sexta-feira, 19 de maio de 2017

Um governo nacional



Em 2012, François Hollande disse querer ser um presidente “normal”, quiçá para afirmar um pretendido contraste com Nicolas Sarkozy, que, com aquele estilo “coelho da Duracell”, cansara e irritara profundamente a França. Hollande acabou por ser apenas um presidente banal, que ficou muito aquém daquilo de que o seu país necessitava, contribuindo, em paralelo, para um imenso descrédito da esquerda socialista que ele reconduzira ao poder. Curiosamente, a direita não foi capaz de cavalgar esse estilhaçar do adversário, envolvendo-se em guerras de Arlequim e Manjerona, dando, no final, uma imagem “affairiste” de si própria, que, por pouco, não abriu espaço a uma tragédia.
Emmanuel Macron foi a resultante hábil que “furou” no meio da onda de desilusão do eleitorado perante as duas famílias políticas tradicionais. O governo que agora apresentou é uma verdadeira não-surpresa, uma espécie de “bloco central”, que junta figuras “óbvias” dos diversos espetros politicos, a que somou algumas caras novas, parte delas com promissores curriculos, numa deliberada e louvável equidade de género.
Sem querer parecer Cassandra, gostava de dizer que se podem antever algumas dificuldades a este novo executivo. Desde logo, porque o primeiro-ministro escolhido, Edouard Phillipe, um homem oriundo da ala mais “aceitável” da direita clássica, pode vir a revelar-se um peso demasiado “leve” para contrabalançar a dimensão de algum “baronato” politico que Macron se viu forçado a cooptar. Desde logo, François Bayrou, o ambicioso centrista que terá criado já problemas nas vésperas da formação do executivo, passando pelos socialistas Gérard Collomb, o “maire” de Lyon que cedo se ligou a Macron, e Jean-Yves Le Drian, um fiel “hollandista”, até a um ambicioso Bruno Le Maire, com o qual o novo executivo tentará seduzir o eleitorado da direita clássica. Uma nota interessante, coerente com a sempre reiterada aposta de Macron no dossiê ecológico, é a escolha de Nicolas Hulot, figura mítica do ambientalismo francês – que até agora tinha resistido a todas as propostas para entrar ativamente na vida política.
Este governo é o “cartão de visita” que Macron vai apresentar perante o eleitorado que escolherá os deputados em 18 de junho. O que conseguir projetar como linha apelativa de rumo será decisivo para se perceber se, depois dessa data, conseguirá ou não uma “maioria estável e coerente”, como se dizia no Portugal pós-abril.
Um belo sinal do novo presidente foi, sem dúvida, a mensagem europeísta que resultou do seu encontro com Angela Merkel. Para Portugal, que tem no êxito do projeto europeu uma parcela significativa do seu interesse nacional futuro, o sucesso de Emmanuel Macron e a eficácia deste seu quase “governo nacional” seria uma muito boa notícia.

6 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Todos desejam o sucesso deste novo governo, porque sabemos que se no fim do mandato de cinco anos os dois dramas franceses – desemprego e reforma do trabalho - não forem resolvidos, a explosão em voo dos dois partidos tradicionais de governo, PS e Direita , já bastante danificados, será consumada com a chegada do FN ao poder.

Mas, na minha opinião, mesmo se obtiver a maioria absoluta no Parlamento, o que não é assegurado, a guerra vai ser renhida entre a oposição e o chefe de governo escolhido por Macron (na realidade foi ele que escolheu todo o governo!). E o “relais” será na rua, com os sindicatos. As coisas não serão fáceis, em França, e com Merckel também não. Mesmo se Macron se precipitou (como Hamon e Fillon) a Berlim para o tradicional gesto de “allégeance” à Chanceleira.

Macron finalmente foi eleito com 24% dos votos na primeira volta (sobre 70% de votantes) o que dá uma ideia da situação que o espera para as legislativas.

Claro que muitos daqueles que votaram Macron, para escapar a Le Pen, vão votar pelos deputados habituais.

Edouard Philippe é uma enguia jà conhecida no clube dos pescadores à linha. Mas a classe politica francesa deu um espectáculo que não será esquecido. E continua neste momento.

Foi socialista, jupéista, fillonista e depois macronista !

Dezenas de dirigentes e deputados do PS que se apresentavam como homens de Jaurés, fugiram para os braços de Macron, com Robert Hue, Alain Madelin e uma matilha a quem não confiaria (excepto debaixo da tortura), o meu cartão de crédito…

A direita a mesma coisa. Como conciliar Wauquiez, cripto-fascista e Juppé ? Coppé e Baroin?

Traidores, renegados, judas, falsos testemunhos, carreiristas envolvem o presidente, vindo de todos os lados, guiados pelos odores da cozinha politiqueira com as suas gamelas de sopa pestilenciais…
Aquele que o Senhor Embaixador notou como “ambicioso” , Bayrou, “encore lui”, é talvez o melhor exemplo destes cata-ventos da política francesa. Nicolas Hulot foi talvez aquele que fez o maior esforço de contorcionismo, porque entrar para um governo de Edouard Philippe, o homem de mão de Areva e do nuclear todos azimutes, “il faut le faire”… Veremos por quanto tempo...
Bruno Lemaire, que apontou a mais mortífera carga de metralha contra Macron durante as primárias, vai ser aquele que meterá o fogo nas ruas, com o programa de novos impostos programados.
Não, a França entra agora na fase mais delicada do quinquénio.

Anónimo disse...

Pois... pois...

Tudo é negativo quando não há restos de Mitterrand e companhias

Mas podem sempre chamar de novo a carbonária para desestabilizar ainda mais a França e aparecer qualquer coisa mais à direita do que a FN e terem de voltar à clandestinidade. Essa clandestinidade é sempre mais digna do que ter de enfrentar a derrota dos ideais socialistas.

Joaquim de Freitas disse...

« e Jean-Yves Le Drian, um fiel “hollandista”,

Como tem razão de escrever « fiel hollandista ». Se Macron lhe fechou a porta do Ministério da Defesa, é que, precisamente, Le Drian era “trop” hollandista, e que Macron quer ser o único “Chef des Armées” . Ora Le Drian, pouco a pouco, viu-se delegado por Hollande uma parte importante do poder desse Ministério. Com Macron, “c’est fini. Ao Quai d’Orsay, s’il vous plaît (ou pas !).

Anónimo disse...

"o sucesso de Emmanuel Macron e a eficácia deste seu quase “governo nacional” seria uma muito boa notícia."

tudo esta dito no "seria"

Anónimo disse...

"Não, a França entra agora na fase mais delicada do quinquénio."

Caro de Freitas, agora? Todo o quinquénio sera delicado. A França dificilmente aguentara as pressões que a esperam de tão quebrantada que esta. Não me diga que acredita na possibilidade de reformas e de paz social? Os seus "amigo" Emannuel eEdouard não governarão para ficar quietos. Num pais onde ainda tantos crêem que o mundo é como a França, onde ha tantas injustiças e desigualdades, tantos problemas de "recepção" e de integração, qualquer pequena coisa cria dificuldades a tantos. Não, não havera uma solução breve nem facil (pelo menos é a minha crença). Além disso ainda falta o caracter complicado, queixoso, insatisfeito, das gentes. Dizia outro dia um escritor francês "a França é um paraiso onde todos se crêem no inferno".

bem haja

blx disse...

Alecrim, Sr. Embaixador. Arlequim é outra coisa, como sei que sabe, mas perdoe-me o atrevimento.