quarta-feira, 31 de maio de 2017

Pesca à linha

Diverte-me imenso o oportunismo de certa esquerda, alguma que tem tanto de crente como eu tenho de maçon, que passa agora o tempo a "pescar" frases do papa Francisco, que, de quando em quando, lhe "dão jeito", como se ele fosse uma espécie de guru esquerdalho. 

Verdade seja que fazem exatamente a mesma figura que alguma direita fazia quando cavalgava, com simétrico oportunismo, o hiper-conservadorismo (ia escrever reacionarismo, mas opto por deixar entre parêntesis) desse Ronald Reagan religioso que se chamou João Paulo II.

Esta adaptabilidade multi-usos dos chefes da igreja católica ajudará a explicar a sua sobrevivência? 

Posso imaginar que me venham dizer que isto é "areia demasiada" para quem é ateu.

terça-feira, 30 de maio de 2017

A vontade de Merkel

Não pode deixar de saudar-se a vontade manifestada por Ângela Merkel de dar corpo a uma maior expressão autónoma europeia em matéria de segurança e defesa.

A perspetiva do Brexit, somada às "lessons learned" dos seus traumáticos encontros com Trump, tê-la-ão convertido a uma doutrina em que, no passado, o empenhamento alemão foi sempre muito discutível e, em especial, demasiado limitado na prática para a importância do país.

Vamos agora esperar para ver se, àquelas palavras, vão corresponder atos concretos. 

Desde logo, o urgente reequipamento das forças armadas alemãs, das quais há sinais preocupantes em matéria de estado de prontidão.

Mas, essencialmente, interessará testar este voluntarismo retórico nas futuras ações de estabilização político-militar, tuteladas por mandatos internacionais, em que a Berlim for pedida uma contribuição à altura da importância dos outros interesses que a Europa projeta em seu nome.

Esperemos que Angela Merkel não venha a revelar-se como aquele capelão militar do RI 13, lá de Vila Real, que, um dia, à partida de tropas para a guerra colonial em África, teve esta "infamouse" tirada: "Rapazes! Preparemo-nos para a guerra! Ide!"

Nuno


O Nuno Brederode Santos partiu há um mês. Ontem, com a Céu, alguns daqueles que ele classificaria como "o ventre mole do núcleo duro" dos seus amigos lembrámo-lo, da forma e no local em que achámos que ele gostaria de ser lembrado. Deixo esta sua bela fotografia e as palavras de Lincoln: "It has been my experience that folks who have no vices have very few virtues".

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Notícias raianas


António Costa e Mariano Rajoy encontram-se hoje, em Vila Real, numa cimeira entre governantes de Portugal e de Espanha. Não qualifico de "ibérico" este encontro peninsular por (boas) razões que quatro décadas de Necessidades me ajudaram a cultivar (e que não são para aqui chamadas).

(O encontro tem lugar na minha terra, em Vila Real, uma cidade pouco dada às luzes da ribalta mas que uma gestão camarária recente muito inteligente tem vindo a recolocar no mapa.)

Há uma semana, também em Vila Real, os presidentes dos parlamentos dos dois países, acompanhados de deputados de todos os principais partidos, debateram já alguns temas de interesse comum. Tive o gosto de ser convidado para fazer, na abertura desse encontro, uma intervenção em que elenquei os grandes desafios europeus que os dois países devem enfrentrar na Europa que aí vem.

Notei, nessa ocasião, que as "sintonias" político-partidárias entre Lisboa e Madrid raramente foram o terreno necessário para um entendimento frutuoso. Cavaco Silva e Felipe Gonzalez ou António Guterres e José Maria Aznar foram a prova provada disso, com o contraponto do "tandem" menos bem sucedido entre José Maria Zapatero e José Sócrates. Esperemos que Costa e Rajoy confirmem a "regra".

O grande tema da Cimeira de hoje é a cooperação transfronteiriça. Há mais de 40 anos (acho que já referi isto por aqui, pelo que peço perdão por eventual repetição), dois jornalistas espanhóis escreveram um livro (não sei se editado por cá) intitulado "La  Raya de Portugal, la frontera del subdesarollo", que evidenciava que a pobreza e o subdesenvolvimento rimavam com a proximidade a Portugal. Anos antes, um grande jornalista português, Manuel da Silva Costa, escrevia o "Portugal país macrocéfalo", um retrato trágico de como então (e não havia o Pordata) o país era Lisboa e "o resto" era "paisagem".

As coisas mudaram muito. Em Espanha, seguramente para melhor, com um excelente "aménagement du territoire" (expressão francesa para a qual "ordenamento" me não satisfaz), que não atenuou pr completo algumas debilidades. Por cá, embora com variantes de acordo com a região, o despovoamento, a desertificação e a pobreza "qualitativa" acabam por marcar a esmagadora realidade da nossa zona raiana.

Por essa razão, ter a cooperação transfronteiriça no topo da agenda da cimeira é um ato de inteligência e bom-senso. E tentar encontrar maneira de ancorar essas zonas a apoios europeus é excelente.

Queria apenas fazer um alerta, a propósito de uma realidade que, no entanto, e no essencial, não se alterou nas últimas décadas. As realidades institucionais que, de ambos os lados da fronteira, enquadram os modelos transfronteiriços são muito assimétricas: de um lado estão Autonomias, democraticamente fortes, com estruturas poderosas e testadas. Do lado de cá, à falta de regionalização (e pouco importa aqui se ela seria desejável ou não), temos apenas CCDR e municípios, associados ou não. 

Torna-se assim muito importante para Portugal garantir que essa assimetria se não converte num fator de fragilização da posição das entidades nacionais, quando chegar a hora da gestão da soluções comuns e do desenho e colocação no terreno dos mecanismos para dar expressão prática à cooperação transfronteiriça. É essencial que o peso específico de um dos lados não prevaleça sobre o outro em moldes que possam configurar uma qualquer hierarquia de interesses. E mais não digo, porque as entidades a quem esta mensagem se destina sabem bem do que estou a falar.

A Lusofonia e os interesses externos de Portugal


O embaixador António Monteiro, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, é seguramente uma das figuras diplomáticas portuguesas que melhor conhece África.
Nascido ele próprio em Angola, teve como um dos seus primeiros postos profissionais Kinshasa. Mais tarde, noutras funções, viajou amplamente pelo continente, vindo a ser figura central na negociação dos Acordos de Bicesse. Chefiou depois, em Luanda, a Comissão Conjunta Político-Militar para a implementação do acordo. Como Diretor-geral Político-Económico do MNE, deve-se-lhe o "desenho" da CPLP, que ajudou a construir. Embaixador na ONU e em Paris (curiosamente, vim a suceder-lhe em ambos os postos), continua hoje a seguir com atenção o mundo da lusofonia, a que está ligado em termos profissionais.
É uma reflexão aberta sobre os interesses que compete a Portugal defender nesse âmbito que António Monteiro irá fazer, a meu convite, em mais uma sessão das conferências sobre "Os interesses de Portugal no mundo", semanalmente organizadas pela Universidade Autónoma de Lisboa, numa parceria com o jornal "Público".
A conferência do embaixador António Monteiro terá lugar na 3ª feira, dia 30 de maio, pelas 18.00 horas, na Universidade Autónoma de Lisboa, Rua de Santa Marta, nº 56, em Lisboa.
A entrada é livre, até ao limite de disponibilidade da sala.

domingo, 28 de maio de 2017

Miguel Urbano Rodrigues


Ouvi falar dele, creio que pela primeira vez, ao meu primo, Carlos Eurico da Costa. Ambos tinham trabalhado nessa efémera experiência que foi o "Diário Ilustrado".

Miguel Urbano Rodrigues cedo se exilou no Brasil, deixando muito bom nome como jornalista no Estadão, onde chegou a editorialista. Escrevia muito bem, textos cultos, onde espelhava uma vida com muitas experiências e ricos encontros. Tudo isso, contudo, era limitado por uma cegueira (outros terão um vocábulo mais amável) política que lhe coartava a evidente genialidade da pena. 

Militante do PCP, viria, já bem depois do 25 de abril, a dirigir "O Diário", uma espécie de MDP-CDE impresso (só alguns entenderão o paralelo), uma publicação que (passe a blague) era a verdade a que os comunistas tinham direito. 

"O Diário" foi um jornal curioso: reunia um conjunto de excelentes profissionais (entre outros), mas produzia um jornalismo que, na sua globalidade, tinha uma qualidade que deixava muito a desejar. Contudo, à distância, creio ser justo dizer que foi melhor do que a imagem que dele guardou a história do nosso jornalismo.

Com Franco Nogueira, Miguel Urbano Rodrigues fez depois por vezes um dueto caricatural esquerda-direita, uma fórmula que um espertalhote qualquer inventou na RTP. A esmagadora maioria da esquerda não se revia naturalmente no sectarismo semanalmente afirmado por Miguel Urbano Rodrigues e a direita, então comodamente instalada no poder cavaquista, fingia quase "ser de centro", em face do tremendismo estado-novista tardio de Franco Nogueira. A perfídia, em "jornalismo", tem destas coisas. 

Miguel Urbano Rodrigues andou depois pelo mundo, creio que viveu em Cuba e no Brasil. Nunca o encontrei, nunca falei com ele. Mas li muito do que escreveu. Prejetava a imagem de alguém que havia perdido (e era inconsolavelmente saudoso de) um mundo político em que sinceramente acreditou - o que é muito respeitável, mas apenas quando isso é inócuo para a liberdade dos outros. No que me toca, nesta que é a hora da sua morte, e tendo em comum com ele uma rejeição de um certo passado, sinto-me suficientemente à vontade para afirmar que há muito que não tínhamos os mesmos amanhãs como objetivo - se é que alguma vez isso verdadeiramente aconteceu.

Dias ranhosos


A expressão pode ser lida num registo sem excessiva elegância, mas "dias ranhosos" era um dito que me recordo ouvir, na minha infância, para qualificar manhãs que "abriam mal", com o teto pesado, ameaça de chuva ("céu sachado, chão molhado", se visto na véspera), às vezes com um ventinho húmido e desagradável a acompanhar. 

Depois, por entre as nuvens, alguns dias "compõem-se", mas um início de dia "ranhoso" (que raio de nome, pensando bem!) é algo que me indispõe e torna logo irritadiço. Verdade seja que as manhãs nunca foram a parte favorita do meu dia, com ou sem sol. Mas houve quem tivesse artes, como ninguém, para me ajudar a atravessar essas horas em geral tormentosas.

Tive uma secretária com a notabilíssima qualidade de saber "ler" o meu estado de espírito, nesse tempo penoso até ao almoço. Logo de manhã, pelo modo como eu vocalizava o "bom dia", à chegada ao escritório, pelo grau de "simpatia" com que recebia o café matinal que ela me trazia, para logo mergulhar nos jornais e nas papeladas do tabuleiro das "entradas", ela fazia algo que só uma excecional profissional (também da psicologia?) conseguia fazer: uma inteligente triagem das chamadas telefónicas, em função do meu estado de espírito, bem como das pessoas, da minha "entourage", que eu me apeteceria receber.

Eu explico. 

Se acaso sentia que eu vinha demasiado "contra o vento", ela cuidava em não me passar telefonemas de pessoas que sabia que só me iam irritar, daqueles que só ligam para pedir coisas ou para trazer problemas, de alguns a quem, em ocasiões anteriores, eu tinha atendido chamadas com um prévio comentário ou interjeição (num desabafo para ela) que sentira como negativo. E o acesso a mim ou ao meu gabinete era também "filtrado", vedado meticulosamente a quantos ou quantas ela pressentisse que só me iam trazer chatices. "O doutor está ocupado" ou "pediu para não ser interrompido" ou coisa assim - eram algumas das fórmulas utilizadas. Na esmagadora maioria dos casos, eu não lhe tinha sequer chegado a dizer nada... E quase sempre acertava! 

Porém, se ela pressentisse que quem me ligava ou surgia por ali, mesmo sem hora marcada, era gente com quem eu iria ter prazer em falar, com quem, em geral, me divertia, que me ligava desinteressadamente ou queria dizer apenas um "olá" para saber como eu andava, o acesso era logo facilitado. Cheguei a ter eco de muitas "ciumeiras", e ela pagou algum preço por isso.

Que saudades eu tenho dessa amiga, agora a viver a vida na profundidade dos "States", que entendia como ninguém a maneira de contornar as minhas manhãs "de candeias às avessas", de "blues" (como por lá se diz), que, como ninguém, era capaz de ir gerindo o início de alguns "dias ranhosos", dando-me tempo para recuperar o bom humor de que, em geral, me alimento.


Olho agora lá para fora e vejo que o dia, afinal, está a ficar menos "ranhoso". Aproveitemo-lo.

sábado, 27 de maio de 2017

A Taça, o Nuno, o chá, o Browns, os "Gunners" e a vingança de Wenger


Acabo de ver na televisão a minha equipa londrina, o Arsenal, vencer a "Cup final", num jogo emocionante até ao fim. (Tenho estas defesas internacionais afetivas, talvez para compensar azares desportivos domésticos). Lá por Londres, no antigo Wembley, tive em tempos o supremo privilégio de assistir a algumas finais, espetáculos memoráveis nessa insubstituível "catedral" histórica do futebol.

Hoje, acompanhei a segunda parte do jogo com um belo "Earl Grey" da Twinings, com a água na temperatura certa, porque, como dizia a minha mãe, não se deve "cozer o chá".

Há minutos, ao dar pela falta dos "scones" a acompanhar, lembrei-me do Nuno Brederode Santos. Quando eu vivia por Londres, o Nuno passou por lá algumas vezes. Na primeira, encontrámo-nos para um copo no bar do Browns. "Eu, nesta terra, fico sempre no Browns", tinha decretado o Nuno. E ficava muito bem. O Browns era um hotel clássico, numa transversal a Picaddilly (não tenho pachorra para ir ao Google ver o nome da rua), à época bastante agradável. O Nuno explicou-me que o "afternoon tea" do Browns era tido por um "must". A verdade é que não me recordo de alguma vez ter tomadi chá com o Nuno.

Meses mais tarde, num sábado, com os meus pais, que estavam por ali em férias, fomos lanchar o Browns. À entrada, corretíssimo, um funcionário observou-me: "I'm afraid, sir, but you forgot your tie!" De facto, eu não levava gravata. Lembrava-me lá eu de andar de gravata num fim-de-semana! "May I ask you to select the one you like the most from our 'private' collection?", disse, gongórico, sorrindo. E lá lá fui a um "closet" descortinar uma tira de pano, de que escolhi a mais berrante (para escândalo de quem ia comigo, mas não do empregado), para pôr ao pescoço, autorizado assim a poder degustar a seleção magnífica de compotas com que por ali se acompanhavam as mini-sandwiches, os "brownies" e aqueles imbatíveis "scones", nos "trays" cónicos de regra.

Por uma única vez, bem mais tarde, dormi uma noite no Browns - e disso não guardo nenhuma memória impressiva, embora me digam que o hotel hoje está esplendoroso. Não sei se agora (com os russos e árabes a pagar) o hotel ainda exige o uso da gravata, nem se o chá da tarde por lá ainda se recomenda, Só sei que, com o Nuno, não poderei nunca mais comentar essa Londres de que ele tanto gostava (e houve outras Londres que partilhei com ele e o seu grande amigo Zé Laranjo, que também já se foi).

