quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ernâni Lopes (1942-2010)

Há dias em que um país entra de luto. Este deve ser um deles. A morte de Ernâni Lopes é uma perda imensa para Portugal, para a nossa lucidez, para o nosso patriotismo. É-o também para a nossa diplomacia, onde ele exerceu, com brilho muito raro, funções da maior importância, que ajudaram o país em momentos negociais delicados. É-o, igualmente, para a política portuguesa, onde a sua coragem e a sua visão souberam afrontar momentos de rara dificuldade.

Nas últimas duas décadas, cruzei-me bastante com Ernâni Lopes, que teve a simpatia de discutir abertamente comigo algumas coisas sobre a Europa em que ambos acreditávamos. E, também, sobre esse triângulo entre Portugal, o Brasil e a África, que tanto o entusiasmava e que ele desenvolvia nas iniciativas da SAER. Sobre alguns temas, nem sempre estive de acordo com a sua leitura das coisas, mas reconhecia nela uma genuinidade que era forçoso respeitar, pela seriedade que sempre lhe estava subjacente.

Longe de uma intimidade pessoal que nunca tivemos, reconciliei-me ao tratamento por tu que ele generosamente me impôs, como que a sublinhar a proximidade de algumas das ideias que partilhávamos. Recordo-me, muito em especial, os tempos que passámos juntos numa "task force" criada, em 2003, para assessorar o primeiro-ministro de então, na fase terminal do defunto Tratado Constitucional. Notava-se que o exercício estava a ser algo penoso para ele, a quem esse mesmo governo não tinha autorizado a apresentar, no termo da Convenção Europeia em que ele representara Portugal, e que lançara as bases desse malogrado tratado (inspirador, no essencial, do Tratado de Lisboa), uma declaração de voto em que, de forma frontal, clarificava o seu afastamento (e o que achava dever ser o de Portugal) quanto ao equívoco consenso que resultou do trabalho dos "convencionais". Talvez valesse a pena, para a história da nossa política europeia, conhecer-se, agora, o texto desse projeto de declaração de voto.

A palavra livre de Ernâni Lopes vai fazer muita falta a Portugal.

2 comentários:

Anónimo disse...

Snr. Embaixador:

Também partilho da sua elevada consideração pela personalidade pública do Prof. Ernâni Lopes, mas valorizo sobretudo a sua intervenção cívica corajosa e patriótica, aquando do referendo da regionalização, que evitou (por ora...)a Portugal, mais esse "tiro no pé".
Dito isto, é mister não esquecer que o falecido foi figura de prôa dos que, ao proporem a adesão à então CEE, propunham, no fundo - mas sem o explicitar, obviamente... -, trocar soberania por bem-estar. Enganou-se e enganaram-nos!!! Hoje, 25 anos após a adesão, perdemos a soberania sobre questões essenciais para o nosso porvir colectivo como Pátria quase milenária e não temos bem-estar...
A melhor homenagem à memória da personalidade cívica que foi o Prof. Ernâni Lopes, seria a de lhe seguir as pisadas da intervenção política desassombrada e esclarecida e, em nome de Portugal, colocar na praça pública a questão de saber se, entre perdas e ganhos, a pertença à UE continua a ser do nosso interesse. Permita-me que, modestamente, o convoque, também a si, Snr. Embaixador, para esse debate vital para o nosso futuro como Nação.
Cordiais cumprimentos,

A. Costa Santos

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Subscrevo o pesar que devemos sentir perante o falecimento de Ernâni Lopes. Ele era um economista sério, sensato que soube gerir as finanças do país, num tempo de dificuldades, durante o Bloco Central nos anos 80.

Ernâni Lopes tinha excelentes referências históricas e éticas e, por isso, como nos diz a pátria perdeu um Homem que estudava, pensava e empreendia.

A sua lucidez e clarividência impressionaram-me e vai fazer falta à pátria um Homem com a sua coragem e a sua clarividência.

Revelou ainda essas qualidades na estratégia Atlantista que apontou como caminho económico para deslaçar os "nós górdios" em que o país se vê metido nesta Era da desacopulagem das finanças e da economia para usar uma expressão sua. Na verdade, nos últimos tempos vinha defendendo as potencialidades económicas que Portugal poderia aproveitar do mar e da sua ligação com o espaço lusófono, tendo feito parte da Comissão de Honra do Congresso "Os Mares da Lusofonia", realizado no fim de Outubro deste ano, e sido prevista a sua participação como conferencista que iria encerrar o evento. No entanto, pelo seu estado de saúde talvez já não tenha conseguido estar presente.

Faleceu um grande Português que lucidamente nos avisava da importância estratégica dos mares para a sedimentação económica do espaço Lusófono.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt