sexta-feira, 31 de março de 2017

O novo mapa da França


A história da V República francesa, regime que no final dos anos 50 pôs fim a um modelo parlamentar atribulado e visivelmente ineficaz, tornou muito evidente que o sistema partidário se transformou, naquele país, numa dimensão puramente subsidiária na afirmação da vontade política. Quero com isto dizer que, à esquerda e à direita, a dinâmica de agregação de forças se revela dependente de lógicas conjunturais e, frequentemente, do apoio a alguns atores políticos. A meu ver, os dias que aí vêm, vão confirmar isto de modo claro.

Durante alguns anos, o Partido Comunista Francês foi a exceção, conseguindo sobreviver e prolongar, nesse regime constitucional quase imposto por De Gaulle, um forte poder de influência política que, em particular, lhe advinha da sua força sindical, como eficaz contra-poder. Curiosamente, os comunistas iniciaram aí o seu imparável declínio, com a cooptação para o governo com que François Mitterrand consagrou a sua vitória presidencial.

Convém lembrar que o Partido Socialista Francês é uma « construção » de Mitterrand, feita pela agregação de várias estruturas, clubes e sensibilidades socialistas, desejosas de esquecer o passado pouco glorioso, na IV República, da estrutura dominante nesse setor. Com a linha que impôs no início do governo, a partir da sua vitória em 1981, Mitterrand « secou » o terreno à sua esquerda e ligou o PS a uma agenda que tornou mesmo a expressão « social-democrata » num anátema.

É o ressurgimento dessa dualidade esquerda-direita que se verifica nesta eleição presidencial, com Hamon e Macron a prenunciarem o que, com toda a certeza, será a implosão do PSF.

À direita, desde De Gaulle, as forças políticas foram sempre desenhadas em torno dos presidentes, com o chamado « centro » a ser chamado a compor o ramalhete. Sem uma tradição democrata-cristã, o centro optou por uma « fulanização » (como aconteceu com Giscard d’Estaing) ou um vago credo liberal. Mitterrand tinha razão, quando ironizava que « em França, o centro não está nem à esquerda, nem à esquerda », isto é, é um parceiro tradicional da direita.

Assumindo que Emmanuel Macron ganha as eleições, com quem governará, partindo-se do princípio que, no sufrágio legislativo subsequente, a direita de Sarkozy e do « Les Republicains » sairão seguramente maioritários ? Como se comporá a « majorité presidentielle » no pós-Hollande e pós-PSF ? Terão futuro governativo as figuras da direita socialista que entretanto se juntaram ao « presidente Macron » ? E como se comportará, em termos de projeto, a direita democrática, desafiada pelo crecimento do Front National de Le Pen ?

(O leitor terá notado que dou Le Pen por derrotada. É isso mesmo, embora eu me tenha enganado no Brexit e em Trump.)

quinta-feira, 30 de março de 2017

O precedente

Ouvido ao almoço:

- Não percebo toda esta polémica por ter sido dado o nome de um futebolista português, com grande projeção internacional, a um aeroporto. Vendo bem, já havia por cá um precedente.

- Essa agora! Onde?

- Então não conheces o Aeroporto Figo... Maduro?

quarta-feira, 29 de março de 2017

David contra Michel


Em 1995, a União Europeia iniciou um processo de revisão do Tratado de Maastricht, que iria ter como resultante, dois anos depois, o Tratado de Amesterdão. Cada país designou o seu "chief negotiator". A França indicou o seu ministro delegado para os Assuntos europeus, Michel Barnier (à direita, na foto). O Reino Unido tinha então o seu "minister for Europe", Davis Davis (à esquerda). Conheci muito bem os dois, porque representava Portugal nessa negociação.

Hoje, curiosamente, Davis é "minister for exiting the European Union", o que significa que tem a responsabilidade de conduzir, por Londres, a espinhosa negociação do Brexit. Vi sempre David Davis como um conservador fortemente eurocético, dotado de um espírito sardónico, muito cáustico face aos costumes da máquina bruxelense, que visivelmente desprezava. Nessa sua vontade de afrontar a UE foi sempre coerente até ao fim, pelo chegou a ser interessante observar o modo como a nova administração trabalhista, sem perder por completo as "reticências" dos seus antecessores, se conseguiu adaptar a um estilo mais pró-europeu, sob a batuta de Tony Blair.

Por seu turno, Barnier, depois de ter sido ministro em governos franceses (da Agricultura aos Negócios Estrangeiros), foi membro da Comissão europeia e agora foi escolhido para chefiar as negociações, em nome dos 27, para a consecução do Brexit. É um homem muito diferente de Davis, com muito menor humor e quase sem capacidade de saber rir das coisas sérias, mas é seguramente um melhor conhecedor dos dossiês, pela sua ampla e diversificada experiência. É um fervoroso europeísta, bastante mais até do que o generalidade dos membros da sua família política da direita francesa.

Não vai ser um despique fácil. Boa sorte, Michel Barnier!

terça-feira, 28 de março de 2017

"Fake news"

Donald Trump fala muitas vezes de "fake news", quando as notícias não lhe agradam. Mas, às vezes, há mesmo "fake news". E a imprensa portuguesa está cheia delas, às vezes assinadas por plumitivos que, depois, se queixam de que não levamos a sério o que escrevem a propósito de outros assuntos.

Os leitores deste blogue podem ler o que escrevi (abaixo) sobre a questão da atribuição do nome de Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira. Peço que releiam o texto. Nele insurjo-me - e essa é a minha livre opinião, contestável como qualquer outra - contra o que considero ser a insensatez dessa decisão, que me chocou. E, no texto, referi "que me chocaria muito menos" (isto é, que também me chocaria, mas muito menos) se acaso o governo regional tivesse optado pelo nome do seu antigo presidente e principal promotor da modernização do aeroporto, Alberto João Jardim. No texto, como notará qualquer leitor de boa fé, faço um perfil muito crítico do modo político de atuar de AJJ, com o qual nunca me identifiquei, como fica claro. 

Pois muito bem, esta "comparação" entre os dois nomes, foi transformada numa "proposta" da minha parte, em notícias publicadas, para que ao aeroporto fosse dado o nome de AJJ O meu único comentário a isto é que o mau jornalismo e a má fé têm um nome: desonestidade. E quem assinou essas peças foi, além de mentiroso, desonesto. Isto é, fez "fake news" e isso fica-lhe no currículo.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O nome

Meço bem o que vou escrever.

Durante décadas, chocou-me bastante o modo como Alberto João Jardim exerceu a sua ação como presidente do Governo Regional da Madeira. Não apreciei o seu frequente autoritarismo, o modo displicente e desrespeitador como sempre tratou a oposição, as instituições nacionais e a comunicação social. A Madeira, durante o seu longo reinado, teve uma existência política com sérias e evidentes falhas na democraticidade da sua vida cívica. Um estilo de caudilhismo ao jeito sul-americano impôs-se por décadas naquela região e Alberto João Jardim foi a cara dessa pouco prestigiante excecionalidade.

Dito isto, a Madeira contemporânea, com todas as suas desigualdades e fragilidades, está hoje a anos-luz da ilha pobre e subdesenvolvida que conheci nos anos 70. Foi, a meu ver, a zona do território português que mais beneficiou em termos de "salto em frente" em múltiplos domínios, através de um discutível mas eficaz "keynesianismo", bem visível na paisagem embora, infelizmente, também, injustamente, nos bolsos de alguns ramos de apadrinhamento local - sendo que, neste caso, julgo que ninguém poderá acusar Jardim de qualquer improbidade a nível pessoal. Uma vez mais, também aqui, a cara dessa imensa mudança positiva é, indiscutivelmente, a de Alberto João Jardim.

Sou testemunha presencial do modo como soube lutar, junto do governo central mas, muito particularmente, junto das entidades europeias, pelos interesses da sua região, do seu esforço continuado e persistente, às vezes por meios menos ortodoxos, para obter tudo o que considerava necessário para a sua Madeira. Recordo, porque estive diretamente ligado a isso, o seu extraordinário trabalho que, com o apoio do governo de Lisboa, veio a permitir a fantástica obra que foi a extensão da pista do aeroporto da Madeira, uma infraestrutura-chave para desbloquear o estrangulamento do acesso turístico à ilha. Alguns corredores de Bruxelas percorremos em comum para tal.