Por que é que me lembrei, nesta hora da final da Taça de Inglaterra, do chá? Pela "falta" dele por parte dos jogadores e dirigentes do (meu) Arsenal, pelo modo miserável como deixaram isolado no meio do campo, sem um abraço, sem um gesto de solidariedade, o (agora) mal-amado treinador Arsène Wenger, um "gentleman" (embora francês) que deu mais de vinte anos pelo clube e que parece destinado a ser escorraçado (embora lhes ofereça a "chapada" derradeira da vitória de hoje).

O "meu" Arsenal era outro, era o de Highbury Park, do "Fever Pitch" do Nick Hornby, do bairro operário das fábricas militares em que prosperou. Beber uma "pint" no "Wig and Gown", em sábados em que, anónimo e sozinho, ia de metro a Islington, foi uma espécie de batismo no mundo dos "gunners". É que, à época, muitos grunhos, arrotando cerveja e grunhindo interjeições num indecifrável "slang", talvez tivessem "mais chá" e sentido de gratidão do que esta tropa de hoje, que não respeita quem os serviu com lealdade e bastante sucesso por tanto tempo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Realismo e juízo


Haverá alguém, no seu perfeito juízo, que acredite que o qualificativo dado por Wolfgang Schäuble a Mário Centeno - "o Ronaldo do eurogrupo" - é algo mais do que uma arrogante “boutade”? 

Só alguma saloiíce lusitana é que acha que a “teoria económica” da Geringonça é vista com admiração nos círculos preponderantes no eurogrupo. É claro que eles podem achar curiosos os resultados obtidos, mas ninguém os convence minimamente de que tudo não decorre de um acaso pontual. Para eles, trata-se apenas de um "desenrascanço" conjuntural, fruto de alguma acalmia dos mercados, do efeito das políticas temporalmente limitadas do BCE, do salto das exportações (que entendem nada ter a ver com a ação do governo), do surto do turismo (por azares alheios e sorte nossa, como o “milagre do sol”), bem como do "pânico" de PCP e BE em poderem ver Passos & Cia de volta, desta forma “engolindo sapos” e permitindo ao PS surpreender Bruxelas com o seu seguidismo dos ditâmes dos tratado. Ah! Eles também constatam que a política de estímulo do consumo acabou por não ser o “driver” anunciado do crescimento. E que tudo o que foi feito está muito longe das imensas reformas que eles consideram indispensável, nomeadamente no regime laboral e nas políticas públicas mais onerosas para o OGE (Saúde, Educação, Segurança Social, Fiscalidade), por forma a promover uma redução, significativa e sustentada, da dívida. É assim uma grande e indesculpável ingenuidade estar a dar importância à "boca" do cavalheiro alemão!

Também só a crendice paroquial concede um mínimo de plausibilidade à ideia de Mário Centeno vir a chefiar o eurogrupo. Conhecidos os desequilíbrios doutrinários no seu seio, passa pela cabeça de alguém (pelos vistos passa!) que venha a ser escolhida uma pessoa que tem titulado uma linha em aberto contraponto com o sentido do “mainstream” que domina aquele fórum? Mesmo que houvesse interesse em ter um socialista para no lugar (dado o excesso de gente do PPE, hoje um pouco por todo lado), esse "socialista" teria sempre de ser (ou ficar) do tipo de Dijsselbloem, isto é, uma voz ventríloqua de Schäuble. E, se acaso isso fosse possível, que interesse podia ter para nós? Colocar Centeno a ter de desdizer-se face ao passado recente, vocalizando, contra o seu sucessor, aquilo com que não concorda? E com que “cara” ficaria António Costa, depois de ter publicamente assegurado que apoiaria o espanhol Luis de Guindos? Conheço-o suficientemente para ter a certeza de que se não prestaria à trampolinice de Durão Barroso, quando se locupletou com a presidência da Comissão Europeia, depois de tanto "entusiasmo" revelado com a candidatura de António Vitorino.

 Paremos assim para pensar e, entretanto, tenhamos juízo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

As malas e os diplomatas

O embaixador de que falei na historieta anterior, Cabrita Matias, era um "sábio" prático, daquelas pessoas que faz doutrina própria com base nas experiências e as transforma em indiscutíveis verdades universais.
Um dia, disse-lhe que, ido de Oslo, ia passar um fim-de-semana a Estocolmo. Aconselhou: "Escolha um hotel longe da estação!" Pensei logo: conhece a área, o "red light district" dever ser por perto. Mas, por acaso, era exatamente por ali que eu ia ficar! Creio que era um Sheraton, se a memória não me trai. E disse-lho.
"Ó homem, isso é uma imensa asneira", decretou. Mas porquê? A zona é má? "Nada disso! A regra é universal" (não fazia a coisa por menos). "Aprendi isso em França, com os famigerados Hotel de La Gare. Quer saber porquê?" Esse era o meu maior desejo, nesse momento.
"É muito simples, meu caro. Um hotel junto de uma estação tem dois problemas: é sempre demasiado distante para nós carregarmos as malas e demasiado próximo para chamar um táxi! É sempre uma tragédia. E para si é pior". Porquê? "Porque é casado" (ele era solteiro). "E as mulheres não sabem "to travel light"!"
Ele tinha toda a razão (em tudo o que tinha dito...) e eu passei a seguir a sua recomendação...
(... até ao dia em que foram inventadas as malas com rodas! Como é que é possível que tenham passado milénios entre a invenção da roda e esse "ovo de Colombo" que foi colocá-las nas malas? Quantas "Tauro" eu carreguei pelas ruas da vida!)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

"Puttanesca"

Que bem que se come no "Puttanesca", na zona alta de Leiria! Vivamente recomendo!
Paulo Oliveira, que sabe desta poda como poucos, tinha-me recordado isso há dias - eu tinha cá vindo duas vezes, mas, às vezes, as casas perdem fulgor, o que está muito longe de ser o caso.
Esta Leiria merece uma visita!

Olha a mala!

Sentado numa simpática esplanada de Aveiro, com o pôr-do-sol a aproximar-se, neste Verão "avant la lettre", leio na net a notícia da pesada condenação de Oliveira e Costa.
Do outro lado, fica a Pousada da Ria. Há muitos anos, nós e um casal amigo fomos lá ficar uma noite. Estava um funcionário na receção, a tomar conta dos nossos dados, que, amavelmente, nos esclareceu: "Não se preocupem com as malas! O meu colega vem já buscá-las!".
E, de facto, nem um minuto era volvido quando ouvi o meu amigo, atrás de mim, notar, para alguém que chegava: "Pode levar já estas. Há ainda duas sacas que eu vou buscar ao carro". E saiu, apressado.
Notei que qualquer coisa de estranho sucedia: as malas, mesmo ao meu lado, continuavam no lugar.
Olhei para trás e deparei com o olhar impassível de Oliveira e Costa, que o meu amigo, pouco dado às políticas, não identificara como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, um "ajudante" de Cavaco Silva.
"Fiz de conta" que não tinha ouvido a cena e só mais tarde expliquei ao meu amigo quem era o pretendido "carregador" de malas.
Estes equívocos podem ocorrer.
Em 1980, na Noruega, tinha lugar uma reunião da Internacional Socialista, a que foi Mário Soares, então líder da oposição, que vinha acompanhado por Maria Barroso e Rui Mateus.
No hall do Hotel SAS a confusão era grande. Os trabalhistas noruegueses tinham uma organização pouco eficaz, ou nós é que estávamos já fartos de esperar. O embaixador português, Cabrita Matias, estava em Oslo há poucos dias e logo lhe caíra "na sopa" um peso pesado como Soares, que dava mostras, compreensíveis, de querer ir para o quarto logo que possível. O embaixador estava "elétrico", ao ver a impaciência de Soares. Eu procurara já ajuda, sem grande sucesso.
Surgiu então, perto de nós, uma senhora com ar e atividade que indiciavam pertencer à organização, com a identificação ao pescoço.
Vi o embaixador avançar para ela e, ainda à distância, dizer-lhe, no seu impecável inglês, qualquer coisa como isto: "Ó menina, pode tratar destas malas, "faxavor"?" Eu dei um salto, puxando-lhe pelo braço, evitando que ele perseguisse a senhora, que parecera não ter notado o pedido.
Apenas lhe pretendia dizer que a "menina" era Gro Harlem Brundtland, a futura líder dos trabalhistas noruegueses, que ele ainda não tivera ocasião de conhecer. Dois meses depois, a "menina" era primeira-ministra...
Isto de malas tem muito que se lhe diga!
(E o sol está a pôr-se, aqui em Aveiro!)

