se dizia.

Um parêntesis para referir que era assim que as coisas se passavam antes do 25 de Abril, pelo que convém recordá-lo às novas gerações: se os dirigentes eleitos pelo estudantes não agradavam ao poder político, não eram autorizados a tomar posse. Tanto podia ser recusada a lista toda, como podiam ser "seleccionados" apenas alguns elementos como não aceitáveis - como me voltou a suceder mais tarde, a mim e ao Fausto (esse mesmo, o cantautor famoso), em 1972.

Este tipo de decisões era sempre seguido pela nomeação de uma "comissão administrativa" escolhida pelo poder, constituída por alguns dos seus complacentes cúmplices, os quais, por regra, vinham posteriormente justificar perante nós a sua farisaica atitude, com o argumento de terem aceite apenas para evitar o encerramento da Associação Académica, para dar continuidade à edição das "sebentas", etc.

Esse ano de 1968 foi, em Portugal, muito complicado.

O Maio parisiense ainda estava próximo e nós havíamos editado uma revista bem irreverente, chamada "Ibis", onde as ideias desse movimento estavam muito reflectidas e eram adaptadas à realidade portuguesa. Era o prenúncio de uma importante agitação académica que começava a grassar e que viria a incendiar as nossas universidades no ano seguinte.

Em Agosto de 1968, Salazar caíra da cadeira, em Setembro caíra do poder, Marcelo Caetano ensaiva a farsa da "primavera política", mantendo o mesmo ministro da Educação escolhido por Salazar: José Hermano Saraiva, a figura que todos conhecem, hoje com um perfil inofensivo, que a liberdade que então combatia transformou em divulgador televisivo de uma visão pessoal dos factos históricos nacionais.

À época, o Ministério da Educação, chefiado por José Hermano Saraiva, era no Campo de Santana, em Lisboa. A direcção académica de que eu fazia parte, eleita mas "não homologada", havia pedido uma audiência ao ministro, para protestar contra essa "não homologação". Para nossa grande surpresa, este acedeu a receber-nos. A coreografia da "primavera política" tinha destes gestos.

Num primeiro contacto com o gabinete do ministro, surge um inesperado problema: um de nós, o Raul Caixinhas, não tinha gravata. E o senhor ministro, foi-nos dito, não recebia pessoas sem gravata. A verdade é que, à época, a gravata era um adereço obrigatório para se assistir às aulas. Por maioria de razão, compreendia-se que ela fosse indispensável para a visita a um ministro.

Que fazer? O Caixinhas era um interlocutor importante para o diálogo que se iria seguir, não podia faltar ao encontro e ficar à porta. Tinha de arranjar uma gravata! Saiu disparado e, um quarto de hora depois, reapareceu de gravata posta. Preta, claro. E lá entrou a nossa direcção associativa para a audiência. Esta acabou por converter-se numa patética conversa entre um ministro de uma ditadura e um grupo de estudantes que a ela abertamente se opunham, pelo que a reunião, como seria de esperar, foi totalmente inconclusiva. Se bem que tivesse tido alguns pontos pícaros, como os insistentes olhares lúbricos do ministro para as mini-saias de algumas capitosas colegas que nos acompanhavam, mas isso não vem para esta história.

À saída, alguns de nós não deixaram de ironizar com a tradicional rebeldia do Caixinhas: "então lá tiveste que pôr gravata, pá!". O Caixinhas desarmou-nos: "É verdade, fui de gravata. Mas, para compensar, fui sem meias!". E mostrou-nos as peúgas que entretanto metera no bolso, antes de entrar para a audiência com o ministro. Julgo que os funcionários do Ministério da Educação nunca perceberam a razão por que descemos as escadas às gargalhadas. Pensavam, talvez, que nos estávamos a rir do ministro. E, de certa maneira, estávamos.

13 comentários:

conceição disse...

ao ler o seu post fiz um post_ se fosse no Butão nada de gravata_

http://blogconceicao.blogspot.com/2009/10/gravata-no-butao.html

Gil disse...

Já somos dois.
A Direcção de que fiz parte passou pelos mesmos engulhos e foi também recebida pelo então sinistro ministro, agora trnsmutado em simpático locutor da TV.
No nosso caso, ameaçou com a criação de "uma nova 'Ala dos Namorados' par a Guiné, um Batalhão constituído só por estudantes de Direito".
Entre a miséria intelectual e política que caracterizou a conversa de surdos, houve também um momento de descompressão: o Saraiva acusou-nos de não sermos estudante mas sim "revolucionários profissionais". O Carlos Almeida Fernandes respondeu imediatamente: "Isso é bondade sua, senhor Ministro".
É, caro Embaixador: "Ousar lutar, ousar vencer".

