sábado, 22 de julho de 2017

Loures e os ciganos da Europa

Em 1999, o então governador civil de Braga, Pedro Bacelar de Vasconcelos, foi objeto de fortes ataques, por virtude de ter tomado a defesa de ciganos, que estavam a ser vítimas de discriminação numa localidade daquele distrito. O governador não pretendia que, àqueles ciganos, fossem reconhecidos nenhuns direitos especiais; apenas se insurgiu contra comportamentos, racistas e discriminatórios, que os estigmatizavam, sob o silêncio cúmplice de algumas autoridades e a cobardia da maioria das forças políticas. Bacelar de Vasconcelos, que era e é um homem de bem, ouviu então "das boas" por parte do PS de Braga, que era sensível aos ventos populistas que sopravam contra os ciganos.

No ano seguinte, foi criado o Observatório Europeu do Racismo, Xenofobia e Anti-Semitismo, em Viena. Coube-me a mim, como secretário de Estado dos Assuntos Europeus, indicar o nome português para o conselho de administração desse Observatório. E, naturalmente, convidei Pedro Bacelar de Vasconcelos. A minha decisão não foi muito popular no seio do PS, tendo chegado a receber algumas chamadas telefónicas a tentar que "reconsiderasse" a minha escolha. Escolha que, naturalmente, mantive e se mostrou acertada, porquanto Bacelar de Vasconcelos fez um excelente trabalho, como mais tarde o faria como nosso representante na comissão que estabeleceu a Carta dos Direitos Fundamentais da UE!

Porque Portugal havia ganho "esporas" neste domínio, em 2000, durante a presidência portuguesa da União Europeia, tive a ideia de organizar em Lisboa, em conjugação com o comissário para o alargamento da UE, Gunther Verheugen, um seminário sobre a condição das populações ciganas, nos países que se preparavam para entrar para a Europa comunitário. Na antiga FIL de Lisboa, reunimos algumas centenas de pessoas, representando associações das populações "roma", com a presença de especialistas europeus credenciados, que desenharam um conjunto de propostas, parte das quais acabou por ficar plasmada nos documentos de adesão. Portugal foi vivamente saudado, em vários países europeus, por esta sua inédita iniciativa.

Espero que Loures não venha agora inaugurar um capítulo vergonhoso na imagem do nosso país neste domínio.

10 comentários:

Anónimo disse...

É curioso que V.Exa não refira que essa discriminação era, tão só, a revolta dos populares que estavam fartos de venda de droga numa freguesia do Norte. E que também não refira que essa famosa família de "excluídos", aos poucos, acabou por ir mesmo parar à cadeia.

Anónimo disse...

Vexa devia dizer quem foi que disse que reconsiderasse. Essa gente de baixo nivel deve ser conhecida pelo nome. Esse tipo de pressoes e de populismo é tao significante como a corrupçao e populismo de personagens tipo Fatima Felgueiras.





Anónimo disse...

Cheira-me que todo este repentino amor das pessoas "de bem" pelos "excluídos" ainda vai acabar em quotas para ciganos na Função Pública...

Pedro Carlos Bacelar de Vasconcelos disse...

Prezado Embaixador Francisco Seixas da Costa,
A pertinência da evocação é, infelizmente, flagrante mas não me dispensa de lhe transmitir o meu sincero agradecimento pela referência simpática ao meu envolvimento, ditado pela consciência das responsabilidades do cargo público que exerci, entre 1995 e 1999, como Governador Civil de Braga. E impõe-se reconhecer a imensa sensibilidade e inteligência do Secretário de Estado dos Assuntos Europeus que nessa ocasião tive o privilégio de conhecer!
Não nos resignaremos à regressão dessas conquistas cívicas e civilizacionais.
Com sincera admiração,
Pedro Bacelar de Vasconcelos

Anónimo disse...

Deixem-se de tretas e leiam o que o Pacheco Pereira escreve:
https://www.publico.pt/2017/07/24/sociedade/noticia/trump-e-os-ciganos-1780086

Anónimo disse...

E vejam a Quadratura do Círculo:
http://sicnoticias.sapo.pt/programas/quadratura/2017-07-21-Quadratura-do-Circulo-de-20-07-2017

O Pachecho Pereira também deve de ser um racista, fascista e xenófobo!...

Anónimo disse...

Na vida pública, tal como nos chega filtrada, não há assim muita gente por cuja coragem e princípios cívicos e de cidadania nutra sincera e não beliscada admiração. Pedro Bacelar de Vasconcelos é um dos escassos. Esteve à altura de si próprio.

Luis Filipe Gomes disse...

Poderia contar algumas histórias com "ciganos" passadas em Loures, na Apelação, num dos sítios quentes de conflicto em tempos do passado recente. Conto esta: De visita a um edifício, ao atravessar o átrio do primeiro andar, deparo com as portas abertas e nas paredes pequenas jarras com flores, moldurinhas com aves e figuras de Maria com Jesus ao colo, atapetando o chão, coloridas passadeiras de fitas. Duas mulheres pareciam limpar o que estava limpo. Trocámos saudações. O esmero daquele patamar surpreendeu-me e lembrou-me o esplendor de alguns patamares que conheci na Lisboa das Avenidas Novas. Decorridos alguns meses, ao passar na rua, reparo que as janelas daquele 1ª andar tinham os estores parcialmente fechados, partidos nos seu encaixe. Um ano depois os vestígios de abandono assumiram a desolação com as janelas arrasadas dos caixilhos de alumínio e os fios eléctricos arrancados das paredes.
Perguntei o que teria acontecido. Contaram-me que as duas mulheres tinham saído do bairro por não ser possível ali viverem com tranquilidade. "São ciganos ricos!" disse-me a minha interlocutora.
As pessoas que conheci em casas auto-construídas com chapas zincadas e madeiras usadas não viviam por sua vontade em condições precárias. O desenraízamento ou a ruptura social originam a segregação social e a marginalização e tanto fez que fosse na democrática Alemanha de 1932 ou que seja na União Europeia de 2017.

Anónimo disse...

Ora, aqui está um que diz tudo!
http://observador.pt/videos/atualidade/qual-e-o-verdadeiro-problema-com-os-ciganos-e-porque-que-o-bloco-acusa-e-o-pcp-guarda-silencio/

Anónimo disse...

25 de julho de 2017 às 17:45 cita o jornalista Fernandes que pode dizer muita coisas mas omite na análise que o comunista Bernardino Soares comentou o caso dos ciganos caindo em cima de Ventura. Veja-se https://pt-br.facebook.com/ostruques/posts/659708704226421

O jornalista Fernandes é um rapaz que veio do PREC e sempre teve dificuldades em distinguir a verdade da mentira, pelo que a acusação ao PCP faz sentido dentro do seu exótico modo de noticiar.

O jornalista Fernandes é um rapaz que fez propaganda pela existência de armas massivas no Iraque e que depois de dezenas de asneiras do género, completos falhanços de análise, continuou sempre empregado ainda sacou umas massas a uns amigos do Durão Barroso para fundar um blogue de extrema direita reaccionária