Nobel do conforto


Lembrei-me agora, a caminho de Braga: será que ao inventor do ar condicionado a Academia sueca terá tido o bom senso de atribuir o mais do que merecido Prémio Nobel?

Braga

"Com que então vais amanhã a Braga! Não te esqueças de levar o Pacheco como guia! Um abraço!" E desligou. Foi ontem à noite, ao telefone com um amigo.
Como estava apressado para outros afazeres em Lisboa, não me interroguei muito sobre o críptico Pacheco referido.

À noite, pus-me a pensar. Seriam os guias do Helder Pacheco? Mas, que eu soubesse, ele só tinha escrito sobre o Porto. Às tantas, haveria algo sobre Braga que eu não conhecia.
O Pacheco Pereira não era, pela certa. Li tudo o que escreveu e não me recordo de Braga ter particular saliência em algum escrito seu.
E até me veio a memória o Pacheco do Eça, esse "imenso talento" que para nada servia. Mas também não passara por Braga.
Num segundo, fez-se-me luz! Era o Luiz Pacheco, claro! O meu amigo, numa referência geracional, quis falar de "O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor", esse opúsculo "maldito" que tanto escândalo provocou à época.
E, embora tardiamente, "ofendi-me"! Libertino, eu? Ou seria uma graça por ele me saber, por estes dias, "de Rodriguez" - esse estado de pontual liberdade matrimonial que os espanhóis crismaram para a história da blague.
Seja como for, amanhã vou reler o Pacheco.

Roger Moore



Às vezes, há a tendência para alguma generosidade, por altura da morte das pessoas. Comigo, confesso, isso raramente acontece. Posso ocultar alguns aspetos menos notáveis de quem se vai, mas não caio em edulcorar-lhes por excesso as virtudes.

Lembrei-me disto ao ler que morreu Roger Moore. Era um senhor respeitável, que protagonizou alguns filmes de James Bond com um misto de humor e charme machista, que sempre saía das cenas mais violentas com a poupa intocada, com aquele sorriso simpático de marca, que, aliás, conservou na velhice, como pude comprovar quando, há não muitos anos, o cruzei num evento em Paris.

Conseguia dar um tom saudavelmente picante aos rápidos diálogos com Moneypenny, fazia desesperar "Q" com um nunca batido humor e sempre cuidou em não dramatizar o tom da eternamente "impossível" relação com "M", que Daniel Craig, produto "eslavo" de um "casting" para 007 que estou certo teria irritado Ian Fleming, levou a um cúmulo de tensão muito discutível, no modelo de relação com a personagem de Judy Dench.

Como ator, desempenhava um Bond divertido, ao mesmo nível, comparadas as épocas, com que já fizera para a televisão as séries "Ivanhoe" ou "O Santo". Mas, sejamos honestos!, foi sempre um ator "13 valores", para usar a classificação que o meu pai costumava dar às prestações "assim-assim". Sempre pressenti que, no seu íntimo, vivia com um fantasma chamado Sean Connery - o "verdadeiro" Bond.

Uma novidade para os menos iniciados na "bondmania". Moore usou a famosa frase de 007 para pedir o Martini - "shaken, not stirred" - num episódio de "O Santo", meia dúzia de anos antes de ter vindo a protagonizar 007.

Presto aqui uma sincera homenagem a Roger Moore. Divertiu-me por muitas horas - também no "Ivanhoe" e em "O Santo" da minha juventude - "cultivou" mulheres lindíssimas (algumas segundo o padrão da época, outras de modelo estético mais "sustentável" no tempo) e soube transmitir a algumas cenas inverosímeis a ironia necessária para as não tornar completamente ridículas.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Os interesses de Portugal

A meu convite, António Vitorino falará hoje na Universidade Autónoma de Lisboa sobre os interesses que Portugal tem e deve proteger na Europa. 

Esta é a segunda de uma série de conferências, numa organização conjunta da UAL e do jornal "Público", que juntará um qualificado grupo de especialistas que, ao longo das próximas semanas, identificarão e abordarão, setor a setor, os interesses portugueses na ordem externa, neste tempo complexo de rearranjo da ordem internacional.

É uma indiscutível certeza não haver em Portugal ninguém mais qualificado do que o antigo ministro, deputado e comissário europeu António Vitorino, que durante seis anos presidiu à Fundação Notre Europe, criada por Jacques Delors, para falar do tema europeu e do papel de Portugal neste projeto.

Assim, quem se quiser atualizar sobre Portugal e a Europa tem hoje uma oportunidade única para o fazer, pelas 18 horas, na UAL, na Rua de Santa Marta, 56, em Lisboa.

Manchester

A Grã-Bretanha é uma ilha. Os controlos fronteiriços são muito mais fáceis de aplicar numa ilha. 

Além disso, o Reino Unido nunca fez parte do acordo de Schengen, o que confere uma proteção acrescida ao seu território. 

O Reino Unido tem assim melhores condições do que qualquer outro país europeu para se proteger de infiltrações exteriores.

E, no entanto, para além dos atos violentos de terror, no passado, por motivações separatistas, o Reino Unido foi já severamente fustigado por atentados terroristas inspirados pelo radicalismo islâmico. 

Até hoje, se bem me lembro, nenhum ataque terrorista no Reino Unido foi cometido por alguém infiltrado no país, mas sempre por cidadãos já nele nascidos. 

O terrorismo contemporâneo, está hoje provado, tem menos a ver com a circulação de pessoas através de fronteiras e muito mais com a livre propagação dos fanatismos - e essa não tem barreiras. 

Em Manchester, uma vez mais, ficou provada outra velha realidade, com que temos de viver para sempre: é muito difícil impedir alguém de cometer um ato terrorista se essa pessoa estiver na disposição de morrer para o praticar. 

Forum parlamentar luso-espanhol

Síntese dos tópicos que usei na intervenção que ontem fui convidado a proferir na sessão de abertura do Forum parlamentar luso-espanhol:
  • Virtualidades da diplomacia parlamentar na política externa e europeia. Reforço da legitimidade europeia através dos parlamentos nacionais.
  • Articulação hispano-portuguesa na construção europeia. "Lessons learned"
  • A imperiosa necessidade da "atualização" dos modelos de cooperação transfronteiriça existentes.
  • A questão da "ilha energética" peninsular, os problemas das interligações com França e o que sobra (ainda) para a nossa agenda bilateral. 
  • Almaraz e o problema da confiança, no seio da "cultura de vizinhança" na Península. Questão é muito mais do que energética, ambiental, de segurança física e territorial. Importante que Espanha perceba bem a sensibilidade da questão entre nós.
  • Crise europeia. Estado da arte e razões de preocupação. Ensaio de explicações.
  • As incógnitas europeias sobre a "nova" França.
  • Papel agregador do euro. O que falta completar da União Económica e Monetária. As lacunas da União Bancária. A "aposta" peninsular no euro.
  • As "hesitações" alemãs sobre a UEM. O "Catch 22" em que Berlim pode fazer cair a Europa.
  • Os cenários dos Livro Branco da Comissão Europeia. A "inevitabilidade" e os "riscos" da integração diferenciada.
  • Um orçamento para a zona euro. A necessidade imperiosa da evolução do Mecanismo Europeu de Estabilidade para um "fundo monetário europeu". A fuga à intergovernamentalidade para o combate aos futuros choques assimétricos. A ideia do subsídio de desemprego europeu e outros instrumentos "sociais", como fator compensatório da "centralização" institucional em torno do euro.
  • O efeito Brexit no futuro orçamental da UE. A aparente dualidade de posições de Portugal e Espanha na avaliação do relatório Monti sobre recursos próprios.
  • A discussão sobre a sustentabilidade financeira dos avanços sobre a defesa e segurança no cenário europeu. O efeito Trump na segurança europeia.
  • Nota final: Portugal e Espanha nas relações externas da União. Necessidade de um urgente impulso no acordo comercial UE-Mercosul.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O dia adversativo

Grande dia foi o de hoje para as adversativas: mas, porém, todavia, contudo, no entanto, não obstante...

