terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Richard Holbrooke (1941-2010)

A morte de Richard Holbrooke é uma perda importante para a diplomacia americana. Embora alguns discutam a eficácia efetiva da ação que recentemente vinha a desenvolver no Afeganistão e Paquistão, o seu passado de cidadão da diplomacia revela uma vida de intenso trabalho, com papéis importantes em vários cenários geopolíticos. No seio da administração democrática americana foi sempre um defensor do uso ponderado da força, atitude que, algumas vezes, não soube gerir com total equilíbrio. Mas ficam-se-lhe a dever os acordos de Dayton-Paris, sobre a Bósnia-Herzegovina, que permitiram estancar uma tragédia que já parecia eterna, embora eu saiba, por antecipação, que entre os leitores habituais deste blogue há quem não coincida comigo na avaliação da "bondade" desta ação diplomática.

Conheci-o pessoalmente num interessante almoço, em Nova Iorque, em 1999, ao qual, enquanto membro do governo português de então, acompanhei o presidente Jorge Sampaio e José Ramos Horta, que era amigo de sua mulher. Estávamos num tempo muito complexo da vida de Timor Leste e essa refeição fazia parte de uma estratégia de abordagem da diversificada da administração americana, essencial para alguns aspectos entendidos como vitais para uma solução positiva do problema. Holbrooke era então chefe da missão americana junto das Nações Unidas, função que ocuparia até Janeiro de 2001. Por pouco mais de um mês, não coincidi com ele em funções no "palácio de vidro".

A biografia de Holbrooke está hoje por todos os jornais. O seu papel de grande negociador foi central na sua vida pública e - disse-me quem o conheceu bem - Richard Holbrooke era uma homem de palavra firme, o que lhe garantia uma grande credibilidade nos momento complexos de decisão.  O facto de representar uma grande potência e de se saber adepto de soluções musculadas também deve ter ajudado à eficácia prática de alguns dos seus êxitos. Fica a sensação que Holbrooke esperaria ter uma função nesta administração americana muito superior à que acabou por ter. Isso ter-se-á ficado a dever à escolha de Obama, em detrimento de Hillary Clinton.

Gostaria de destacar um dos seus "feitos", que pode parecer lateral mas que teve uma importância decisiva na facilitação do funcionamento da máquina da ONU: a resolução do diferendo que envolvia as contribuições americanas para a organização, a que ele ajudou a pôr termo, no final de 1999. Com habilidade, utilizou nessa difícil negociação a contribuição dada por Ted Turner, o patrão da CNN, que assim financiou parte da dívida, através de uma milionária doação às Nações Unidas. A convite pessoal de Kofi Annan, tive o prazer de ser um dos dois embaixadores escolhidos para integrar o "board" executivo do "United Nation Fund for International Parnerships", que selecionava os projetos a financiar por esse fundo. Indiretamente, fico a dever a Holbrooke essa magnífica oportunidade.

Finalmente, gostava de mencionar que Holbrooke deixou um livro muito interessante, que vivamente recomendo: "To end a war", sobre a sua experiência na Bósnia-Herzegovina.

4 comentários:

Gil disse...

Faço parte do número dos seus leitores a que se refere no final do primeiro parágrafo do post – os que não estão completamente convencidos que Dayton tenha sido uma boa solução.
Na verdade, penso que Holbrooke era muito representativo daquilo que era a principal característica da política americana para a região: uma mistura explosiva (e que explodiu…) de desconhecimento e desprezo pela História, de arrogância e de convicções preconceituosas e “biased”.
Não tenho o livro à mão e, por isso, a citação não é literal mas lembro-me distintamente de uma passagem em que ele diz, mais ou menos, “os sérvios passam a vida a falar de História mas eu estou-me nas tintas para a História”.
Ora, o redesenho territorial saído do(s) conflito(s) ocorridos no contexto da desagregação da Jugolávia foi obtido da mesma forma que as recomposições étnicas e fronteiriças resultantes das várias guerras balcânicas anteriores, isto é, por imposição de potências exteriores à região e em defesa dos interesses destas e não das populações locais. Por isso se mantiveram os germes de violência interétnica que, recorrentemente, abala os Balcãs.
Ora, foi exactamente alguém que desconhece a História e do facto parece orgulhar-se, o "deus ex machina" de Dayton.
A perspectiva de nova explosão não parece, de todo, afastada.
Quanto a mim – e creio que Holbrooke o reconhece explicitamente no livro que cita – o resultado de Dayton foi que os EUA definiram, com os Acordos, a essência da sua doutrina post-Muro de Berlim, isto é, mostraram quem manda.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Gil: Pode ser que o arranjo de Dayton ainda venha a dar origem a muitos mortos. Porém, esses futuros mortos, graças a Dayton, estão por ora vivos.

Anónimo disse...

O plano Cutileiro até não estava mal concebido, bem pelo contrário. Mas, sabemos como "acabou”. E Holbrooke ficou com os louros. Sem desprestígio para o norte-americano, sem dúvida um grande diplomata. Excelente e oportuno Post.
Rilvas

Anónimo disse...

Grande frase a do nosso Embaixador na resposta ao Sr. Gil (Eanes?)