Por isso, e sabendo bem que o que escrevo é polémico e desagradará a muitos dos meus amigos (e, infelizmente, agradará a muitos que prezo em não ter como tal), quero aqui dizer, com total frontalidade e sem ambiguidades, que me chocaria muito menos que o nome de Alberto João Jardim fosse dado ao aeroporto da Madeira, em lugar do de Cristiano Ronaldo, cujas qualidades atléticas ficariam, com certeza, muito mais adequadamente consagradas num estádio ou outra instalação desportiva.

O oportunismo turístico tem limites, que são os do bom-senso, da justiça e, claro, do ridículo.

À Madeira!


Afinal, confirma-se, já chegámos à Madeira!

Humor & covilhetes



Ontem, na "Gomes", com um covilhete à ilharga.

- É um exagero andar para aí a dizer que o PSD vai ter maus resultados nas capitais de distrito, nas próximas autárquicas.

- Como é sabes? 

- Ora essa! Porque os distritos já acabaram há muito...

domingo, 26 de março de 2017

O Arnaldo


Arnaldo Matos, que a pequena história e a grande ironia política consagraram eternamente como o "grande educador da classe operária", bolçou há dias mais algumas das suas habituais inanidades discursivas. 

Desta feita, defendeu a legitimidade do ato terrorista em Londres, adiantando mesmo alarvidades (não consigo deixar de escrever isto assim) sobre a hipótese de tragédias idênticas virem a ocorrer por cá.

Desde há muitos anos que o tal Arnaldo goza, entre nós, de um complacente mas justificado estatuto de inimputabilidade, associado a um registo anedótico que o seu aspeto favorece e que atravessa os tempos. Pelo que me toca, confesso já ter perdido a paciência para a personagem.

O que mais me surpreende é a circunstância dos parentes do pobre Arnaldo não terem ainda recorrido aos serviços da unidade hospitalar que leva o nome da família.

sábado, 25 de março de 2017

Mário Centeno


No ano passado, escrevi por aqui isto:

"Há cerca de dois anos, uma organização de alunos da Universidade Nova de Lisboa convidou-me para um debate sobre os novos desafios da Europa. Teria como parceiro de mesa Mário Centeno. O nome dizia-me alguma coisa, mas pouco. Fiz uma pequena pesquisa e ela fez-me lembrar que ouvira Mário Centeno na conferência anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde se pronunciara sobre Economia do trabalho. Ficara então muito bem impressionado com a apresentação feita, muito estruturada e com perspetivas que não conhecia.

O nosso debate na Nova correu muito bem. Voltámos, depois disso, a cruzar-nos algumas vezes, em reuniões, e, com naturalidade, vi-o surgir à frente da pasta das Finanças no governo de António Costa, de quem havia sido o "guru" na área económico-financeira. Todos nos recordaremos que havia então em Centeno uma jovialidade que se espelhava num sorriso franco, quase adolescente, que se manteve em muitas aparições públicas, em que foi sendo conhecido pelos portugueses."

No meu texto de 2016, notei ainda que o sorriso de Mário Centeno se tinha esvanecido. O peso da responsabilidade e as dificuldades da conjuntura estavam, claramente, a afetar a sua jovialidade.

Nos dias que correm, Mário Centeno já tem razões para rir. Conseguiu o mais baixo défice da democracia, obteve a recapitalização da Caixa - essa impossível missão, segundo algumas Cassandras - e ganhou indiscutível credibilidade junto das instituições europeias. Não esqueço que foi António Costa quem lhe propocionou as condições políticas para poder levar a cabo a política orçamental de sucesso que implementou. Mas os ministros das Finanças não são uns governantes quaisquer e Centeno provou, em escasso tempo, estar à altura da escolha feita por António Costa.

Estará já Carlos Costa arrependido em não ter aprovado o nome de Mário Centeno para a direção do Gabinete de Estudos do Banco de Portugal? Ao fazê-lo, apenas retirou uma linha ao currículo do seu provável sucessor.

O desastre de Trump


Donald Trump aprendeu ontem uma lição: a de que ter vencido as eleições presidenciais e ter um Congresso com maioria republicana em ambas as câmaras legislativas são condições insuficientes para poder gerir o país a seu bel-prazer. E isso é uma boa notícia, que prova que os "checks and balances" não desapareceram no cenário constitucional americano.

"Repeal & replace" o Obamacare era algo que os Republicanos tentavam há muito. Mesmo em tempos de Obama, poderiam já ter conseguido esse objetivo, desde que se tivessem entendido entre si. Com efeito, a maioria de que hoje dispõem em ambas as câmaras legislativas já existia antes das recentes eleições presidenciais. Só que, durante anos, os Republicanos não conseguiram acordar numa lei alternativa. Trump pensou que o impulso dado pela sua vitória facilitaria o entendimento entre aqueles republicanos que têm uma leitura reformista das mudanças a introduzir no Obamacare e quantos, pura e simplesmente, querem um regresso ao "statu quo ante", anulando-o por completo. Foram estes últimos que "roeram a corda" ao presidente, jogando agora no "quanto pior melhor", esperando pela implosão do Obamacare, através da sabotagem administrativa, já anunciada, de algumas das suas componentes. Verdade seja que, mesmo que o "Repeal & replace" tivesse passado na Câmara de Representantes, nada garantia uma aprovação no Senado. Mas o efeito político de uma passagem na câmara baixa teria sido muito importante.

Esta derrota de Trump, somada às objeções judiciais que dificultam a aplicação das medidas restritivas do acesso ao território americano e a outros recuos menos visíveis, induz uma imagem de ineficácia operativa numa presidência que já provou necessitar de êxitos adjetivados de forma gongórica para viver. A palavra fracasso não parecia fazer parte do vocabulário de Trump, que tinha saído de todos os relativos desaires anteriores sempre "aos ombros de si próprio", numa coreografia de megalomania que parecia imparável. Agora, com esta derrota, não há como esconder o desastre. Se eu fosse um comentador independente também esconderia a minha satisfação.

sexta-feira, 24 de março de 2017

24 de março


Gostei de ouvir o ministro Manuel Heitor, na intervenção que fez hoje no auditório da UTAD, recordar a data de hoje, o dia 24 de março, Dia do Estudante.

O Dia do Estudante não é nenhum pretexto para borga e copos, não é uma data lúdica e inconsequente, ocasião para festarolas. É uma data com uma história política. 

Em 1962, foi precisamente a circunstância do governo de então não ter permitido a sua comemoração no dia 24 de março (alguém sabe o porquê de ser essa a data?) que foi a origem da chamada "crise académica", com greves, prisões e o afastamento posterior da universidade de muitos estudantes e alguns professores.

Na sequência dessa repressão, Marcelo Caetano, já há três anos fora do governo, demitiu-se do cargo de reitor da Universidade de Lisboa, iniciando a "travessia do deserto" que, seis anos depois, o levaria ao lugar de Salazar. É assim uma ironia constatar que a sua (imerecida) fama de "liberal" lhe havia ficado do "24 de março" de 1962.

Repito: foi bonito ouvir o ministro falar na data mas, confesso, interroguei-me a mim mesmo sobre quantas pessoas, naquele largo auditório, tinham o 24 de março como uma etapa fundadora da nossa democracia.

E será que haveria alguém por ali que se recordasse da "República 24 de março", uma casa alugado por estudantes de esquerda, que existia no Porto, perto do Largo de S. Lázaro, na segunda metade dos anos 60?

Turras

Os mais novos não conhecem o termo. Os "turras" era a expressão simplificada que, no início da guerra colonial em Angola, qualificava aqueles a quem o regime chamava "terroristas" - isto é, todos quantos lutavam de armas na mão pela independência das colónias portuguesas, das quais se sentiam mais cidadãos do que portugueses. 

Nos idos de 1961, a palavra "turras" andava na boca de toda a gente e sempre desconfiei que a expressão "tugas" representou contraponto fonético de resposta nacionalista para designar os "portugas" brancos (devia escrever "europeus"?) de quem os independentistas se queriam ver livres.

Os "turras" eram portugueses? Na maioria, claro que sim, "jus solis" e "jus sanguinis", como a rapaziada do Direito gosta de dizer no latim que lhe nobilita os pareceres. 
Porquê? Porque eram nascidos no Portugal de lei, fihos de portugueses de lei. Mas seria mesmo assim? Ou não se daria o caso de os pais serem "assimilados", essa deliciosa fórmula racista que o Estado Novo consagrou, como que a dar a "honra" do aportuguesamento a quem vivia nas suas Angolas? E os "turras" brancos, de que o MPLA estava entãbatulhado.