Vemos, ouvimos e lemos: não podemos deixar de sorrir.

domingo, 21 de maio de 2017

Rebuçados da Régua

Há uns meses, levei uns amigos brasileiros a um passeio pela zona do Douro. À chegada à Régua, expliquei-lhes que uma das coisas mais típicas da cidade, para além da mais pequena barbearia do mundo, eram os seus rebuçados. 

Essa doçaria é uma coisa muito simples: é praticamente açúcar em ponto, deixado arrefecer, embrulhado em papel branco. A graça está em quem o vende, umas senhoras de avental ou bata branca, com umas cestas de verga, sentadas sob as árvores junto à estação do caminho de ferro. No passado eram senhoras muito idosas, nos últimos anos a venda estava já rejuvenescida.

Chegados nesse dia ao largo da estação, nada de vendedoras! Fiquei desiludido e perguntei pelas "senhoras dos rebuçados" a um dos taxistas no local. Foi-me dito que já não apareciam com tanta frequência, mas lá se conseguiu comprar rebuçados numa tabacaria próxima. Mas, confesso!, saí da Régua "de orelha murcha". A Régua sem rebuçados era como Vila Real sem covilhetes! 

Hoje, durante uma função oficial, jantei ao lado do edil-mor da Régua e, como antes se dizia, "lavrei o meu protesto". E não é que fui informado que as senhoras dos rebuçados continuam, que nesse dia deviam ter ido "para os barcos", que a Câmara até providencia os aventais/batas brancas e tudo?! 

Assim sim, porque eu sou daqueles que não gostam que lhes troquem as voltas e mudem aquilo a que se habituaram a ter como cenário confortável de vida. O nome para pessoas assim é "reacionário", não é?

sábado, 20 de maio de 2017

Gilberto Ferraz

Morreu Gilberto Ferraz. Chegou-me agora a notícia, de Londres. 

Às vezes me pergunto onde conheci, pela primeira vez, o Gilberto Ferraz. Posso estar equivocado, mas tenho a impressão de que foi nas manhãs da TSF, nos anos 80, no meio daqueles noticiários e "gingles" trepidantes, que escutei pela primeira vez a sua voz. Como milhares de portugueses, podia receber, cada manhã, sínteses precisas sobre o modo como a imprensa britânica via o mundo, o seu e dos outros. 

Um dia, numa passagem por Londres, coloquei finalmente uma cara naquela voz. Quando, tempos mais tarde, me mudei para ir trabalhar para a capital britânica, na nossa embaixada, passei a contar com o Gilberto Ferraz como um interlocutor regular. Construímos então uma boa amizade, feita de respeito e estima, pessoal e profissional, que se manteve e reforçou a partir de então.

Gilberto Ferraz foi um jornalista que, desde há muitas décadas havia assentado arraiais "Por terras de sua majestade" - e deixo isto entre aspas, porque esse é o título do seu livro de memórias, editado em 2016, que tive o gosto de prefaciar.

O Gilberto teve um pé na política (julgo que chegou a representante do PSD ou do PPD no Reino Unido), tendo sido também correspondente em Londres do "Jornal de Noticias" e colaborado pontualmente com diversos outros órgãos de comunicação social. 

Paralelamente a tudo isso, trabalhou, durante décadas, na famosa "Secção portuguesa" da BBC, uma excecional escola de rádio e jornalismo. Em 2012, fui um dia de Paris a Londres e convidou-me para almoçar na Bush House, a sede da BBC, onde notei que ele se sentia verdadeiramente em casa. 

No ano passado, voltámos a ver-nos no seu apartamento em Cascais. Depois, entre os lançamento do seu livro de memórias, em Londres e em Lisboa, morreria Marisa, a sua companheira de muitas décadas. A saúde o Gilberto era já então muito frágil e, com certeza, isso e os anos pesaram agora sobre o desgosto. Desaparece agora. Deixo aqui uma nota muito sentida de pesar por um amigo, um homem de bem e um jornalista sério e rigoroso.

Embaixador em Lutenblag

Gosto dos nomes dos "novos países" que a NATO acaba de criar para os seus jogos táticos na guerra cibernética: Berília e Crimsónia.

Sempre achei graça a estes Estados fictícios, desde a Bordúria e a Sildávia em que Hergé fez circular Tintin. Aliás, é vulgar esquecer que a série não ficou por aqui. Hergé inventou também El-Khemed, San Theodoros e Nuevo Rico.

Nestas ficções geográficas, há três áreas tradicionalmente "privilegiadas": os Balcãs, a América Central e o mundo árabe, com alguma África à mistura. De certo modo, isso correspondia ao "mistério" e menor conhecimento existente sobre essas geografias. A literatura e o cinema estão cheios desses reais imaginários e, entre eles, há nomes deliciosos, na sua sonoridade e inventiva.

Há uns anos, numa livraria em Paris, deparei-me com o suprassumo editorial dessa fabulação: entre uma série de guias sobre vários países, surgia um dedicado à Molvânia, um Estado não existente. Trazia referências às suas tradições, usos, figuras da história e literatura, tudo com imensas fotografias e até endereços de restaurantes. Nunca me perdoei não ter comprado esse guia de ficção turística, que espero que venha a ser atualizado com a necessária regularidade, porque a imaginação também se renova. 

Na altura, pensei que Lutenblag, a popular e ao que dizem deslumbrante capital da Molvânia, seria o destino diplomático adequado, por inócuo e inofensivo para os interesses do Estado, para dois ou três colegas com os quais me cruzei ao longo da minha carreira profissional e cuja afeição ao trabalho apenas era compatível com a colocação em postos imaginários. Ah! E que, naturalmente, mereciam ser pagos na respetiva moeda local, porque "isto não é o da Joana"...

Caminhos de ferro

Tenho "mixed feelings" sobre os atuais serviços ferroviários portugueses, que, nos últimos anos, tenho usado exclusivamente entre Lisboa e Porto. Reconheço que os comboios andam geralmente à hora, as carruagens são muito mais agradáveis do que eram, mas - tenho de dizer isto com total sinceridade - continuam ainda muito desconfortáveis. Ou talvez o "defeito" seja meu, ao comparar subliminarmente com alguns TGV que conheço.

Viajei hoje na mais moderna unidade da CP, o modelo Manoel de Oliveira. Limpo, espaçoso qb, mas com bancos muito rígidos. E o "balancear" e a natureza saltitante da viagem são incomodativos (há zonas piores do que outras). Dir-me-ão que a culpa não é da CP, dona do material circulante, é da Refer, responsável pela linha. A mim, que pago o bilhete (barato, na minha opinião) é-me indiferente o "culpado". Estou a ser excessivamente exigente? Talvez, mas é o que sinto.

(Em tempo: não é admissível, em tempo de captação de turismo, que os anúncios por altifalante sejam feitos exclusivamente em português. Foi visível a perplexidade e incompreensão de vários passageiros. E, já agora!, um "upgrade" no "cosmopolitismo" do serviço seria bem vindo, "if you know what I mean")

Agora Marcelo Caetano

Como aqui assinalei, morreu, há dias, no Rio de Janeiro, António Gomes da Costa, um dos mais destacados líderes da Comunidade portuguesa no Brasil. 