José Barros disse...

Ainda que não conheça o Raul Caixinhas, e fazendo referência ao post anterior sobre Georgios Papandreo, penso que o Caixinhas também seria capaz, agora com peúgas e sem gravata, de cumprimentar José Hermano Saraiva. Permita-me uma apreciação: o texto é sublime.

Anónimo disse...

Excelente Post. É bom que estas coisas se recordem, porque tem vindo a intalar-se a ideia de que o tal “anterior regime” (ou “Estado Novo”, como gosta de se lhe referir o Dr. Soares) era mas benigno, que malígno. E algumas dessas “antigas figuras” passaram, com o andar dos tempos, a cordeiros, como aqui é mencionado. Mas a “estória” do Post também é divertida. Essa das peúgas está “mortal”!
P.Rufino

papoila disse...

Que história tão engraçada!
Lembro-me que o meu irmão mais velho quando fez o exame de Admissão ao Liceu, com nove anos também teve que ir de gravata!!!
Bem diferente dos 9 anos actuais.
Maria

Helena Oneto disse...

Excelente ! e contada com imensa piada. Esta história fez-me lembrar outras do mesmo teor também passadas nos anos 1968/69. Umas ainda hoje me fazem rir, outras não.

Adorava ter conhecido o Raul Caixinhas...

ié-ié disse...

Faltou um pequeno pormenor, sr. Embaixador. Direcção estudantil... de que Faculdade? De Direito não era que nessa estava eu, o Manuel Roque (já falecido), Duarte Teives, João Arsénio Nunes, João Soares, Carlos Fino e Francisco Gonçalves Pereira.

LPA

Francisco Seixas da Costa disse...

Como resposta a LPA, aqui vai: trata-se do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina. À distância, não tenho os nomes completos dos integrantes da lista associativa, que era presidida por Fernando Baginha e integrada, entre muito outros, por Raul Baginha, Francisco Themudo, Rui Paulo da Cruz, Fausto Bordalo Dias e outros que a história associativa recolherá. Quem tiver outros nomes à mão de semear, que os deixe por aqui.

Bento Freire disse...

A direcção associativa de que fala Gil deve ser a da AAFDL presidida por Arnaldo Matos (lista "Ao trabalho!", de 1969 que também não foi homologada pelo Saraiva.
parece claro, até pela citação "ousar lutar, ousar vencer".

ié-ié disse...

A lista "Ao Trabalho!" (1969-70) de que ainda conservo o programa, "autografado" por Vladimir Roque Laia, Duarte Teives, Carlos Almeida Fernandes, António Dias, Francisco Gonçalves Pereira e Vítor Ramalho, tinha Arnaldo Matos como presidente e, além dos citados, também Jorge Almeida Fernandes e Manuel Castilho.

António Dias é colega do sr. Embaixador e Manuel Castilho, irmão do Paulo Castilho, escritor e também colega do sr. Embaixador.

Já que estamos em "maré associativa", tenho aqui outras listas:

Uma, já não me lembro o ano, com José Eugénio Dias Ferreira (dirigente do Sporting e irmão de Manuela Ferreira Leite), Ana Merelo, eu, Óscar Mascarenhas e José Eduardo Magalhães Marques (perdi-lhe o rasto).

Tenho igualmente o programa de candidatura de Miguel Lobo Antunes (1969/70), presidente, mais Urgel dos Santos, Henrique Abecasis, Luís Filipe Castro Mendes (poeta e também colega do sr. Emabaixador), Silvino Teixeira, Carlos Melon, Jorge Serrão e Fernando de Oliveira.

LPA

Elin disse...

Boa noite,
encontrei este post por acaso através de uma busca na internet e, além de ter achado muita piada ao texto e ao episódio, foi especialmente engraçado saber que conviveu com o meu pai (Fernando Baginha) na associação de estudantes.
Cumprimentos,
Elin Baginha

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Elin

O seu Pai era um dos grandes dirigentes associativos da época, com um discurso "duro" e implacável, temido pela hierarquia do ISCSPU. Eu era um jovem caloiro quando integrei a lista que ele liderava. Tempos muito interessantes!

Um abraço
Francisco

matilde mello (agora gago) disse...

O Fernando Baginha foi uma refer<ãncia para mim. Este comentário acho que vai mil anos atrasado e também acho falei há mil anos com uma filha dele (Erin?) e depois perdi contacto. Muitos não colunáveis desse tempo deviam ser para sempre lembrados e lidos, e mais