Lembrei-me disto ao ouvir Theresa May dizer que o autor do atentado era "britânico de nascimento". É deliciosa, esta "de nascimento". O assassino das cinco pessoas em Londres era tão "britânico" e europeu como o anormal que hoje, em Barcelos, matou quatro. Este era "tuga" e, se calhar, também será "turra", ao olhar de alguns.

Posso estar enganado, mas com o caminhar para esta sofisticação no léxico, que conduz alguns a discriminar entre os cidadãos de lei do mesmo país, regredimos ao tempo dos "filhos de algo", que a corruptela veio a designar já não sei como - e a que um decreto pós 5 de outubro pôs termo. Definitivo.

Miguel Cadilhe


Conheci Miguel Cadilhe em meados dos anos 60, quando ambos éramos estudantes na Universidade do Porto. Segui depois, à distância, a sua brilhante carreira profissional e observei o seu posterior percurso político.

O país testemunhou a miserável campanha que lhe foi montada por essa escola de falta de ética deontológica que se chamou "O Independente" - que nem a circunstância de, pelo caminho, ter produzido alguns excelentes jornalistas isenta da culpa eterna de ter frequentemente utilizado métodos mais do que indignos. Como viria a suceder a outras figuras políticas, e sempre com impunidade, sobranceria e preconceito, Cadilhe foi então vítima de uma operação nojenta de denegrimento por parte daquele jornal, para a qual sempre olhei muito para além das barreiras ideológicas que nos separavam.

Há mais de uma década, voltei a reencontrar Miguel Cadilhe na Associação Portuguesa para o Investimento (API), a que presidia, onde, como embaixador, com ele trabalhei por algum tempo, como membro do respetivo "forum". Nos últimos anos, temo-nos cruzado em alguns espaços públicos de reflexão.

Miguel Cadilhe é conhecido - e acho que vive muito bem com isso - por não ter um feitio fácil e vi o modo como alguns tinham grande dificuldade em lidar com essa sua maneira de ser. Mas, para além de ser um homem honesto e de bem, é uma figura intelectual para cuja opinião, nos temas económicos, sempre olhei com atenção: diz o que pensa, mesmo contra a corrente, com frontalidade e sem qualquer receio de enfrentar o "politicamente correto", qualidade que vai escasseando por aí.

Hoje, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) vai testemunhar-lhe o seu reconhecimento institucional, por ter tido um papel de relevo na consagração do Alto Douro Vinhateiro como Património da Unesco, atribuindo-lhe o título de Doutor "honoris causa". 

Com amigos e admiradores de Miguel Cadilhe estarei presente, também como antigo presidente do Conselho Geral da UTAD, na ocasião desta sua justa consagração.

As sombras sobre a festa


Passam amanhã 60 anos sobre a data em que um grupo de seis democracias europeias decidiu instituir entre si aquele que é, sem a menor sombra de dúvida, o mais bem sucedido processo de cooperação internacional que a História regista. Aquilo a que hoje chamamos União Europeia resultou do aprofundamento dessa ideia, nascida para curar as feridas da guerra e para dar solidez a um espaço onde a economia de mercado se contrapunha ao modelo das “democracias populares”. Com os Estados Unidos, a Europa viria também a partilhar a vitória na Guerra Fria, simbolizada pela implosão da União Soviética e pela recuperação da soberania plena por parte dos países que, no Centro e Leste do continente, deixaram então de respeitar a tutela de Moscovo.

Esses países, com toda a naturalidade, procuraram integrar o projeto que, ao longo de décadas, lhes tinha sido mostrado, por cima do Muro de Berlim, como um horizonte de esperança radiosa, um novo modelo de felicidade coletiva – depois da desilusão que o “socialismo real” fora para uma grande maioria. Fazer parte da União Europeia, bem como da NATO, foi o instrumento utilizado por esses Estados para exorcizar a memória do tempo anterior. Muitos deles carrearam para a União toda a sua experiência traumática, consagrando isso numa hostilidade aberta face a Moscovo e numa pulsão muito forte contra modelos de solidariedade social que fizessem lembrar o voluntarismo igualitarista que antes lhes havia sido imposto. A recuperação da soberanias conduziu-os, em alguns casos, a tropismos autoritários, com desrespeito pela separação de poderes, pelas minorias e por alguns Direitos Fundamentais. Afinal, provava-se, o “template” de valores da União podia ceder perante algumas agendas nacionalistas recém-chegadas.

Também a restante União Europeia, nesse mesmo tempo, se foi alterando. Alguma desilusão sobre a capacidade do projeto integrador provocar um contínuo choque de riqueza e bem-estar, somada a tensões culturais e étnicas que alguns modelos nacionais se revelaram incapazes de superar, com consequências de disrupção nos seus sistemas políticos, veio mostrar que o consenso de décadas estava definitivamente abalado e que o anterior “mainstream” partidário, mesmo com alternância, podia estar em vias de esgotar as suas virtualidades. O surgimento em força do populismo e de modelos confrontacionais, conjugado com alguma desintegração europeia, pode estragar a festa da sexagenária Europa comunitária.

Para nós, portugueses, que entrámos há 30 anos, precisamente a meio da viagem percorrida pela Europa comunitária, a experiência provou à saciedade que este é projeto onde melhor podemos ancorar a nossa democracia e o nosso futuro. Lutar pela Europa é um desígnio nacional imperativo.

(Artigo hoje publicado no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, 23 de março de 2017

Alvo manto


Se as coisas ainda são o que eram, esta neve primaveril que cai sobre Vila Real não vai "pegar" - como se dizia no meu tempo de infância, então fazendo figas para que o nevão fechasse o caminho para a escola. 

Nesse outro tempo, a neve caída na cidade, com ou sem fotografia (do Marius ou do Macário), era notícia garantida na meia página que "O Comércio do Porto", "O Primeiro de Janeiro" e o "Jornal de Notícias" - os três jornais do Porto que chegavam à cidade (havia também o vespertino "Diário do Norte", mas não se vendia em Vila Real) - dedicavam diariamente às principais cidades nortenhas.

Em minha casa, lia-se o "Comércio" e o "Janeiro", respetivamente comprados para o meu pai e para o meu avô. Todos os anos, por ocasião da queda da neve (nesse tempo, a neve parecia cair com maior regularidade), o meu pai lembrava:

- Ora deixa cá ver qual é o jornal que traz a frase batida "a cidade acordou sob um alvo manto de neve". 

É que essa figura estilística, muito própria de um gongórico jornalismo de província então em voga, era repetida com regularidade e sem pudor do ridículo.

Se não vinha nesses dois jornais comprados na loja do Albertino, o meu pai, antecipando o gozo de a encontrar, procurava-a no "Notícias", numa ida ao café no Excelsior, na Rosas ou na Pompeia (a Gomes foi para ele um pouso mais tardio). 

O "Notícias" era um jornal então menos conceituado, com muita nota desportiva da região (nisso só ultrapassado pelo "Norte Desportivo", do Alves Teixeira) e com um pendor para o crime e para o "sangue": "Carteiro de Contumil mata a sogra"... (Mas nunca, porque o respeitinho social-geográfico era muito bonito: "Crime passional em Nevogilde").

Amanhã, mais pela força do degelo do que pela melhoria do jornalismo, "cheira-me" que a cidade não vai acordar "sob um alvo manto de neve"...

Trump


Muitos nos enganámos no resultado das eleições americanas, mas muito poucos nos equivocámos quando antecipámos o modo como o início da presidência Trump iria ser.

Passos Coelho

O futuro político de Pedro Passos Coelho começará a vislumbrar-se mais claramente quando pudermos saber quantos candidatos autárquicos do seu partido querem o líder nos seus comícios.

Londres


O modo como a consciência europeia reagiu à tragédia de Londres poderá ter mostrado aos britânicos que, por muitas fronteiras que o Brexit um dia venha a criar, a solidariedade humanista atravessá-las-á sempre.

Dijsselbloem

Ficou bem evidente, no incidente que provocou, que Dijsselbloem não pensa nas coisas que diz, mas ficou também claro que o que disse foi o que realmente pensa.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Os arrebentas

Os blogues, algum jornalismo e a saloiíce lusitana dão-lhes pasto para afirmação. São os contestatários militantes do senso-comum, os abaladores radicais do pensamento "mainstream", os desmancha-prazeres de qualquer fumo de consenso. São os "arrebentas" mediáticos.