Foi uma figura cuja ação sempre admirei, pela sua empenhada dedicação à promoção de Portugal no Brasil e ao aprofundamento das relações luso-brasileiras. Era um homem profundamente conservador, apreciador confesso das virtualidades do regime derrubado em 1974, crítico regular no novo regime então surgido.

Isso nunca o impediu de manter um relacionamento impecável com os representantes do Estado, em democracia, como foi o meu caso, entre 2005 e 2009.

Num depoimento que hoje enviei para o JL - Jornal de Letras, contei um episódio passado no primeiro encontro que tive com António Gomes da Costa, em inícios de 2005. 

Perguntei-lhe então sobre o estado de conservação da sepultura do professor Marcelo Caetano. Respondeu-me que tinha indicações de que o espaço estava bem cuidado, por pessoas da nossa comunidade. Notei, contudo, a sua surpresa, pelo facto de eu ter abordado o assunto. Expliquei-lhe – e fazia-o com total sinceridade – que era minha preocupação, como embaixador, garantir, durante o tempo que durasse a minha missão no Brasil, que o local onde estavam os restos mortais daquele antigo chefe do governo estivesse preservado com a dignidade necessária, assegurando que a embaixada tinha toda a disponibilidade para auxiliar em tudo quanto, nesse domínio, viesse a ser necessário fazer. 

António Gomes da Costa terá percebido nesse instante que a minha atitude relevava de uma leitura de Estado, muito para além das trincheiras políticas muito diversas que ocupávamos. E julgo que isso contribuiu para que, a partir daí, nos tivéssemos relacionado sempre sem o menor problema. Continuando nós, bem entendido, cada um "na sua", em matéria política.


É que uma coisa que todo o diplomata deve ter sempre bem presente, quando está em serviço no estrangeiro, é que, estando embora sob as ordens conjunturais do governo de turno, ele representa o Estado e é depositário de toda a História que o país carrega consigo. Toda, mesmo.

A situação política no Brasil


Aqui, aqui e aqui.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sonoridades e pressas

E não é que, num artigo de hoje no JN, escrevi "arlequim e manjerona". "Arlequim" em lugar de "alecrim?" Foi erro, claro, não há desculpas! Estas sonoridades próximas levam-nos a estes lapsos embaraçantes, meia Commedia dell'Arte, meia arte de ervanária. Coitada da Colombina...

Portugal na Europa


Conferência/Debate "Que rumo para Portugal na Europa?", promovido pela Associação José Afonso, em Lisboa, dia 30 de maio, pelas 19 horas

Eleições francesas

Debate sobre "Eleições em França, consequências à escala europeia", promovido pelo IDL - Instituto Amaro da Costa, em Lisboa, no dia 26 de maio, pelas 13.00 horas


Brexit

Participação no painel "The EU after the UK referendum", no âmbito do 38º Colóquio de Relações Internacionais da Universidade do Minho, dedicado a "O projeto europeu: que União?", em Braga, dia 24 de maio, 4ª feira, pelas 14 horas.


Um governo nacional



Em 2012, François Hollande disse querer ser um presidente “normal”, quiçá para afirmar um pretendido contraste com Nicolas Sarkozy, que, com aquele estilo “coelho da Duracell”, cansara e irritara profundamente a França. Hollande acabou por ser apenas um presidente banal, que ficou muito aquém daquilo de que o seu país necessitava, contribuindo, em paralelo, para um imenso descrédito da esquerda socialista que ele reconduzira ao poder. Curiosamente, a direita não foi capaz de cavalgar esse estilhaçar do adversário, envolvendo-se em guerras de Arlequim e Manjerona, dando, no final, uma imagem “affairiste” de si própria, que, por pouco, não abriu espaço a uma tragédia.
Emmanuel Macron foi a resultante hábil que “furou” no meio da onda de desilusão do eleitorado perante as duas famílias políticas tradicionais. O governo que agora apresentou é uma verdadeira não-surpresa, uma espécie de “bloco central”, que junta figuras “óbvias” dos diversos espetros politicos, a que somou algumas caras novas, parte delas com promissores curriculos, numa deliberada e louvável equidade de género.
Sem querer parecer Cassandra, gostava de dizer que se podem antever algumas dificuldades a este novo executivo. Desde logo, porque o primeiro-ministro escolhido, Edouard Phillipe, um homem oriundo da ala mais “aceitável” da direita clássica, pode vir a revelar-se um peso demasiado “leve” para contrabalançar a dimensão de algum “baronato” politico que Macron se viu forçado a cooptar. Desde logo, François Bayrou, o ambicioso centrista que terá criado já problemas nas vésperas da formação do executivo, passando pelos socialistas Gérard Collomb, o “maire” de Lyon que cedo se ligou a Macron, e Jean-Yves Le Drian, um fiel “hollandista”, até a um ambicioso Bruno Le Maire, com o qual o novo executivo tentará seduzir o eleitorado da direita clássica. Uma nota interessante, coerente com a sempre reiterada aposta de Macron no dossiê ecológico, é a escolha de Nicolas Hulot, figura mítica do ambientalismo francês – que até agora tinha resistido a todas as propostas para entrar ativamente na vida política.
Este governo é o “cartão de visita” que Macron vai apresentar perante o eleitorado que escolherá os deputados em 18 de junho. O que conseguir projetar como linha apelativa de rumo será decisivo para se perceber se, depois dessa data, conseguirá ou não uma “maioria estável e coerente”, como se dizia no Portugal pós-abril.
Um belo sinal do novo presidente foi, sem dúvida, a mensagem europeísta que resultou do seu encontro com Angela Merkel. Para Portugal, que tem no êxito do projeto europeu uma parcela significativa do seu interesse nacional futuro, o sucesso de Emmanuel Macron e a eficácia deste seu quase “governo nacional” seria uma muito boa notícia.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Photo opportunity

Um dia, num aeroporto do Brasil, cruzei-me com uma figura ligada a um derminado setor da Justiça daquele país, com quem me tinha encontrado em diversas ocasiões oficiais e com a qual mantinha uma relação cordial. Em tom casual, perguntou-se se eu conhecia uma determinada pessoa, um cidadão brasileiro. O nome nada me dizia. A figura da Justiça sorriu e disse-me que essa pessoa estava presa e que, no seu processo, constava uma fotografia tirada comigo.

Já não sei como, cheguei à conclusão de que coincidira com essa pessoa, mais de um ano antes, num jantar com uma vintena de pessoas, em casa de uma amiga comum. Puxando mais pela memória, recordei-me que, a certa altura, essa pessoa quis tirar uma fotografia com o embaixador de Portugal, provavelmente para recordação. Não tinha nenhum motivo para recusar fazê-lo e, verdadeiramente, esqueci tudo no instante seguinte.

A personagem ligada à Justiça brasileira disse-me que o assunto não tinha a menor importância, mas deu-me um conselho: quando alguém que eu não conhecesse me pedisse para tirar uma fotografia comigo, deveria tomar a iniciativa de pedir a mais alguém, que estivesse perto, para se juntar ao retrato. Isso evitaria dar a ideia de uma excessiva intimidade com o parceiro desconhecido registado na imagem. Tomei boa nota da técnica, embora depois tivesse aprendido que há outra, também eficaz, que é ter fotografias, mesmo a dois, com quase toda a gente, como faz o nosso presidente da República...

Lembrei-me disso há pouco, ao receber tristes notícias políticas do Brasil. É que, se olhar os meus arquivos fotográficos, não são poucas as fotografias que tenho com figuras políticas, brasileiras e não só, que entraram em desgraça, algumas delas presas, outras, aparentemente, com fortes probabilidades de o virem a ser.

Saudades de Américo Tomás

Aquele amigo, quando me viu chegar, um tanto afogueado, com um atraso de cinco minutos, a uma palestra em que eu ia intervir, ao final da tarde de ontem, no Palácio da Independência, ali junto ao Rossio ficou surpreendido quando, de raspão, dirigindo-me à mesa, lhe deixei um críptico "Que saudades tenho do Américo Tomás!". Esse amigo conhece-me bem, politicamente, e claro, imagino que ficou desconcertado com a minha saída.

