sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Em três pontos


1. Um dia, na segunda metade dos anos 70, a Embaixada de Portugal em Londres recebeu a visita de um militar de abril, membro do Conselho da Revolução.

Como se impunha, o embaixador ofereceu-lhe uma refeição. O repasto correu de forma simpática, na magnífica sala de jantar daquela que é, sem sombra de dúvidas, uma das mais belas residências que Portugal tem pelo mundo.

Num determinado momento da conversa, o nosso militar deixa cair uma confissão: "Vou contar-lhe um segredo, senhor embaixador: um dos meus maiores sonhos foi sempre poder vir a ser, um dia, embaixador de Portugal em Londres". 

Perante o silêncio protocolar do embaixador, o militar não ficou sem resposta. Um jovem diplomata presente não resistiu e retorquiu: "Tem graça, senhor major. No meu caso, sempre tive como ambição de vida ser comandante da Região Militar Norte"...

O major, inteligente e perspicaz, entendeu o recado. E mudou de conversa.

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2. Não sou bruxo. Mas, em 10 de novembro de 2017, escrevi na minha coluna no “Jornal de Notícias” um artigo de que respigo este extrato:

“Mário Soares confessava ter chegado ao palácio das Necessidades, após o 25 de abril, com fortes interrogações sobre a carreira diplomática que, antes da Revolução, tinha defendido externamente as políticas do regime derrubado, nomeadamente a política colonial. Mas rapidamente se terá apercebido de que, com muito escassas exceções, o corpo de funcionários que o MNE punha à disposição do novo regime era constituído por dedicados servidores públicos, com grande sentido patriótico e lealdade funcional ao Estado. 

A democracia e a estabilidade da sua representação externa muito ganharam com a continuidade que Soares então preconizou e veio a prevalecer. Isso não impediu que, em ciclos políticos diferentes, o novo regime não tenha sido tentado a nomear quase uma trintena de “embaixadores políticos”. Desde 2011, não há nenhum chefe de missão exterior à carreira diplomática portuguesa, mas sinto que a tentação poderá não ter desaparecido por completo nas nossas hostes político-partidárias, da esquerda à direita. Espero que a maturidade da democracia portuguesa seja suficiente para, no futuro, ser capaz de resistir às tentações e que o chefe do Estado disso seja um guardião atento.”

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3. Acabo de ler que o professor António Sampaio da Nóvoa, antigo reitor da Universidade de Lisboa e candidato à Presidência da República - candidatura a que dei o meu apoio público e o meu voto privado - foi indicado pelo governo para vir a assumir a chefia da representação diplomática portuguesa junto da Unesco.

Sem retirar, naturalmente, uma linha que seja ao que escrevi nos pontos anteriores, quero aqui desejar ao meu amigo António Sampaio da Nóvoa as maiores felicidades no futuro exercício do cargo. Tenho a certeza de que o fará com o brilho e o elevado sentido de Estado que sempre demonstrou em todas as funções públicas que até hoje desempenhou. Para o bem de Portugal.

4 comentários:

jj.amarante disse...

Em vez de "na segunda década dos anos 70" não será "na segunda metade"? E mesmo assim seria ligeiramente pleonásmico pois se um membro do Conselho da Revolução foi à embaixada de Londres bastaria dizer "nos anos 70" tanto mais que o vice-rei do Norte não apareceu imediatamente a seguir ao 25Abr1974.

João Pedro Lopes disse...

O que é a segunda década dos anos 70?

Anónimo disse...

Foi muito diplomata, o militar, um verdadeiro cavalheiro. Podia ter respondido à piada de salão do jovem diplomata arrogante que pode haver excelentes embaixadores políticos e péssimos embaixadores de carreira e que para se chegar a comandante militar o treino e o esforço talvez seja um bocadinho maior do que muitos têm para chegar a embaixador.

dor em baixa disse...

Não foi nada diplomata, o diplomata. Levou-se demasiado a sério.
Alguém reagiria neste tom se o militar declarasse, numa visita à escola militar francesa, que o que sempre sonhara era ser um militar como Napoleão?