Quando, por um qualquer processo coletivo de sentimento partilhado, acaso se cria pela sociedade publicada uma linha de atitude comum, logo eles surgem, ao cair do post ou da colunazinha, no seu papel de observadores endemicamente heterodoxos, à cata da originalidade, sempre "do contra": "Ai toda a gente acha isso? Pois eu, não senhor!" Aconteceu agora com a reação àquilo que Dijsselbloem afirmou. Passadas umas horas sobre o zurzimento do tipo dos caracolinhos, lá vieram eles, rasteiros, a roer a corda.

Há quem ache graça ao estilo, quem se divirta com a originalidade, enfim, quem os leve a sério. O subdesenvolvimento também é isto.

terça-feira, 21 de março de 2017

McGuinness e os Fenianos


Ontem à noite, passeando com amigos brasileiros na Avenida dos Aliados, no Porto, apontei-lhes o edifício e contei-lhes a história do Clube dos Fenianos.

Nos primeiros anos do século XX, um grupo de portugueses trouxe do Brasil para o Porto o modelo de Carnaval que, por lá, um designado "Congresso dos Fenianos" há muito organizava, com grande popularidade. E por que é que se chamavam "fenianos"? Porque esse movimento associativo brasileiro fora, ele próprio, originalmente tributário de grupos de apoio aos católicos irlandeses, organizados nos Estados Unidos da América, na longa, violenta e trágica luta contra a dominação britânica na Irlanda do Norte. Por uma qualquer razão, a solidariedade com os "fenianos" havia sido entretanto transmitida dos EUA para o Brasil.

O nome "fenianos" havia nascido em meados do século XIX, designando quantos lutavam contra os britânicos. O principal partido político católico da Irlanda do Norte é, ainda hoje, o famoso Sinn Féin (que, durante muitos anos, foi o braço político do IRA). Entre o "Féin" e os "Fenianos" há assim uma curiosa correlação histórica, embora sem a menor conotação política.

(Uma dúvida me fica: como é que os britânicos, que preponderavam na sociedade portuense, terão encarado o surgimento local de um Clube dos Fenianos, com um nome tão marcadamente ligado à luta irlandesa, bem acesa nesse início do século XX?)

A vida traz-nos algumas coincidências.

Olhando as notícias, há minutos, vi que foi precisamente hoje a enterrar uma grande figura do Sinn Féin, Martin McGuinness, destacado elemento do movimento revolucionário católico irlandês. Com Gerry Adams, McGuinness constituiu a dupla de liderança mais visível do Sinn Féin. Por oposição ao estilo mais populista de Adams, McGuinness era um personagem "soft spoken", mas, eventualmente, por tudo quanto dele se sabe, até bastante mais radical. Tudo indica que McGuinness teve mesmo sangue nas suas mãos, nos tempos da sua militância no IRA.

As coisas dão muitas voltas. Foi em grande parte graças a McGuinness, e aos seus dotes negociais, que foi possível, a partir de 1998, caminhar para um processo de paz que parece estar para durar. Quando um dia vi McGuinness com Ian Paisley, o iracundo líder protestante, lado a lado e convivendo cordialmente no mesmo governo, convenci-me, pela primeira vez, de que, em política, não há mesmo impossíveis.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Rockfeller

A morte, hoje, do milionário David Rockfeller, aos 101 anos, trouxe-me à memória um episódio ocorrido numa viagem de Mário Soares a Nova Iorque, nos anos 70. Foi-me contado, não há muito tempo, por alguém que acompanhou Soares a um encontro com uma figura, já bastante idosa, também da família Rockfeller. 

Na altura, Mário Soares procurava concitar apoio a Portugal por parte de entidades do setor financeiro americano, tendo em atenção o prestígio que criara como figura de credenciais democráticas, no Portugal ainda algo convulso desses tempos. O Rockfeller milionário com quem então se encontrou é que, muito provavelmente, tinha um escasso conhecimento da História recente de Portugal, pelo que talvez não tivesse sido a pessoa mais adequada...

Nessa reunião, Mário Soares explanou as suas razões, devidamente traduzido para inglês por um colaborador. O seu interlocutor parecia um pouco "aloof", mas quem o acompanhava tomava as necessárias notas, pelo que a utilidade do encontro parecia assegurada. No final, o idoso Rockfeller disse umas palavras de circunstância e a reunião terminou. Quando ambos tinham acabado de se cumprimentar, o americano "deixou cair", em jeito de derradeira mensagem: "My best regards to doctor Salazar". 

Soares só ouviu a última palavra e perguntou, já na porta, para um dos integrantes da delegação: "Ele disse qualquer coisa, no fim, sobre Salazar. O que é que foi ?". "Não foi nada de importante...", retorquiu-lhe o colaborador.

domingo, 19 de março de 2017

Rentes de Carvalho

Desagrada-me ver uma pessoa por quem tenho grande respeito como escritor, José Rentes de Carvalho, assumir posições favoráveis à extrema-direita da Holanda onde vive. (Nada que me tenha espantado muito, confesso, tendo em atenção opiniões suas lidas na imprensa, nos últimos tempos). Mas isso nem por um segundo afeta o prazer que sempre me dá ler a sua obra. Há escritores reacionários geniais, da mesma forma que a literatura de alguns revolucionários roça a mediocridade. Só os sectários olham a qualidade através das lentes da ideologia.

sábado, 18 de março de 2017

Rui Afonso (1947-2017)

Uma tarde, antes do 25 de abril, na Boa Hora, o Rui Afonso foi a julgamento no Tribunal Plenário. Era a política, claro, porque a ditadura, mesmo já na decadência, não perdoava o dissídio. Creio tê-lo conhecido nesse dia, através de um dos seus maiores amigos. Ao longo dos anos, fui-o encontrando a espaços, em especial depois de Macau ter passado a ser o seu porto de ancoragem de vida. Para além de Lisboa, cruzámo-nos em Oslo, em Londres e, claro, lá em Macau, onde voltou a sentir-se tentado por alguma ação política, num registo agora mais sereno. Lembro-me muito bem de uma conversa que tivémos uma noite em Londres, num tempo pessoalmente menos fácil para ele, por razões que não vêm ao caso: falámos por bastante tempo do conceito de medida do sucesso individual, cruzando os perfis de vida muito diferentes que ambos tínhamos e leituras mútuas sobre algumas realidades. O Rui era uma figura imensamente cordial, tinha um tom de voz inesquecível, que acompanhava um eterno sorriso que, numa primeira leitura, podia parecer um pouco sarcástico, mas que, com o fluir da conversa, se percebia ser o de alguém que tinha sobre a vida um olhar divertido e positivo. Era, ao que sempre me disseram, um jurista de eleição e via-se que tinha um imenso prazer naquilo que fazia e que o realizava. O Rui saiu ontem da cena da vida, imediatamente após celebrar as badaladas das sete décadas. Sei que os seus últimos tempos foram bastante difíceis. Mas o que é isso comparado com a vida feliz e completa que teve, com uma bela família e muitos amigos? À distância, deixo aqui um beijo sentido à Cesaltina e a toda a família.

Isto é o da Joana?

Aconteceu-me há dias. Na Bertrand do Chiado. Perguntei se tinham um determinado livro e fui informado de que não. Através do sistema informático, tentaram saber se, por acaso, alguma das outras lojas do grupo teria um exemplar. Não tinham. Perguntei se podia encomendar. A resposta foi curiosa, depois de inquirirem: "Não podemos encomendar. Não trabalhamos com essa editora". Qual era a editora? Uma esconsa e desconhecida impressora de vão de escada, com meia dúzia de títulos num reduzido catálogo? Nada disso: era a Imprensa Nacional / Casa da Moeda.

Anda estranho o mundo das livrarias. Já sabemos que os grandes grupos - que são proprietários de várias editoras - "compram" as mesas mais visíveis das principais lojas, onde exigem que sejam colocados exclusivamente os seus livros. O mesmo vale para os escaparates. Também temos conhecimento que, em muitas casas, salvo com "cunhas" ou simpatia dos donos, muitas editoras, em especial as mais pequenas, têm grande dificuldade em manterem à vista, durante algum tempo, os seus livros. E isso é o caminho para o sufoco comercial.

