sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sobre a independência



A decisão do Conselho Geral Independente da RTP, que integro, de reformar a composição da administração da empresa inundou-me de telefonemas, sms e emails: “A decisão desagrada a muitos amigos teus, sabias?”

Dias depois, um texto que escrevi no meu blogue, escandalizado com o primarismo do presidente do Sporting, soltou brados leoninos: “Nem pareces sportinguista! Isso vai ser aproveitado pelos outros!”. 

Ontem, depois de ter dado expressão pública do meu desagrado, pelo facto do governo ter nomeado um embaixador político, ouvi, de um lado ideológico que me é próximo: “Com o teu gesto, dás armas à oposição e à especulação mediática”.

Vamos a ver se nos entendemos! Sou, como muitos leitores, um cidadão que pensa pela sua cabeça, cujas ideias não se orientam pelas conjunturas e pelo que “dá jeito”. Não faço parte daquelas pessoas com que Groucho Marx ironizava: “Estes são os meus princípios. Se não gostarem, tenho outros”. Eu não tenho outros. Penso o que penso, gostem ou não.

Falarei pouco da RTP, tema em que, por lei, estou sujeito a secretismo. Fui nomeado pelo governo, que sabia que, a partir desse momento, a minha independência no exercício do cargo seria plena. Tem-no sido e continuará a ser, nos anos de mandato que se seguirão. Farei apenas que entender melhor para o serviço público de rádio e de televisão.

Mas falo livremente do Sporting. Sinto-me triste pelo facto do clube de que sou adepto, muito antes do seu atual presidente ser sequer nascido, estar prestes a ser vítima de uma espécie de golpe de estado - neste caso, estádio seria talvez mais adequado... Uma mudança totalitária que, segundo alguns, pode mesmo vir a colocar em risco o estatuto de “utilidade pública”, com todas as consequências, legais e práticas, daí decorrentes. O facto desta polémica poder estar a ajudar a divergir as atenções sobre os pecadilhos de outros não me convence. O que se passa no Sporting é uma vergonha.

Ontem, escrevi noutro jornal contra a decisão do governo de nomear, para um lugar no quadro da profissão que foi a minha por quatro décadas, uma personalidade a ela totalmente alheia, como se a diplomacia não devesse ser, como as forças armadas ou o mundo judicial, uma carreira estruturada, especializada e exclusiva. Imagino, isto é, sei que o governo não deve ter gostado que eu dissesse o que disse. Custou-me fazê-lo, não apenas porque apoio este governo e a sua política externa, mas porque o nome escolhido é alguém que muito prezo, que apoiei publicamente, e em quem votei privadamente, aquando do último sufrágio presidencial. Mas é o que eu penso.

Sou prisioneiro da minha independência, mas isso é o preço da minha liberdade.

10 comentários:

José Neves disse...

Quem preza a sua independência e liberdade não precisa de proclamar os seus princípios, basta praticá-los. A crítica à decisão de afastamento do Nuno Artur Silva da RTP é perfeitamente justificada. A falta de fundamentos para a decisão, a evidente contradição com a decisão anterior do mesmo CGI da RTP de o manter no cargo e o facto da decisão ser sido tomada após uma campanha publica de difamação do mesmo com o propósito de o afastar, é lamentável. Os contribuintes tem todo o direito de pedir explicações e os membros do CGI tem a obrigação de as dar em nome do dever de transparência a que estão legalmente obrigados.

Luís Lavoura disse...

Sinto-me triste pelo facto do clube de que sou adepto estar prestes a ser vítima de uma espécie de golpe de estado

O Francisco desculpe, eu não entendo nada deste assunto, aliás nem sou adepto do Sporting, por isso eu pedia ao Francisco que explicasse esta frase. Quem é que está a tentar dar um golpe de estado no Sporting? E porque é que o Francisco considera que esse golpe de estado seria uma "mudança totalitária"?

Luís Lavoura disse...

Poderia o Francisco por favor explicar quem é que está a pretender dar um "golpe de Estado" no Sporting e porque é que o Franscico considera que esse golpe seria uma "mudança totalitária"?
Faço a pergunta com sinceridade: não sou do Sporting, não entendo o que está em causa, mas gostaria de entender, ao menos, o ponto de vista do Francisco.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

É a factura que paga quem pensa, como diz e bem, pela sua própia cabeça. É a única factura que pago com inteiro agrado e gozo.

O Embaixador está triste com o seu Sporting. Comigo passa-se oe mesmo: estou triste com o que se passa com o meu Benfica...

Anónimo disse...


A liberdade não tem a ver com as ideias de cada um, mas sim com a sua autonomia de pensamento.
Tudo aquilo a que chamavam as "amplas liberdes democráticas" não era senão a obdiência cega a um partido. Era até primordial que a pessoa não fosse autónoma para a tornar dependente das decisões do partido.
Enfim...espera-se que esses tempos não voltem.

Luís Lavoura disse...

Anónimo,
não, as amplas liberdades democráticas não são a obediência cega a nenhum partido. As amplas liberdades democráticas consistem em um partido poder livremente receber dinheiro de um seu militante ou simpatizante e em todos os militantes ou simpatizantes poderem livremente doar o seu dinheiro ou propriedades, em quantidade ilimitada, ao seu partido. As amplas liberdades democráticas consistem em um partido poder manter secretos os nomes dos seus militantes. As amplas liberdades democráticas consistem em um partido poder decidir livremente se as suas eleições internas se fazem por braço no ar ou por voto secreto.
O PCP defende as amplas liberdades democráticas. Infelizmente alguns outros partidos rejeitam-nas.

Reaça disse...

Os clubes em Portugal abrilista têm servido para "sacanas" se promoverem.

O Sporting é o caso mais vergonhoso.

Excepções? Como em todas as regras lá teremos alguma.

Ser presidente no antes,tinha que primeiro passar pela peneira.

Para ser Juiz idem!

Anónimo disse...

Sabem o que me faz impressão? É ver pessoas que passam a vida a debitar sobre a moralidade, e o Estado, e a Grande Política, acabarem TODAS por virem parar à porcaria do assunto dos clubes de futebol.

Anónimo disse...

@ Lavoura.
Parece que o sr. não se encontrava em Portugal até 1978 pois o que todos os partidos queriam eram as amplas liberdades democráticas que o PCP apregoava.
Se depois dessa altura passaram a não querer e com razão, é outra coisa.

Anónimo disse...

Oh anónimo das 00.21 não percebeu qué tudo igual: O método aplicado ao futbol aplica-se facilmente ao resto e vice-versa.