domingo, 28 de maio de 2017

Miguel Urbano Rodrigues


Ouvi falar dele, creio que pela primeira vez, ao meu primo, Carlos Eurico da Costa. Ambos tinham trabalhado nessa efémera experiência que foi o "Diário Ilustrado".

Miguel Urbano Rodrigues cedo se exilou no Brasil, deixando muito bom nome como jornalista no Estadão, onde chegou a editorialista. Escrevia muito bem, textos cultos, onde espelhava uma vida com muitas experiências e ricos encontros. Tudo isso, contudo, era limitado por uma cegueira (outros terão um vocábulo mais amável) política que lhe coartava a evidente genialidade da pena. 

Militante do PCP, viria, já bem depois do 25 de abril, a dirigir "O Diário", uma espécie de MDP-CDE impresso (só alguns entenderão o paralelo), uma publicação que (passe a blague) era a verdade a que os comunistas tinham direito. 

"O Diário" foi um jornal curioso: reunia um conjunto de excelentes profissionais (entre outros), mas produzia um jornalismo que, na sua globalidade, tinha uma qualidade que deixava muito a desejar. Contudo, à distância, creio ser justo dizer que foi melhor do que a imagem que dele guardou a história do nosso jornalismo.

Com Franco Nogueira, Miguel Urbano Rodrigues fez depois por vezes um dueto caricatural esquerda-direita, uma fórmula que um espertalhote qualquer inventou na RTP. A esmagadora maioria da esquerda não se revia naturalmente no sectarismo semanalmente afirmado por Miguel Urbano Rodrigues e a direita, então comodamente instalada no poder cavaquista, fingia quase "ser de centro", em face do tremendismo estado-novista tardio de Franco Nogueira. A perfídia, em "jornalismo", tem destas coisas. 

Miguel Urbano Rodrigues andou depois pelo mundo, creio que viveu em Cuba e no Brasil. Nunca o encontrei, nunca falei com ele. Mas li muito do que escreveu. Prejetava a imagem de alguém que havia perdido (e era inconsolavelmente saudoso de) um mundo político em que sinceramente acreditou - o que é muito respeitável, mas apenas quando isso é inócuo para a liberdade dos outros. No que me toca, nesta que é a hora da sua morte, e tendo em comum com ele uma rejeição de um certo passado, sinto-me suficientemente à vontade para afirmar que há muito que não tínhamos os mesmos amanhãs como objetivo - se é que alguma vez isso verdadeiramente aconteceu.

4 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Francisco
Acaba de me dar uma grande novidade. Não a da morte. Mas a de que é primo do Eurico da Costa, alguém que fez parte de um mundo já longínquo mas de quem gostava muito. O que era uma raridade, na altura. E foi porque o conheci, que a minha querida e saudosa Maria Nobre Franco havia de se tornar naquela que foi.
É uma história com muita piada e que mudou completamente a vida da Maria. Um dia contar-lha-ei.

Francisco Seixas da Costa disse...

Primo direito, Helena! Um beijo

APS disse...

Para evitar intimidades, sempre redundantes e cerimoniosas, em blogues, eu citaria, melancolicamente, o tão esquecido Lopes Cardoso, que dizia: "Um político que não se repete, não é coerente." Daí as, hoje, tão raras "cassettes".

Anónimo disse...

Encontrei Miguel Urbano Rodrigues uma única vez num reduzidíssimo grupo de pessoas que conversaram uma tarde inteira de primavera numa herdade em Serpa. Por sermos poucos conversei muito com ele e não tendo vindo à baila tendências políticas mas apenas histórias da vida, fiquei, naquela tarde, muito contente por ter conhecido uma pessoa tão inteligente, tão simpática e tão interessante. Conheci melhor o seu irmão Urbano, igualmente brilhante e ultra civilizado, que creio poder considerar como tendo sido mais do que apenas um conhecido uma pessoa muito respeitável nos dois sentidos.

João Vieira