Tenho um cartão Bertrand (como tenho um cartão FNAC e outro Almedina). Mas perante este comportamento sectário da Bertrand, à revelia da simpática abertura que, no passado, sempre foi apanágio da casa, e que, ainda por cima, nos obriga a adquirir sacos de plástico (o que seria a gentileza mínima para os clientes que pretende fidelizar através do cartão), estou a pensar seriamente sobre se não deixarei de passar definitivamente pelas suas lojas. Custa muito quebrar um hábito com mais de 50 anos, mas a Bertrand tem o dever de servir bem os seus clientes e facilitar a vida em especial a quem por lá compra muitos livros, como é o meu caso. É que, como ontem dizia o advogado de Sócrates (não sei se referindo-se à procuradora-geral), "isto não é o da Joana"...

sexta-feira, 17 de março de 2017

A cobardia democrática


O resultado das eleições legislativas na Holanda foi visto com alívio por quantos vivem preocupados com o ascenso de uma agenda extremista em alguns países. Somos quase os mesmos que, há meses, nos congratulámos com o facto de, nas eleições presidenciais austríacas, o candidato ligado à extrema-direita ter sido derrotado. Agora, nesta corrida de obstáculos contra o radicalismo, vamos “fazer figas” contra Marine Le Pen e, depois, estaremos muito atentos às eleições na Alemanha e na Itália. 

Há, contudo, qualquer coisa de ingénuo nesta atitude. O Brexit e Trump fizeram soar alguns alarmes, por terem reforçado a ideia de que há consideráveis setores, em algumas opiniões públicas, sensíveis a alguns estímulos primários, às vezes assentes em inverdades, que levam a derivas extremadas do eleitorado.

Mas que resultado prático tem este nosso alarmismo, perante uma realidade que inexoravelmente vai avançando? É verdade que os extremistas da Áustria e da Holanda foram travados, da mesma forma que parece evidente que Le Pen não vai conseguir entrar no Eliseu e que a extrema-direita alemã dificilmente terá uma expressão significativa no Bundestag. Mas até quando?

Há algo de que poucos falam e que, a meu ver, tem uma imensa gravidade: é que algumas das forças que se vão mantendo no poder, numa conjuntural e saudada não-vitória do extremismo, fizeram entretanto uma “evolução” ideológica, com vista a capturar eleitorado potencial à extrema-direita, que se traduziu na mimetização, quiçá em termos apenas mais democráticos e aceitáveis, de aspetos da agenda extremista. Olhe-se, em França, para o discurso do partido de Sarkozy ou para algumas posições da CSU, a ala bávara da CDU alemã de Angela Merkel, para se perceber que, aparentemente sob o mesmo rótulo partidário, estamos já a falar de formações ideologicamente mutantes, ainda que de forma subliminar.

O que fazer? Desde logo, assumir abertamente que o eleitor não tem sempre razão. O revoltado preconceituoso, que assume atitudes racistas, xenófobas ou religiosamente discriminatórias, bem como discursos de extremado nacionalismo e de intolerância cultural, deve ser ouvido, mas não tem razão e não deve ser “servido” por políticas que confortem essas repugnantes ideias. Se não assumirmos isto, estaremos a dizer adeus à ética da democracia. Os líderes politicos não existem para serem apenas meras correias de transmissão dos sentimentos do eleitorado, sejam eles quais forem. Só os populistas atuam assim. Quem se preocupa com o bem-estar das sociedades e com a paz social tem a obrigação de tentar reconduzir essa revolta, através de pedagogia cívica, para a adoção de políticas de razoabilidade e de bom senso. Tentar compreender as razões que levam ao extremismo não é a mesma coisa do que ser seguidista em relação a ele. A isso chama-se cobardia democrática.

Para a semana, falaremos mais sobre isto.   

quinta-feira, 16 de março de 2017

Zizanias

Desde o início, a liderança de Assunção Cristas, no seio do CDS, esteve longe de ser uma coisa pacífica. Isso pode não ser muito evidente para alguns observadores exteriores, mas os sinais que chegam do interior do partido indicam que a substituta de Paulo Portas está ainda muito longe de conseguir um pleno de aceitação. E que, para muitos, o seu lugar não está seguro, dependendo a sua sustentação futura de vários fatores. Quero com isto começar por notar que Cristas continua sob teste.


Alcandorado por alguns anos à partilha do poder, e dos lugares no aparelho de Estado (e não só) que esse mesmo poder sempre acarreta, o CDS digere ainda o afastamento por que passa, depois do "golpe" da "geringonça". Não tendo uma estrutura autárquica que lhe dê uma plataforma alternativa de exercício político em tempos de oposição (como têm o PSD e, mais residualmente, o PCP), o CDS foi entretanto criando hábitos de alimentação de um clientelismo de quadros que a atual travessia do deserto não favorece. E Assunção Cristas, embora não por culpa própria, é a cara desse momento difícil. A excitada vocalização histriónica, com alguma demagogia à mistura, de algumas das suas prestações parlamentares não a tem ajudado muito.


Uma nota pouco conhecida: dos dois partidos da oposição, o CDS é aquele que mantém uma relação mais eficaz, discreta mas operativa, com o presidente da República. Se se olhar para a Casa Civil de Belém talvez se perceba melhor isto.


O PSD liga muito pouco ao CDS, como já era muito evidente no tempo de Paulo Portas, que Passos Coelho tratou sempre "por cima da burra" e fez passar por muitas humilhações. Utiliza-o como muleta indispensável para um eventual regresso a S. Bento, mas irrita-se visivelmente com os seus arroubos de independência, alguns com laivos provocatórios.


A candidatura autónoma de Assunção Cristas a Lisboa foi uma bofetada que deixou marcas. A revelação ontem feita pela líder do CDS de que as temáticas financeiras ligadas à banca eram praticamente excluídas do debate em Conselho de Ministros ensinam-nos muito sobre o que foi o método do governo de coligação Troika-PSD-CDS. E mostram-nos bem o caráter subordinado do CDS.


Na entrevista dada ao "Público", Assunção Cristas foi, contudo, mais longe, ao deixar algumas "indiretas" a Paulo Portas. Ora tratando ela de uma pura criação do antigo líder, que não existiria sem ele, Cristas está muito longe de ter já criado uma legitimidade própria que lhe permita sustentar-se num qualquer registo de contraposição a Portas.


Cristas corre assim um imenso risco interno e a medida disso será, inevitavelmente, o resultado que vier obtiver na luta autárquica em Lisboa. É aí que jogará o seu futuro. Se as coisas correrem mal, a ambição de Nuno Melo tornar-se-á ainda mais evidente. Se conseguir salientar-se, por contraposição à expectável humilhação lisboeta do PSD, poderá ter uma sobrevida.


A história prova sempre que é sempre um caminho árduo para alguém confrontar-se com o espetro de um antecessor forte - neste caso cuja imagem, com os anos, se passou a confundir com a própria imagem do partido. Veremos se Assunção Cristas, que há que reconhecer que é um dos quadros mais valiosos que emergiram na direita nos últimos anos, vai conseguir, ou não, afirmar-se.

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Canto e as Armas


Uma noite, há quase duas décadas, eu e uma amiga, num grupo de gente bem mais nova do que nós, declamámos partes de poemas de Manuel Alegre. Os circunstantes olharam-nos com surpresa (não ouso dizer que com admiração) e, claro, perguntaram por que diabo sabíamos de cor essa poesia. Foi difícil (e continua a sê-lo) explicar a essas pessoas, nascidas a partir dos anos 60, que a poesia de Alegre, na sua fase mais afirmadamente neo-realista (nome que, ao tempo da ditadura de cá, se dava àquilo que lá fora era designado por "realismo socialista") era muito mais do que simples literatura. Era a expressão literária da revolta, era a trova da luta anti-fascista, era uma vocalização rimada que educou as gerações que vieram a fazer o 25 de abril. 

Durante muito tempo, para mim, Alegre foi apenas uma voz e uma escrita. A voz era aquela que nos chegava de Argel, nas ondas da "Rádio Voz da Liberdade", o discurso inflamado que apelava à insurreição, dirigido aos "amigos, companheiros e camaradas", ouvido à sucapa nas madrugadas. A escrita eram, muito simplesmente, dois livros: "A Praça da Canção" e "O Canto e as Armas". Era nessa poesia empolgante, adjetivada de vigor revolucionário, subversiva para o estado de coisas que se vivia no país, que então assentávamos, com ou sem música, a nossa esperança na chegada do dia em que por aí viria a liberdade. 

