quarta-feira, 5 de abril de 2017

Força de fogo


"Força de fogo, senhor arcebispo!" terá sido a frase entusiasmada que, há umas décadas, durante as Festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, um popular vianense atirou à passagem do Arcebispo Primaz de Braga, lembrando todo o seu orgulho pelo esplendor da oferta pirotécnica que sempre é apresentada, na ocasião, por aquela que é a maior romaria do país. Até hoje, não se sabe se o então Arcebispo entendeu a tirada...

O meu pai contava, divertido, que ouviu o homem lançar aquela frase, de um modo um tanto provocatório, à veneranda figura religiosa, num tom fonético muito "à Viana", pretendendo sublinhar a notória diferença de qualidade entre a oferta pirotécnica das festividades das duas cidades - um dito que encerra todo o sentido competitivo que Viana sempre cuida em manter com a urbe vizinha.

(Esqueci-me de contar esta história ao atual Arcebispo Primaz de Braga, Dom Jorge Ortiga, quando, há semanas, me convidou, com grande simpatia, para um interessante debate público que o Arcebispado organizou).

A expressão "força de", que pelo Minho quer dizer "muito", usa-se um pouco para tudo: "está ali força de gente", "lá em casa há força de livros", "o homem tem força de dinheiro", etc.

Ontem, num outro sentido, o fogo mostrou a sua força. Tal como, com trágica regularidade, ocorre um pouco por todo o mundo na pirotecnia, há por vezes naquela indústria desastres, quase sempre com perdas humanas, que, tristemente, devastam instalações onde se pratica essa nobre arte de construção de deliciosos efeitos fátuos e rapidamente perecíveis. Ontem foi a vez de Lamego.

De quando em quando, essas tragédias voltam a ocorrer, quase sempre no aproximar do Verão e das festividades populares que se aproximam. Quem, lá por Vila Real, não ouviu falar dos "acidentes do Ramalheda" ou, no Minho, de idênticos desastres envolvendo os célebres Silvas ou os Castros, produtores consagrados de deslumbres óticos noturnos ou, num registo que não faz nada o meu gosto, de "salvas de morteiros" que nos arruinam o sono da manhã?

A "força", neste caso "humana", foi também o tema de um debate em que ontem à noite participei, na Casa-Museu da Fundação Medeiros e Almeida (já visitaram essa magnífica coleção, a dois passos da Barata Salgueiro?), com António Correia de Campos e Filipe de Sousa Magalhães.

Uma discussão aberta, moderada pelo entusiasmo congregador da Fátima Pinheiro, em que se falou um pouco de tudo, da força das pessoas à força relativa dos países, dos excessos da força às fraquezas feitas forças, da força e do poder, da energia e da astúcia que às vezes passam ou se transformam em força. Até de Sansão e Dalila se falou, sob o patrocínio de uma bela estátua do primeiro, que domina a sala.

Na ocasião, sem combinarmos, fui o pessimista de serviço, com o António no papel do otimista que sempre é e o Filipe, um jovem empresário de uma "startup", na função surpreendente de um realista num mundo onde as coisas, muitas vezes, só lá vão à força.

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