O dia de ontem foi muito complicado. Uma reunião de manhã, um almoço a trabalhar, um encontro logo a seguir, conclusão de um parecer de consultoria para uma empresa, preparação de uma aula, a palestra acima referida e, finalmente, sem tempo para jantar, duas horas de aula, terminadas às 23.30. Só ao virar do dia, tive tempo para uma sandwich e uma cerveja, no balcão do Procópio. Os dois dias anteriores não tinham sido muito diferentes e os de amanhã e sexta-feira vão também ser de alguma correria.

O grande problema de reuniões e trabalhos em sítios diferentes de Lisboa (e arredores), como é o meu caso, é a dificuldade de me deslocar, de arranjar lugar para o carro, de fazer telefonemas a meio do percurso. assim, vivo em cima da hora de tudo. E as obras do meu amigo Fernando Medina, somadas às surpresas no trânsito, não ajudam nada.

A saída da palestra no Palácio da Independência, quando eu já "voava" dali para o compromisso seguinte, o meu amigo que tinha encontrado à entrada, inquiriu, ainda perplexo: "O que é que tu querias dizer com aquilo do Américo Tomás?".

Expliquei-lhe que, com uma vida destas, o que me dava uma "jeitaça" era ter um motorista, que me levasse aos locais, esperasse por mim à saída e me ajudasse a relaxar, sem conduzir, entre os eventos, dando-me tempo para telefonar e consultar emails. Porém, ele continuava sem perceber a "saudade" personalizada a que eu aludira. Foi então que lhe expliquei que, desde há alguns anos, deixara de ter motorista, porque acabaram entretanto os cargos oficiais que antes tinha e, do meu contrato com as várias entidades privadas com quem trabalho, não faz parte essa "mordomia". Ora o último motorista que tive, de quem agora sentia "saudades" práticas, chamava-se (e chama-se) precisamente... Américo Tomás!

(Um abraço para si, Américo!).

quarta-feira, 17 de maio de 2017

O arroz do padre

Ao ler na imprensa de hoje que um padre italiano, conluiado com a Mafia, desviava alimentação destinada a imigrantes, a expressão "arroz do padre" veio-me à memória.

Foi há mais de 60 anos, lá por Vila Real. Eu era muito miúdo mas recordo bem uma conversa em torno de um arroz que um dia foi servido na casa onde então vivia, com os meus pais e os meus avôs. Louvava-se a qualidade ímpar de um arroz que estava a ser servido - de uma textura que nunca ninguém tinha experimentado até então (agora, depois de uma vida como "arroseiro" militante, imagino que tivesse sido o primeiro arroz agulha que nos fora dado a provar). À volta da mesa, as pessoas perguntaram-se de onde tinha surgido aquela maravilha. Foi chamada a criada (o termo "empregada" é bem mais tardio, nesse tempo em que também não havia "colaboradores" nas empresas), inquirida sobre se aquela "especialidade" (um termo muito usado à época, para qualificar algo de muito bom) fora comprado no Mário Miranda ou no Sarreiro, tradicionais provedores alimentares da casa.

A senhora surpreendeu toda a gente: "Não, esse é arroz do padre", e passou a explicar. Uma colega de uma casa vizinha alertara-a para o facto de, na sacristia de uma igreja da cidade (que não refiro, para evitar especulações dos vilarrealenses com boa memória), vendia-se arroz ao quilo, que vinha depois naqueles cartuchos de papel grosso, acinzentado. "É muito mais barato!", esclarecia a criada, ufana com a poupança introduzida no rol das compras.

Arroz à venda numa sacristia era, no mínimo um mistério, a que a sua extraordinária qualidade somava uma interrogação mais! 

Horas depois, o enigma escareceu-se: o tal padre estava a vender ao público, a granel, imagina-se que para crédito das contas da paróquia (numa versão otimista), arroz de origem americana que tinha chegado pela Caritas, para ser distribuído pelos pobres. O "desvio" era para dos os adultos da casa um tanto obsceno, numa casa por onde chegou a "circular" a "sagrada família" e onde existia um mealheiro de cartão, de cor azul clara, distribuído pela paróquia, com a inscrição rimada "um tostão por dia para os padres da freguesia".

Não sei quantos quilos de "arroz do padre" tinham sido adquiridos, não tenho registo se o prazer em consumir aquela delícia compensou o remorso de estar dela a privar os seus naturais destinatários. Só sei que o conceito de "arroz do padre" passou a ser um "benchmark" referencial, quase inatingível, para qualificar um arroz  excecional. 

Um dia, na Noruega, confrontado com um prato acompanhado de um belo "Uncle Ben's" (um notável arroz americano), lembro-me do meu pai suspirar: "É muito bom, mas nada que se compare com o arroz do padre..." 

terça-feira, 16 de maio de 2017

Não!


Não, não vou falar aqui dos 2,8% de crescimento. Porquê? Porque quero ser simpático para com os meus amigos "conservadores" (que é outro eufemismo que alguma comunicação social usa para evitar falar de "direita" ou chamar isso a amigalhaços dela e meus). Por isso, só para lhes poupar um desgosto, optei por ficar, hoje, completamente calado, em sepulcral e respeitoso silêncio. Bem gostava eu de poder mandar um forte abraço de parabéns a António Costa, de fazer "mea culpa" por todos os alertas contra a "geringonça" que lhe transmiti. Mas não, não posso fazer isso, porque os meus amigos do "centro-direita" (a maioria gosta de ser chamada assim - façamos-lhe pois a vontade!) não me perdoariam. Já lhes basta a realidade que hoje, mais uma vez, lhes caiu em cima, coitados! E, por isso, não me passa pela cabeça atirar-lhes à cara, uma cara agora com um sorriso amarelo, que a governação "troika"/PSD e (às vezes) CDS foi um rotundo fracasso, titular de uma cruel insensibilidade, somada a uma clamorosa incompetência. E nem sequer vou lembrar-lhes que o país não os esquece - e, por isso, quer vê-los "com dono" por muitos e bons. Apetecia-me tanto dizer-lhes isto, bem alto, mas não, optei por não aborrecê-los. Até porque alguns se queixam (às vezes por interpostos conhecidos) de que eu ando sempre a "dar-lhes pancada". Assim, hoje não farei isso! Nem a eles nem a um amigo deles de quem deixo uma imagem, tirada há quase um ano, quando então exibia, como dizia Camões, aquilo que viria a ser um ridículo "contentamento descontente".

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"Eixos da Política Externa Portuguesa"


É já amanhã, 3ª feira, pelas 18 horas, que terá lugar a primeira das conferências, organizadas pela Universidade Autónoma e pelo jornal "Público", que abordarão o tema comum dos Interesses de Portugal no Mundo.
Falarei na ocasião sobre os Eixos da Política Externa Portuguesa.

domingo, 14 de maio de 2017

O tal canal

Recordo-me bem desses tempos, no auge do cavaquismo, em que, pelo país, os padres recolhiam donativos para dar "um canal à igreja católica". Sei de gente humilde que foi às suas economias buscar dinheiro para concretizar esse sonho de ter uma "Renascença com imagem". Lembro-me de debates sobre a natureza particular que a sua programação iria ter, que se pretendia assente em valores diferentes daqueles que eram seguidos pelos outros canais.

Onde tudo isso vai! A TVI acabou, enfim, por ser o que hoje é, depois de passada "a patacos" a quem deu mais por ela. 

Há pouco, ao acompanhar uma ácida "crónica" de Vitor Moura-Pinto no jornal da TVI, satirizando a visita do papa a Fátima, num modelo que nenhuma outra televisão entendeu seguir, perguntei-me o que pensarão hoje alguns dos sacrificados desse tempo, ao constatar os insondáveis caminhos dos senhores em cujas mãos o "canal da igreja" entretanto caiu.