Um dia, esse dia, o país viu chegar Alegre e olhou pela primeira vez a sua cara, a que o tempo juntaria uma barba solene. Rapidamente ele se juntou ao PS (porém, a ideia de que Alegre é um "histórico" do PS é apenas um mito), depois de, já por cá, ter passado por uma mini-estrutura efémera chamada "Centros Populares 25 de abril". Argel e o complexo microcosmos de tentativa de coordenação da luta contra o Estado Novo que aí foi criado nos anos 60, ficara para trás. Para além da voz (que continua a ser a sua imagem de marca) e da escrita (onde definitivamente se consagrou), Alegre foi e é, essencialmente, um político. Frontal, polémico, esteve e deixou de estar com Soares, tentando por duas vezes um destino nacional que lhe não sorriu. Mas, para sempre, ficou como um dos rostos mais simbólicos da nossa democracia. 

Posso imaginar que Manuel Alegre, nos dias de hoje, olhe para os dois livros que acima referi, e de que ainda sou capaz de declamar alguns poemas, com um sentimento ambivalente. Por um lado, estou certo que os não renega, não apenas por serem as suas primeiras obras mas também pelo facto de terem sido aqueles que o fixaram no imaginário de algum país. Mas, igualmente, posso crer que pretenda, de certo modo, "ver-se livre" deles, porque, com toda a certeza, tem o sentimento de que muito daquilo que, a partir de então, publicou é, no plano literário, muito superior a essa histórica produção "de juventude". A vida, contudo, pode ser algo injusta: não conheço ninguém (a começar por mim) que conheça de cor algum dos seus belos poemas mais recentes. E, no entanto, alguns de nós conhecemos, muito bem, os mais antigos e talvez menos valiosos literariamente. 

Vem isto a propósito de "O Canto e as Armas", cuja edição faz agora meio século, dois anos depois de "A Praça da Canção". Vou reler o livro por esta noite dentro: lembrar-me-ei das poesias "icónicas" e "incontornáveis" - como irritantemente agora se diz - mas, essencialmente, ao lê-las, recordar-me-ei com certeza da impressão que elas me produziram quando as vi pela primeira vez. É que, nesse tempo, eu tinha todo o futuro do mundo à minha espera.

terça-feira, 14 de março de 2017

A conferência e o que eu acho


1. Um grupo de alunos pediu para organizar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL uma conferência com Jaime Nogueira Pinto. O tema era idêntico ao de muitas conferências e debates que hoje por aí se fazem.
2. O diretor autorizou o evento.
3. Um outro grupo de alunos, argumentando que o primeiro grupo estava ligado a uma estrutura de extrema-direita, convocou uma RGA que mandatou a direção da AE para falar com o diretor e pedir o cancelamento da sessão.
4. O diretor recusou revogar a autorização dada.
5. Vários estudantes anunciaram entretanto que boicotariam a conferência, invadindo-a e ameaçando lançar ovos e outros objetos durante o evento.
6. Perante a tensão instalada, o diretor propõe aos organizadores o adiamento da sessão.
7. Os organizadores contestam e pedem proteção policial (que o diretor recusa, atentas às práticas universitárias), oferecendo, em alternativa, o recurso a segurança privada (que, naturalmente, o diretor também recusou).
8. Atento o estado de tensão criado, que poderia trazer consequências para a segurança física da escola e das pessoas, o diretor decide não autorizar a realização da conferência na ocasião prevista.
9. O Conselho de Faculdade veio a considerar adequada e deu o seu apoio à essa decisão do diretor.
Estes são os factos para mim relevantes, na análise da situação. Ponto.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Em Lisboa, pare, escute e olhe o ruído


(Artigo que assino no nº 2 da revista "Bica")

Andava muito cansado e, enquanto esperava, na sala ao lado de uma oficina, que me arranjassem o carro, sentei-me numa cadeira e, por instantes, fechei os olhos. Foi então que o som, ao fundo, de uma chapa a ser batida, bem como impactos secos, provavelmente oriundos de um martelo de borracha no realinhamento de uma direção, despertaram em mim uma súbita onda de prazer auditivo. Não tinha o ritmado do mimimalismo de Philip Glass que um dia, em Londres, me embalara no Barbican (levando-me a sair no intervalo, por queixas de ressonar), mas havia por ali algo que evocava no meu ouvido (talvez mesmo em melhor) uma sessão de música concreta polaca, no S. Luís, a que só por vergonha, cerca de uma semana antes, resistira até ao fim. Terá sido nesse instante que, embora meio adormecido, acordei pela primeira vez para a fantástica identidade dos ruídos de Lisboa.

Os estímulos auditivos que não resultem de melopeias ou de sonoridades pré-cozinhadas são, de há muito, uma das mais inspiradoras fontes da minha reatividade. E Lisboa, com o alarido mediterrânico – que os nórdicos confundem, insensivelmente, com javardice e falta de respeito pelo sossego dos outros – é um raro oásis (longe ainda de Nápoles, claro) em matéria de impactos dessa natureza.

O som “oficial” de Lisboa é, como todos sabemos, o fado, mas, mesmo num registo turístico clássico, o chiar dos elétricos na descida do Ferragial ou a buzina dos cacilheiros sob neblina, bem poderiam equivaler-se-lhe nessa dignidade identitária de cartaz. Antes, no tempo do SNI e do Ferro, era também o gritar esganiçado das varinas, tão incensado na fadunchada primária, que integrava esse património decibélico. Mas as varinas foram-se com o tempo e com o Pingo Doce.

Verdade seja que os ruídos humanos lisboetas são reportados desde as calendas. Fernão Lopes registou-os na sonoridade literária da sua Crónica, a Rattazzi tomava-os à conta de falhas na educação e nos costumes (meros preconceitos!), Eça ouviu-os pelos bilhares do Montanha. Até o canto de Fausto, no “Europa, Querida Europa”, fala dessa “algazarra nas ruas”, com um “suave cheiro a sardinhas”. O chavascal é parte da nossa matriz e Lisboa é o palco orgulhoso dessa imensa peça de chinfrim.

Um amigo brasileiro, há dias, deixou-me sem palavras, num ambiente de infernal basqueiro e guinchos de máquinas, no longo concerto de barulheira operária concreta que o maestro Fernando Medina orquestrou, por meses, pela cidade, ao dizer-me: “Você sabe, Francisco, é adorável este vosso Chiado”. Como ele disse isso nas Avenidas Novas, em frente à Versailles, fiquei sem saber se havia de escrever Chiado com maiúscula ou não.

Mas tudo isto, meus amigos, será sempre apenas uma singela gota de água numa realidade com uma riqueza hoje quase inesgotável.

Todas as cidades, como sabemos, têm os seus sons próprios. Questão diferente é selecionar aquelas raras urbes às quais uma forte presença auditiva confere um estatuto identitário próprio.

À lembrança vem-me, de imediato, Nova Iorque, com aquela obsessiva e permanente confusão de sirenes de ambulâncias e carros de bombeiros, que alguém um dia chegou a pensar que eram pagos pelo serviço de turismo da cidade, para lhe sustentarem, no imaginário dos viajantes e cinéfilos, essa típica marca sonora. Mas Lisboa, passe a imodéstia, não fica nada atrás de Manhattan.

O meu interesse por este tema, embora por muito tempo de forma pouco consciente, vem já de muito longe. O ruído lisboeta é, em mim, um eterno fator mobilizador, que me induz a certas atitudes, embora algumas, se acaso fossem levadas até às últimas consequências, eu não possa garantir que evoluíssem sempre num registo de serena urbanidade. É que me recordo, por exemplo, de, quando vivia perto do Campo Pequeno, em noites de fim-de-semana, ter sido o roncar dos escapes dos motards que, por exemplo, suscitou em mim uma inesperada vocação cinegética. Só não comprei a caçadeira por falta de espaço lá em casa para a guarder.

Nos dias de hoje, na rua da Lapa onde vivo, a desportiva tendência dos carros para aí testarem os limites urbanos de velocidade, traz-me, por vezes, o impulso de complementar a minha reforma com uma atividade de bricolage, onde o uso de pregos e taxas é, como é sabido, imperativo.

E, não raramente, a saborosa diversidade dos claxons, saídos dos SUV a fingir que por aí abundam, guiados por graves metrossexuais de barba, travados no caminho para as start-ups, desperta em mim, nesse tráfico congestionado (e Lisboa tem evoluído para grandes confusões de trânsito, garantindo-se assim já ao nível das grandes cidades) saborosas memórias da sétima arte: mais precisamente uma nostalgia pelos gadgets que Q colocava no Aston Martin de James Bond, capazes de disparar rajadas em várias direções.