"Ai Portugal, Portugal!"

Roubei o título a uma canção de Jorge Palma, neste dia de alegria e boa música, com a consciência de que a letra conclui pela questão "... de que é que tu estás à espera?". A um país fazem falta momentos como estes, uma difusa ideia de que tudo está a correr bem, de que os astros se conjugaram para fazer sorrir as pessoas, de que Portugal está na moda. E, na verdade, está, de uma certa forma, e isso é bom e deve ser aproveitado - no plano material e naquilo que isso possa induzir no bem-estar das pessoas que por cá vivem. Nestes tempos de alguma euforia, parecerá quase sacrílego (e em coro com malévolos e ácidos cultores da desgraça) alertar, conta o vento dominante, para o facto de que tudo isto são boas ondas passageiras, que a realidade de fundo permanece, neste que é, de há muito, o país mais pobre da Europa ocidental, emissor de gente para o mundo, fruto da incapacidade de lhe proporcionar um futuro decente na terra onde nasceu. Gozemos bem estes dias, embora o passado nos venha ensinando, desde há séculos, que temos uma endémica incapacidade para sustentar os nossos episódios de sucesso e uma insuperável dificuldade em cavalgá-los para construir um futuro sereno, próspero, que venha a evitar novos ciclos de depressão e angústia, como os que, ainda há pouco, atravessámos. O melhor serviço que poderíamos prestar a nós mesmos, nestes dias de euforia e de otimismo, seria a tomada coletiva de decisão de nos organizarmos definitivamente para a mudança, para o rigor, para a disciplina, para a não perda de tempo, para a pontualidade, para o respeito pelos outros, para o fim do xicoespertismo, para que esta não fosse mais uma "alegria breve", para usar o termo cunhado, para outra realidade, por Vergílio Ferreira. Mas, se calhar, se viéssemos um dia a mudar, não seríamos nós, dirão alguns. Provavelmente, é neste eterno ser ou não ser - glórias e derrotas, euforias e depressões, do "agora é que é!" ao "não vale a pena!" - que, afinal, está a graça (e a desgraça) deste país.

Só faltava!


"Foi o Euro 2016, depois o défice, resolveu o diabo dos bancos, isto rebenta de turistas, lá elegeu o Guterres, veio o papa, tem o Marcelo no bolso, o Benfica dele ganhou, daqui a dias os tipos de Bruxelas abençoam o fim do procedimento e, agora, até o Salvador lhe saiu em rifa - que sorte a do Costa! Ao menos - bem, isso é dinheiro em caixa! - a Teresa Coelho lá vai ganhar a Câmara de Lisboa!"‬

sábado, 13 de maio de 2017

Para que não digam que não falei de futebol


Segundo se sabe, o papa é um fanático do San Lorenzo de Almagro.

Na minha infância, o nome de San Lorenzo de Almagro era sinónimo de perfeição em futebol. Ao que o meu pai me contava, com admiração, aquela equipa argentina teria feito, em 1946, uma temporada de exibição pela Europa e o seu jogo, marcado por passes curtos e uma apurada técnica individual, surpreendeu e venceu todos os adversários que defrontou. Popularizado então como o "Ciclone", o San Lorenzo infligiu mesmo uma derrota pesada a uma seleção nacional portuguesa. Antes disso, no estádio do Lima, no Porto, o San Lorenzo deu uma "abada" ao Futebol Clube do Porto.

Uma noite, no final dos anos 60, num jantar no Pedro dos Leitões, na Bairrada, tive o privilégio de assistir a uma rememoração dessa partida, feita por Gomes da Costa, que fora "avançado-centro" dos portistas nesse jogo e era médico em Vila Pouca de Aguiar, e o meu pai, testemunha de bancada.

Que fique claro que, aconteça o que acontecer, este é o meu único post sobre futebol neste fim de semana. E é porque o papa anda por cá.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

GNR




Depois de uma palestra em que participei, em Mangualde, na noite de ontem, perdi-me na cidade... Passava da meia-noite, não se via vivalma, andei de carro às voltas, a tentar descobrir o hotel, sem o GPS à mão.

A certo passo, cruzei-me com uma viatura da GNR, pedindo indicações. Iniciaram uma explicação mas, de súbito, disseram: "Siga-nos!" E, com imensa simpatia, conduziram-me até ao hotel, uns quilómetros adiante.

Há meses, falei aqui da experiência de um tratamento impecável por parte dos Bombeiros e da PSP, em Vila Real.

Ontem, a GNR de Mangualde confirmou-me que há, nos dias de hoje, um Portugal muito diferente, em matéria de serviço público. Para bem melhor.

As luzinhas do presidente


São contraditórias as notícias que chegam de Angola, sobre o real estado de saúde do presidente José Eduardo dos Santos. Num país cujo quotidiano, desde há décadas, está marcado por aquele que é o mais resiliente líder de África, é normal que alguma ansiedade atravesse quantos, mais cedo ou mais tarde, para o seu bem ou para o seu mal, vão ter de encarar o futuro sem ele.

Lembrei-me há pouco dos tempos em que vivi em Luanda, com Angola em guerra civil, no início dos anos 80, a cidade de certo modo sitiada, com fortes precauções de segurança e recolher obrigatório durante a noite.

Eu tinha um cozinheiro chamado Alberto, uma figura curiosa que herdara do meu antecessor na embaixada. Nunca lhe consegui extrair uma palavra de simpatia para com o MPLA e o seu regime, apenas algumas ironias crípticas sobre figuras políticas mais em voga. No fundo, sempre desconfiei que fosse simpatizante da Unita.

Um dia, fui com o Alberto buscar já não sei o quê à Corimba, no caminho para o Futungo de Belas, o complexo onde então vivia o presidente. A certo passo, ao longe, em nossa direção, vimos surgir um grande movimento de viaturas. A Luanda dessa época era muito diferente da de hoje, sem o tráfego rodoviário infernal que é o seu atual quotidiano. Um reboliço desse género era, à época, muito pouco comum.

Vi então Alberto, em geral seráfico, ficar muito agitado e dizer: "Doutor, cuidado!, são as luzinhas do presidente!" Eu estava há poucos meses em Luanda, pelo que demorei uns instantes a perceber o que ele queria dizer. O Alberto referia-se, percebi então, às dezenas de luzes, bem visíveis naquele fim de tarde com o sol a pôr-se, que se destacavam das motos dos batedores e dos carros da segurança, que precediam o cortejo de viaturas negras onde, com plausível certeza, viajava José Eduardo dos Santos.

A aproximação das "luzinhas do presidente" significava, muito simplesmente, a necessidade de qualquer viatura com que aquele aparato se cruzasse ter de encostar à berma e, mais do que isso, que o condutor colocasse as mãos sobre o volante, na posição "dez-e-dez", por forma a não criar a mais leve dúvida sobre a sua inocuidade para a segurança do líder do país. Vim a saber, mais tarde, que um cidadão português, menos atento a esta indispensável coreografia, teria sido morto, tempos antes, com disparos de uma das viaturas da segurança do cortejo.

Por que é que me lembrei disto? Porque estou numa área de serviço da autoestrada, perto da base de Monte Real, onde o papa aterrará daqui a pouco, e, embora em faixas diferentes, vislumbrei já algumas viaturas oficiais, precedidas de batedores, cheias de "luzinhas". 

E senti que é muito bom viver num país onde, felizmente, não somos obrigados a ter calafrios sempre que nos cruzamos com as "luzinhas do presidente".

O papa


Sendo nós um país cuja população se assume maioritariamente como católica, é natural que por cá seja sempre acolhido com gosto o chefe da respetiva igreja, cuja relação histórica com Portugal data da fundação da nossa nacionalidade.
Acresce que o atual papa é uma figura simpática, que projeta uma imagem de humanismo que passa muito para além das fronteiras religiosas.
Por tudo isso, e pelo que me toca, seja muito bem vindo a Portugal, papa Francisco!