Mas aprendi que o ruído lisboeta, paradoxalmente, também convida à reflexão. Recordo-me de jantares em casa de um amigo que vivia no topo de um prédio sobre o qual passavam, na aproximação à aterragem, os aviões. Havia pausas de largos segundos nesses momentos de convívio, tipo “un ange qui passe”, que permitiam instantes valiosos de meditação ou, em alternativa, de concentração em mais umas boas garfadas.

É, contudo, o ruído humano lisboeta, em todo o esplendor da sua criatividade, que estimula em mim os mais inesperados sentimentos, mesmo que, por vezes, ele tenda a atenuar os efeitos dos hipertensores que tomo.

Quase sem igual no mundo, são os berros das adoráveis criancinhas nos restaurantes onde escolhemos ir ter uma conversa serena. Lisboa tem, nesse domínio, uma magnífica cultura liberal – e ainda há quem se queixe de sermos uma sociedade iliberal! – permitindo, desde a tenra idade, a vocalização do protesto ou da alegria. É uma espécie de aplicação do 25 de abril às creches, socializando a criança ao usufruto do seu inalienável direito à indignação, ou à berraria em voz bem alta. Mas, entre nós, o que é mais notável é que os pais cuidam em não guardar essa expressão sonora dos rebentos para o recato egoísta da família, antes a partilham, com imensa generosidade, com a vizinhança, que assim pode apreciar a encantadora espontaneidade infantil. O facto de alguns circunstantes se sentirem tentados (e cito o que, infelizmente, já ouvi) a “dar um par de bofardos no puto”, também deve ser levado à conta do inestimável efeito de impulso interventivo, que é desejável poder suscitar em nosso redor. A sociedade ou é interativa ou ficamos todos silenciosos de olhos nos iPads e iPhones. Não é disso de que todos se queixam?

A contemporaneidade, contudo, tem também sabido trazer, neste domínio, uma generosa oferta sonora, mais high-tech. O telemóvel é hoje um imprescindível instrumento da nossa transparência urbana.

O lisboeta típico, como os estrangeiros extasiados se fartam de constatar, dá-nos regularmente o gosto de partilhar connosco, em lugares públicos, diálogos da sua vida pessoal, como informações muito francas, por exemplo, sobre os seus padecimentos de saúde ou as crises existenciais dos conhecidos.


Experimente o leitor ir ler para um lugar desses e, ao final de uns minutos, concluirá que lhe são oferecidas pausas divertidas que, tirando-lhe embora o fio à meada daquilo em que estava concentrado, o fará entrar num mundo novo de revelações alheias – excelentes para quem gosta de exercitar sociologia de pacotilha no Facebook.

Outros ainda capricham, nos cruzamentos ou nas filas de trânsito, em nos fazer ouvir os ritmos “metal” que saem do altifalantes dos seus carros, num volume tão elevado que, às vezes, os incapacita de tomar nota de alguns alguns adjetivos qualificativos com que, muitas vezes sem uma explícita simpatia no nosso rosto, lhes retorquimos essa não solicitada partilha.

Mas os estrangeiros visitantes, ao que me chega, já também cuidam, eles próprios, e cada vez mais, de participar no alimentar do património de sonoridades atípicas. Ao que parece, pelas noites animadas dos hostels, ou em partilhas de Airbnb, surgem cada vez mais interações sonoras entre andares, as quais, com o tempo, acabarão pela certa nas páginas do crime do Correio da Manhã ou nos apanhados noticiosos das urgências dos hospitais.

Esta "Bica", que nasceu com uma explícita vocação de servir de guia a uma nova leitura de Lisboa, rompendo com estereótipos e tentando descortinar espaços inéditos de interesse para visitantes em busca de novos nichos de curiosidade, tem aqui um papel indispensável. Dar a conhecer a riqueza dos ruídos da cidade, chamar a atenção para essa Lisboa dos sons pretensamente não harmónicos, indicar mesmo oportunidades de criatividade ativa nessa área para quem nos visita, é levar à prática um imenso dever cívico.

Não deixemos silenciar esse inestimável património decibélico (por onde anda a Unesco, que não viu ainda as virtualidades disto?) que é o ruído urbano lisboeta. Não façamos orelhas moucas à necessidade de cultivar essa riqueza e, acima de tudo. Não calemos a nossa voz perante a óbvia conspiração que se está a fazer contra o chavascal popular, contra a (tão típica) conversa aos berros em voz alta pela rua, contra a espontaneidade das mães chamando crianças à distância, nos lugares públicos e outras amenidades correlativas. Cuidemos do que é nosso, povo de Lisboa!

Há alguma coisa melhor que isto? Pode haver, mas por cá ainda não se sabe.

domingo, 12 de março de 2017

Os "nègres"


Os franceses chamam-lhe "nègres", os ingleses "ghostwriters". São aqueles que escrevem textos que, no final, serão assinados por outros. Ás vezes são livros, outras vezes são discursos.

Ontem, comprei uma biografia sobre um político português em que o autor diz de si próprio que é "crítico literário e ghostwriter". Acabo agora de ler, num semanário também ontem publicado, alguém que se identifica como membro do "European Speechwriters Network". Nunca tinha visto tanta "transparência" neste assunto...

Na minha vida, escrevi dezenas de discursos - e artigos de jornal - que foram lidos e subscritos por outras pessoas. São coisas que acontecem com naturalidadade na vida pública. Embora eu goste de escrever tudo o que leio em público ou assino, também já me aconteceu ter de ler (embora muito poucos) textos de que não fui autor, ao tempo em que estive no governo.

Há, neste domínio, um episódio curioso que até hoje nunca contei. Alguém me tinha pedido para preparar um prefácio para a tradução portuguesa de um determinado livro (cujo autor, curiosamente, li que virá proximamente a Lisboa, para uma conferência). O texto, bastante longo (seis densas páginas, em letra miúda), era para ser assinado por essa pessoa, como viria a acontecer. (Que fique claro que eu não ganhava nada com esse trabalho). Passaram alguns anos e as minhas relações com essa pessoa alteraram-se profundamente. Um dia, num debate público (lembra-se, Luís Tibério?) em que eu intervinha ao lado da figura que assinara o texto, essa pessoa defendeu uma tese, sobre um determinado assunto, em absoluto oposta à orientação seguida naquele prefácio (que, repito, eu escrevera e ele assinara). Fui então, confesso, "mauzinho". Disse-lhe que estranhava muito que tivesse "mudado de opinião", porquanto me lembrava de que, num prefácio "da sua autoria" a um determinado livro - "um texto com que eu concordava em absoluto, que até podia subscrever..." - ele defendera precisamente uma tese oposta. A pessoa em causa não gostou nada da minha "graça", mas foi obrigada a calar-se...

"Pago um almoço!"


Conheço restaurantes onde a lista é muito mais variada, que têm uma carta de vinhos bem mais rica. Sei de locais muito mais confortáveis, com salas mais acolhedoras, com um ambiente sofisticado que não se lhe compara. É claro que há sítios em que é mais fácil estacionar. Há mesmo locais onde a relação qualidade/preço quase pede meças à "Imperial de Campo de Ourique".

Reconheço tudo isso. Uma única coisa é inexcedível na "Imperial de Campo de Ourique": se houvesse "estrelas" do Michelin para a simpatia, se acaso existisse um "Óscar" para o dono mais atento aos clientes, um "Grammy" da afabilidade, o meu amigo João Gomes era, a grande distância, o vencedor antecipado e indiscutível.

Pago um almoço (mas pago mesmo!) a quem me descobrir um dono de restaurante com uma amabilidade e um trato para com os clientes superior ao do meu amigo João!

A "Imperial" fica no 67 da Correia Teles. Serve almoços - eu marco sempre pelo 213 886 096 - e também jantares, neste caso por reserva antecipada ou para quem por ali surgir não mais tarde do que as oito e meia. E fecha ao domingo. Com a dona Adelaide na cozinha e o filho Nuno também na sala, o João Gomes forma a "troika" do bem que transforma aquele espaço num "espetáculo!". Ah! E, se por lá reservar nos próximos dias, ainda vai encontrar lampreia, porque as raízes da família Gomes andam por barquenses terras minhotas.

O querer e o poder


Devemos ter forte respeito por quantos hoje têm a responsabilidade de conduzir e intervir na política europeia de Portugal, seja a nível governativo, seja no plano parlamentar. Não apenas porque este é um Portugal diferente  – saído de um periodo de grande fragilidade económico-financeira, que deixou fortes sequelas – mas, principalmente, porque o nosso país tem perante si uma Europa com uma inédita complexidade, atravessada por uma crise que afeta o seu projeto, sujeita a linhas de clivagem nunca antes vistas.

Há a sensação de que aquilo que consagrou o sucesso de seis décadas de integração pode, pela possível conjugação de circunstâncias não há muito tidas por implausíveis, colapsar ou ter uma deriva, de recentragem ou partição, que definitivamente o descaraterize. Daí a extrema delicadeza, quase única, deste momento, para o qual se exige visão, coragem e sentido de Estado, por parte de quantos, entre nós, acreditam, não apenas na Europa mas, muito particularmente, na importância de Portugal dever continuar a apostar na inserção europeia como o eixo mais seguro para a objetivação dos interesses do país no quadro global.

Dir-se-á que muito do que ocorreu com Portugal, na Europa do passado, já não dependeu, no essencial, da nossa vontade. A título de exemplo, lembraria que fomos obrigados, por razões ditadas por imperativos insuperáveis, a sofrer processos como o progressivo desmantelamento de proteção comercial, mobilizado pela pressão da globalização, ou a avalanche dos alargamentos, por determinantes políticas que não era possível controlar. Ambos os movimentos tiveram impactos sérios para a nossa economia, mas foi possível, nessa tal Europa de outros tempos, negociar fórmulas compensatórias que permitiram algum amortecimento dos efeitos dessas irrecusáveis decisões.

Essa Europa, contudo, acabou. A solidariedade e a preeminência das políticas estruturais e de coesão, voltadas para a Europa mais pobre, começam a diluir-se no horizonte e as consequências orçamentais, ditadas pelo Brexit, agravá-las-ão ainda mais. Quero com isto dizer que, vindo a repetir-se, num contexto muito diverso, uma possível evolução desfavorável de algumas outras políticas, cujos novos termos de referência Portugal continue a ter dificuldade em controlar, do nosso horizonte desapareceram já os importantes mecanismos compensatórios do passado. É muito mais dificil defender os interesses próprios de Portugal na Europa de hoje, e temos de estar preparados para ter de assumir as consequências disto. As prioridades europeias são outras e, por essa razão, a definição de uma rigorosa política de alianças é hoje de uma importância vital.

É neste contexto que surge, com uma força impositiva que a recente reunião dos “powers that be” da Europa parece ter tornado incontornável, a questão das “cooperações reforçadas” (a também chamada flexibilidade ou integração diferenciada) ou das “cooperações estruturadas” na área militar. Este está longe de ser um tema novo e a diplomacia portuguesa conhece-o como poucas – porque Portugal, desde há muito, o trabalhou com afinco, controlando com imenso cuidado a sua inserção institucional nos tratados. Mas isso é apenas o passado e nada nos garante que novos e mais complexos modelos não possam por aí surgir.

As declarações oficiais portuguesas foram, a este respeito, de grande prudência. Com a autoridade que temos pelo facto de ter estado, desde sempre, nos processos mais inclusivos da Europa (de Schengen ao euro, antes no Protocolo social e, depois, nas questões de Justiça e Assuntos Internos), afirmámo-nos já dispostos a encarar o alargamento do âmbito dos modelos possíveis, desde que eles venham a manter-se sempre potencialmente abertos a todos. E, claro, afirmámos o nosso desejo de continuar a integrar o que aí vier a criar-se, em termos de reforço de algumas políticas.

O título deste artigo não é, porém, casual. É que até agora, com exceção do euro (que obedeceu a critérios próprios), foi apenas a vontade política nacional que sobredeterminou o nosso integracionismo “à outrance”, pelo interesse assumido em evitar que Portugal, ao não estar presente nessas instâncias, viesse a pagar custos de periferização. Por essa razão, a grande preocupação que, a meu ver, o nosso país deverá agora ter, nos debates que se seguirão, é procurar evitar que quaisquer novos mecanismos de reforço integrador venham a derivar de condicionalidades de natureza económico-financeira, com impactos orçamentais, perante os quais a vontade política não seja suficiente. Esse, a meu ver, é o grande risco que Portugal tem no seu horizonte europeu imediato.

sexta-feira, 10 de março de 2017

O europeu derrotado


O governo polaco, descontente com Donald Tusk, seu opositor político interno, decidiu uma candidatura própria para a presidência do Conselho Europeu e, para tal, foi descortinar no Parlamento Europeu uma personalidade tida pela imprensa como "quase desconhecida", apontando-a como o seu candidato a esse posto. Essa tentativa saiu, em absoluto, frustrada e o nome avançado por Varsóvia foi clamorosamente derrotado, com a reafirmação da confiança em Tusk por parte dos outros 27 Estados.

Quem era a figura escolhida pelos governantes polacos? Um deputado de seu nome Jasek Saryusz Wolski, membro da direita local, o qual, por essa ousadia que se sabia politicamente suicida, se viu afastado da vice-presidência do Partido Popular Europeu.

E por que é que trago o assunto para aqui agora? Porque Saryusz Wolski é, há mais de duas décadas, um bom amigo pessoal. Com ele troco, nomeadamente no Twitter, mensagens que expressam as nossas profundas mas sempre cordiais divergências, sobre a política europeia, a questão ucraniana ou as relações com Moscovo. 

Jacek foi, por algum tempo, meu contraparte polaco, como secretário de Estado dos Assuntos Europeus e nunca mais esqueceu uns filetes de pescada que um dia o levei a comer à "Primavera", bem como uma noitada no "Procópio", onde se queixou por então só por lá haver vodka "Moskovskaya"... É que, para ele, tudo o que for russo é tabu!

Um abraço para ti, Jacek!

"Insuspeito"

Nos últimos dias, com aquilo que por aqui disse sobre a intocabilidade temporal do lugar do governador do Banco de Portugal e sobre o erro que seria mexer no Conselho de Finanças Públicas nesta conjuntura, fui incensado pelos meios conservadores ou mesmo de direita pura e dura. O online de um semanário colocou-me a "atacar o PS", escondendo que eu tinha precisamente elogiado a atitude oficial do partido e do seu líder sobre os dois temas, apenas tendo procurado alertar os socialistas para o inconveniente de eventualmente irem contra essa linha, utilizando metaforicamente a figura de que o PREC, com o seu histórico ataque às instituições, tinha já acabado há muito.

Logo de seguida, ao ter-me indignado com o boicote à palestra de Jaime Nogueira Pinto, passei logo a ser citado como "insuspeito" pela direita - que é aquilo que se costuma chamar aos "do outro lado" quando o que dizem nos dá pontualmente "jeito". Porque escrevi que o boicote que tinha conduzido à suspensão da sessão tinha tido origem numa estrutura da extrema-esquerda, isso foi sublinhado com ênfase e júbilo pelo lado contrário.

Ontem, ao mostrar desagrado com a crispação na Assembleia da República, sem explicitamente crucificar o líder da oposição, fui logo criticado, em algumas redes sociais. Desta vez foram alguns comentaristas de esquerda que acharam que eu estava a "meter tudo no mesmo saco", reclamando pelo facto de não me ter pronunciado sobre o fundo da questão (e os "culpados"), mas apenas sobre o "ruído" público do espetáculo parlamentar.

Há uns tempos, se bem se lembram, quando Manuela Ferreira Leite, Bagão Felix ou Pacheco Pereira criticavam o governo de Passos Coelho, essas figuras surgiam, para a esquerda, como uma espécie de "novos camaradas". Eram gente que "dava jeito". Não eram "dos nossos", mas, como surgiam a criticar quem nós criticávamos, isso era logo visto como positivo. Longe de mim colocar-me ao nível desses senadores, mas chamo-os à colação porque foram casos simétricos.

Agora, nestes últimos dias, à direita dizem que sou "insuspeito" porque, aos olhares desatentos de alguns (para quem, em política, "o que parece é"), parece que surjo reticente face ao setor de onde sou oriundo. Mas, estejam descansados! Bastará que eu elogie a "geringonça" ou zurza a bancada parlamentar da direita para logo vir ser crismado com todos os qualificativos desqualificantes, nos blogues e outros meios desse setor. Logo passarei a "suspeito", num instante... Lembro-me do que ouvi quando publiquei um texto chamado "Não lhes perdoo!".

Alguns amigos dirão: "Mas por que é que te pões a jeito? Assim, eles utilizam-te!". Talvez, mas a liberdade de dizer o que penso é, para mim, um valor bem mais importante do que o risco de vir a ser utilizado por aqueles com quem não concordo.